Não costumo fazer postagens muito grandes, mas essa experiência me chamou atenção. Adaptações
de obras literárias, teatrais ou similares para outra linguagem sempre requer
bastante dedicação e desprendimento para, ao mesmo tempo, agradar e abstrair os
anseios dos fãs mais ardorosos de uma determinada obra. Cineastas do quilate já
cometeram grandes erros – como em O Caçador de Pipas e 127 Horas - e acertos inquestionáveis
– O Senhor dos Anéis e O Poderoso Chefão. E algumas obras, como esta sobre a
qual versarei, ganham dois diretores com experiências e visões diferentes - caso de Stieg Larsson e o primeiro filme de
sua trilogia Millenium – Os homens que não amavam as mulheres. Nesta postagem,
tentarei estabelecer uma comparação entre o trabalho desenvolvido pelos dois
diretores a partir do mesmo trabalho, para tentar compreender como a adaptação
de texto por um roteirista e a visão do diretor contribuem para transportar uma
obra com eficiência para as telas.
Antes
de tudo, o enredo: a história acontece na Suécia, em que o jornalista Mikael
Blomkvist está recebendo os revezes por ter acusado um grande empresário de crimes
sem ter conseguido provar e, subitamente, recebe o convite para investigar um
caso que se dava como perdido na cidade de Hedestad. Em 1966, Harriet Vanger, jovem
herdeira de um império industrial, some sem deixar vestígios. No dia de seu
desaparecimento, fechara-se o acesso à ilha onde ela e diversos membros de sua
extensa família se encontravam. Desde então, a cada ano, Henrik Vanger, o velho
patriarca do clã, recebe uma flor emoldurada, em seu aniversário - o mesmo
presente que Harriet lhe dava, até desaparecer. Henrik está convencido de que
ela foi assassinada por um de seus parentes, por ganância pelo fato de ela ser
a possível herdeira de todo o império industrial de Henrik.
Atenção: a partir deste trecho, existem revelações sobre o
enredo.

Ao
assistir aos dois filmes no mesmo dia, pude perceber evidências que tornam o
saldo de Fincher mais positivo em relação à visão de Oplev, incrementando
detalhes que fazem a diferença. No quesito roteiro, no filme de Fincher, Steven
Zaillian concebe equilibrar vários aspectos que, no filme sueco, terminam se
perdendo: as personagens Erika Berger, Dirch Frode, a filha de Mikael e o
núcleo familiar dos Vanger ganham maior relevância e uma evidência melhor
desempenhada. Isso, no filme sueco se perde, pois Erika aparece somente no
início do filme, Dirch Frode não é retomado depois que apresenta Mikael e
Henrik, a filha aparece sucessivas vezes depois da cena da festa de Natal e a
família Vanger é apresentada rapidamente com uma sequência de fotos e uma lista
de nomes jamais decorada pelo espectador. Outro quesito importante o filme de Fincher
é a clareza do seu desenvolvimento, podemos destrinchar algumas cenas para
melhor argumentar meu posicionamento:
- A abertura
de Fincher já ganha o espectador de cara pelo visual clipeiro e modernoso
que enfatiza seu lado designer.
- A relação
entre Mikael, Erika e o affair
que destruiu o casamento dele é explicitada, algo que, no sueco, fica tão
subliminar que não se entende.
- O
relacionamento entre Lisbeth e seu antigo tutor fica mais clara: no filme
americano, ela o socorre no seu derrame, enquanto que, no sueco, essa
relação não aparece por que ela recebe a notícia pelo telefone e não reage
com tanta veemência à mesma.
- A
explicação de Henrik sobre o que acontecia no dia do desaparecimento de
Harriet: no filme sueco, é uma longa explicação envolvendo o acidente, o
desfile e as pessoas envolvidas, enquanto que, no americano, Fincher usa flashbacks
que fixam melhor na mente do público estes eventos.
- A fórmula
para Henrik convencer Mikael é bem mais eficiente: enquanto que, no sueco,
Oplev investia em uma relação entre o jornalista e Harriet como se ela
fosse babá dele, Fincher simplifica, expondo que Henrik possui revelações
importantes sobre Wennerström, o que, claro, interessaria e muito a
Mikael. Essa solução, ao mesmo tempo, não deixa Wennerström avulso na
trama, como acontece no sueco.
- O modo como
Lisbeth e Mikael aparecem um na vida do outro é mais lógico: mesmo que
Mikael procure Lisbeth para ajudá-lo em um aspecto da investigação – como no
filme de Fincher - do que ela lhe mande um e-mail que lhe dá certas informações e, depois, recuse-se a
recebê-lo quando ele lhe procura.
- A exposição
da descoberta das garotas mortas: enquanto Oplev destrincha cada vítima
uma a uma, descobrindo as citações que se relacionam a elas aos poucos, o
filme americano faz isso brevemente, ganhando ritmo e dinamicidade em seu
desenvolvimento.
- A apresentação
da infância de Lisbeth, ao invés dos flashbacks desnecessários do filme
sueco, ganha uma confissão sussurrada de Rooney Mara no filme de Fincher,
o que evolui o desenvolvimento da relação entre os personagens ao mesmo
tempo que transmite a informação necessária.
- A relação
entre Lisbeth e Mikael fica mais clara, principalmente, no final do filme,
em que Fincher consegue criar uma relação de fato humana e de amizade
entre o rapaz e a moça e capturar toda a decepção dela em vê-lo nos braços
de Erika ao final do filme, encerrando o longa com um nó no estômago.
- Além dessas
cenas, temos outros acertos do longa de Fincher: a apresentação de Mikael –
por meio de uma reportagem em uma TV de lanchonete – e da família Vanger –
com Henrik mencionando cada um e apontando suas casas –; o velho Harald
deixa de ser um simples despiste de suspeita no filme sueco para ser um
velho nazi até simpático; as visitas que Lisbeth faz no asilo serem ao pai,
não à mãe, pois criamos a relação de violência que ela lhe fez e sentimos
a dor dessa relação.
Mas
nem só de acertos vivem ambos os filmes, pois podemos apontar algumas falhas
que existem tanto em um como em outro:
- O
personagem do tutor postiço de Lisbeth desaparece da trama depois da sessão
de tortura que ela infringe sobre ele, ganhando um pouco mais de espaço no
longa de Fincher do que no de Oplev, mas faz falta na narrativa.
- O jeito de Fincher
exibir Mikael descobrindo que os nomes e números anotados por Harriet são
citações bíblicas: sua filha que participa de Estudos Bíblicos afirma que
são citações. É difícil imaginar uma adolescente que, mesmo que lesse a
bíblia diariamente, olharia os nomes e números e deduziria rapidamente que
seriam passagens bíblicas. No sueco, este aspecto se resolve melhor: esta
informação é descoberta por Lisbeth, uma investigadora bastante eficiente
para estabelecer esse tipo de relação.
- A maneira
como ambos expõem que Harriet está vivendo sob o nome de Anita: no sueco, um
hacker amigo de Lisbeth afirma que existem duas Anita Vanger – o que seria
um erro para quem não gostaria de ser descoberto, sendo ideal uma troca
completa de nome –; enquanto que, no americano, acontece em uma explicação
confusa demais para ser entendida de primeira.
Depois de toda essa experiência, meu voto vai
mesmo para Fincher, já que ele conseguiu transpor com maior transparência e
equilíbrio a obra de Larsson para as telas.