26/02/2012

Histórias Cruzadas - Déjà vu? Sim, com certeza!


Vimos essa história diversas vezes: uma pessoa decide lutar pelos direitos dos negros, com discursos contra a segregação racial e toda sorte de preconceitos que possam existir, com músicas triunfantes e toda a receita do bolo. E, claro, Histórias Cruzadas (The Help, 2011, Tate Taylor) não poderia ser diferente: Skeeter é um jovem sulista que consegue um emprego em um jornal da cidade e, com a convivência mais próxima com as empregadas negras Aibellin e Minny, tem a ideia de escrever suas histórias num livro chamado The Help – “a ajuda”, como os empregados são chamados (“uma ajuda no lar”). Mas as histórias desagradam às patroas, que logo se reconhecem nas narrativas do livro e fazem de tudo para pôr um ponto final na confusão que a revelação das mesmas pode promover.

Dito dessa forma, não parece uma história com grande potencial, já que existem tantas como essa em telefilmes espalhados pela televisão norte-americana, assim como parecia um bocado ultrapassado resgatar “filmes de racismo” quando esse parece ser um assunto ultrapassado. A eleição ao primeiro presidente negro nos EUA com certeza foi um passo histórico, mas ainda precisamos nos lembrar de onde viemos, pois nunca se sabe quem será o ‘bode expiatório’ da vez: os árabes, quem sabe. Tate Taylor, apesar de não conseguir fugir da fórmula de filmes edificantes, escreve o roteiro – com excessos que poderiam ser retirados com ajuda de um roteirista assistente - e dirige um longa que consegue extrair o máximo de seu elenco multifacetado.

Vinda das comédias românticas e de alguns filmes menos convencionais, Emma Stone fundamenta seu chão em Hollywood e pode se tornar anova Anne Hathaway, que começa com no romance e começa enveredar pelo drama. Enquanto isso, Viola Davis se firma como uma das maiores atrizes da atualidade, sempre fazendo um bom trabalho mesmo nas menores participações, principalmente nos minutos finais, quando Taylor sabiamente deixa a câmera estática por alguns segundos, capturando a reação de sua personagem a uma notícia decepcionante em certo momento da narrativa. Ela e Octavia Spencer dominam a tela, construindo figuras cativantes não pela tragédia, mas pela força e simpatia que demonstram ao longo de sua trajetória. Mas claro que a maioria branca consegue ter duas atrizes de peso, mas que jamais ofuscam suas estrelas principais: se Bryce Dallas Howard ganha nosso ódio em cada fotograma, com certeza Jessica Chastain se transforma completamente desde os primeiros segundos, não deixando nenhuma pista de seu trabalho denso e dramático em A Árvore da Vida. Não assista esse longa pensando que vá mudar o cinema ou a si mesmo, mas assista-o para observar esse elenco belo e coeso contando uma história antiga.

De Repente, Califórnia e o ir além do "final feliz"




As histórias de amor homossexuais, se antes eram uma raridade, tem povoado cada vez mais o cinema – vide O Segredo de Brokeback Mountain, Meninos não Choram, Amigas de Colégio e tantos outros. De coadjuvantes simpáticos, eles estão passando a protagonistas, gerando um gênero e fórmula próprios, assim como as comédias românticas: garot@ conhece garot@ e se aproximam, um(a) está atraído(a) e o (a) experimenta um beijo ou uma noite de sexo. Depois, este(a) se arrepende e dizem que a experiência não pode se repetir, mas o amador não resiste e, depois de muito tentar, termina voltando e assumindo a relação.

Em De Repente, Califórnia (Shelter, 2009, Jonah Markowitz), estamos em San Pedro, bairro mais pobre e feio que a glamourosa Los Angeles, em que Zach divide o apartamento com sua irmã, Jeannie, Cody, filho dela, e seu pai e precisa lidar diariamente com a frustração de não ter ido para a escola de artes que fica na cidade grande com os problemas no relacionamento com Tori. Com a chegada de Shaun, irmão de seu melhor amigo, Gabe, para passar umas semanas surfando e se recompondo de um relacionamento frustrado na cidade, Zach conhece um amor até então desconhecido para ele: Shaun parece ser a única pessoa que acredita no potencial que ele tem como artista.

Ao assistir ao filme, tenho me dado conta do quanto o cinema independente norte-americano está anos-luz adiante na representação do homossexual, quando vemos dois rapazes surfistas sem quaisquer trejeitos efeminados compondo um casal cativante. O casal cativa o espectador, com o discurso de que maior dificuldade para o casal homossexual reside em assumir a relação. Entretanto, o      que falta a esse longa é um pouco menos “conto de fadas”: as relações homossexuais passam pelos mesmos problemas de qualquer outra e ainda faltam filmes além do felizes para sempre.

Alguns exemplares além do “final feliz” têm aparecido, como Minhas Mães e Meu Pai e Como Esquecer, já que nossa tendência é ficar cada vez mais maduros e enxergar o mundo de maneira menos Disney possível. Não que a sessão de Shelter tenha sido ruim, mas, com certeza, por mais que precisemos dessa ingenuidade para sonhar com um belo dia na praia onde se possa andar de mãos dadas com o ser amado, ainda necessitamos de um pouco mais para sobreviver nesse mundo.

A ingenuidade piegas de Cavalo de Guerra



Com o passar dos anos, nós, como público, acostumamo-nos a conhecer duas faces de Spielberg: aquele que conduz a arte e diversão no cinema para frente com filmes adultos e aquele que faz filmes planejados para ganhar o Oscar. Foi o primeiro Spielberg que fez Minority Report, Jurassic Park, Munique e O Resgate do Soldado Ryan, mas foi o segundo que fez Amistad e este Cavalo de Guerra (War Horse, 2011).

O enredo é básico: família em dificuldade financeira precisa comprar um cavalo para arado, mas o pai afeiçoa-se a um cavalo jovial e rebelde      que não serve para esse tipo de serviço. Endivida-se, mas seu filho, Albert, adota  cavalo como seu, dando-lhe o nome de Joey e o ensina a arar até que o pai, para pagar uma dívida com seu senhorio, precisa vender o cavalo para o exército diante da explosão da Primeira Guerra Mundial. Joey, então, passará por vários donos: soldados ingleses, soldados alemães e até uma menininha órfã, até que consiga encontrar novamente seu dono.

Atenção: a partir deste trecho, existem revelações sobre o enredo.

Sem trazer nada de novo no quesito roteiro, Spielberg aproveita para investir na direção de arte, na fotografia, na trilha sonora e conseguem dinamizar uma história que poderia ser bastante maçante, não somente pelo tema ultrapassado, mas também pelo caráter episódico do enredo. Ainda por cima, ele consegue emocionar em alguns momentos, como na cena em que o cavalo fica preso em arame farpado e, dessa forma, promove até uma trégua entre os inimigos de guerra e o final, em que Joey e Albert chegam de volta à fazendo em um pôr do sol que relembra os clássicos de Hollywood em Technicolor.

Em suma, mesmo que seja mais do mesmo, não se pode negar que Spielberg sabe mesmo o que fazer por trás de uma câmera. Depois de tantas obras relevantes, podemos lhe dar a chance de fazer obras para atender ao mercado e, de quebra, emocionar plateias mais ingênuas.

Albert Nobbs e as identidades que vestimos



O que nossos nomes dizem sobre nós? Será que é a forma como nos vestimos e conduzimos nossas vidas que, de fato, definem quem somos nós? Ou somos muito mais do que os signos que empregamos para comunicar quem somos? Nesses últimos meses, entrei em contato com dois bons filmes – A Pele que Habito e este que comento - que discutem a questão da identidade e como procuramos defini-la a partir de parâmetros, nomenclatura, gêneros sexuais: homem, mulher, homo, hetero, trans, bi, etc. Têm surgido tantas camadas da sexualidade humana por que somos seres tão complexos que não conseguimos caber em todas as estantes que criamos para conseguir nos compreender.

Atenção: A partir deste ponto, temos revelações sobre o enredo.

Albert Nobbs (idem, 2011, Rodrigo Garcia) trata da história do mordomo que dá título ao filme, que, na verdade, é uma mulher que se transveste como homem para manter seu emprego e conseguir montar seu próprio negócio e família a partir do dinheiro que economizar. Durante seu trabalho no hotel da Sra Walker, Nobbs precisa dividir o quarto por uma noite com Sr Page,    que, assim como ele, também é uma mulher disfarçada de homem e com quem o mordomo passará a confidenciar seus anseios de casar com uma mulher e montar uma tabacaria.

Interessante como em certo momento da narrativa, quando Sr Page pergunta a Nobbs seu nome verdadeiro – ou o nome de mulher -, ele responde: “Albert”, percebemos que se trata de um filme sobre identidade, mais do que sexualidade. Não sabemos se Albert se habituou a ser homem ou se desejou sê-lo sempre, mas o importante é que, para ele, tudo isso se tornou um caminho sem volta, uma máscara que se misturou não somente ao seu rosto, mas à sua alma. Neste trabalho, Glenn Close e Janet McTeer transmitem tamanha verdade em seus personagens que, por vezes, esquecemos que são mulheres e nos permitimos acompanhara a trajetória de duas pessoas na tela. Tudo o mais – figurino, cenografia, fotografia, trilha sonora etc – adequam-se à proposta, mas jamais se sobressaem.

A Invenção de Hugo Cabret e o redescobrir o Cinema


Esse longa, junto com O Artista, pode ser descrito como uma das maiores das homenagens ao cinema deste ano que se inicia, ainda mais pelo cineasta que se consagrou como um dos maiores artistas da sétima arte nos anos 70, quando nomes como Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas começavam a crescer.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011, Martin Scorsese), à primeira vista, tem um enredo incomum para o diretor de Cassino, Caminhos Perigosos e Taxi Driver: Hugo é um rapaz órfão que mora no relógio da estação de metrô e que precisa das peças dos brinquedos do comerciante George para reconstruir um autômato deixado para ele por seu pai, morto no incêndio da relojoaria em que trabalhava.Diversas reviravoltas acontecem até percebermos a homenagem que a narrativa oferece ao próprio cinema, permitindo-nos enxergar no diretor tamanha esperança na capacidade de sonhar.

Com esse filme, é possível ver Martin como uma criança que se fascinou desde cedo pelo cinema, como o próprio Hugo, cuja missão se tornou compartilhar sonhos e realidade com as outras pessoas. O elenco é simplesmente OK, não tendo grande destaque no filme, que, por sinal, se arrasta em certos momentos, mas os outros elementos tomam em cheio o espectoador: a trilha sonora, a direção de arte belíssima, a edição fluida, assim como o 3D que nos ambienta nos espaços por onde os personagens caminham.

Entretanto, é triste perceber que essa grata experiência de ver uma homenagem tão bela e ingênua como uma forma de apresentar o início da arte cinematográfica a plateias mais jovens provavelmente seja algo sofisticado demais para plateias acostumadas à pipoca, ao refrigerante e aos bonecos de Transformers e Avatar. Serão poucos os que, depois de assistir ao filme, pesquisarão no Google quem foi George Meliés ou se interessarão pelos seus filmes, em comparação àqueles que pedirão aos pais os bonecos de Toy Story 3. O que fizemos com nossa capacidade de sonhar?

A Dama de Ferro - O que é dirigir um filme?


Depois de assistir a esse filme, tive sérias dúvidas sobre o que seria dirigir um filme, sobre que tipo de experiência um diretor deseja proporcionar àqueles que estão na tela: se seria tensão ou incômodo para alguns ou alegria e superação para outros. No caso deste A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011), saí completamente esvaziado. Sim, não consegui ter qualquer experiência agradável ou desagradável diante das intermináveis duas horas de projeção, além de perceber o quanto Meryl Streep esforçava-se para trazer verdade para todos os clichês motivacionais que o roteiro e a direção esforçavam-se por destilar a cada frame.

Mesclando passado e presente, a trama versa sobre a ex-Primeira Ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher, sua ascensão, anos de governo e decadência pós-governo, focando basicamente na frustração da senhora em se sentir inútil diante da velhice. Entretanto, a experiência torna-se pavorosa por que tanto roteiro como direção são ineficientes em dinamizar ou trazer qualquer arco dramático para a narrativa de Thatcher, que tanto potencial tinha para render um bom filme. Com enquadramentos e montagem equivocados, Lloyd só não consegue fazer deste filme um erro completo por que tem como trunfo a dama de Streep enchendo a tela de força e frustração em suas duas fases.

Com certeza, faltou à diretora impregnar-se dessa história e saber como transmiti-la para o público. A dama de ferro ainda nos deve um filme à altura de sua grandiosidade.

11/02/2012

Fincher X Oplev - Os homens que não amavam as mulheres






Não costumo fazer postagens muito grandes, mas essa experiência me chamou atenção. Adaptações de obras literárias, teatrais ou similares para outra linguagem sempre requer bastante dedicação e desprendimento para, ao mesmo tempo, agradar e abstrair os anseios dos fãs mais ardorosos de uma determinada obra. Cineastas do quilate já cometeram grandes erros – como em O Caçador de Pipas e 127 Horas - e acertos inquestionáveis – O Senhor dos Anéis e O Poderoso Chefão. E algumas obras, como esta sobre a qual versarei, ganham dois diretores com experiências e visões diferentes -  caso de Stieg Larsson e o primeiro filme de sua trilogia Millenium – Os homens que não amavam as mulheres. Nesta postagem, tentarei estabelecer uma comparação entre o trabalho desenvolvido pelos dois diretores a partir do mesmo trabalho, para tentar compreender como a adaptação de texto por um roteirista e a visão do diretor contribuem para transportar uma obra com eficiência para as telas.

Antes de tudo, o enredo: a história acontece na Suécia, em que o jornalista Mikael Blomkvist está recebendo os revezes por ter acusado um grande empresário de crimes sem ter conseguido provar e, subitamente, recebe o convite para investigar um caso que se dava como perdido na cidade de Hedestad. Em 1966, Harriet Vanger, jovem herdeira de um império industrial, some sem deixar vestígios. No dia de seu desaparecimento, fechara-se o acesso à ilha onde ela e diversos membros de sua extensa família se encontravam. Desde então, a cada ano, Henrik Vanger, o velho patriarca do clã, recebe uma flor emoldurada, em seu aniversário - o mesmo presente que Harriet lhe dava, até desaparecer. Henrik está convencido de que ela foi assassinada por um de seus parentes, por ganância pelo fato de ela ser a possível herdeira de todo o império industrial de Henrik.

Atenção: a partir deste trecho, existem revelações sobre o enredo.




Ao assistir aos dois filmes no mesmo dia, pude perceber evidências que tornam o saldo de Fincher mais positivo em relação à visão de Oplev, incrementando detalhes que fazem a diferença. No quesito roteiro, no filme de Fincher, Steven Zaillian concebe equilibrar vários aspectos que, no filme sueco, terminam se perdendo: as personagens Erika Berger, Dirch Frode, a filha de Mikael e o núcleo familiar dos Vanger ganham maior relevância e uma evidência melhor desempenhada. Isso, no filme sueco se perde, pois Erika aparece somente no início do filme, Dirch Frode não é retomado depois que apresenta Mikael e Henrik, a filha aparece sucessivas vezes depois da cena da festa de Natal e a família Vanger é apresentada rapidamente com uma sequência de fotos e uma lista de nomes jamais decorada pelo espectador. Outro quesito importante o filme de Fincher é a clareza do seu desenvolvimento, podemos destrinchar algumas cenas para melhor argumentar meu posicionamento:

  • A abertura de Fincher já ganha o espectador de cara pelo visual clipeiro e modernoso que enfatiza seu lado designer.
  • A relação entre Mikael, Erika e o affair que destruiu o casamento dele é explicitada, algo que, no sueco, fica tão subliminar que não se entende.
  • O relacionamento entre Lisbeth e seu antigo tutor fica mais clara: no filme americano, ela o socorre no seu derrame, enquanto que, no sueco, essa relação não aparece por que ela recebe a notícia pelo telefone e não reage com tanta veemência à mesma.
  • A explicação de Henrik sobre o que acontecia no dia do desaparecimento de Harriet: no filme sueco, é uma longa explicação envolvendo o acidente, o desfile e as pessoas envolvidas, enquanto que, no americano, Fincher usa flashbacks que fixam melhor na mente do público estes eventos.
  • A fórmula para Henrik convencer Mikael é bem mais eficiente: enquanto que, no sueco, Oplev investia em uma relação entre o jornalista e Harriet como se ela fosse babá dele, Fincher simplifica, expondo que Henrik possui revelações importantes sobre Wennerström, o que, claro, interessaria e muito a Mikael. Essa solução, ao mesmo tempo, não deixa Wennerström avulso na trama, como acontece no sueco.
  • O modo como Lisbeth e Mikael aparecem um na vida do outro é mais lógico: mesmo que Mikael procure Lisbeth para ajudá-lo em um aspecto da investigação – como no filme de Fincher - do que ela lhe mande um e-mail que lhe dá certas informações e, depois, recuse-se a recebê-lo quando ele lhe procura.
  • A exposição da descoberta das garotas mortas: enquanto Oplev destrincha cada vítima uma a uma, descobrindo as citações que se relacionam a elas aos poucos, o filme americano faz isso brevemente, ganhando ritmo e dinamicidade em seu desenvolvimento.
  • A apresentação da infância de Lisbeth, ao invés dos flashbacks desnecessários do filme sueco, ganha uma confissão sussurrada de Rooney Mara no filme de Fincher, o que evolui o desenvolvimento da relação entre os personagens ao mesmo tempo que transmite a informação necessária.
  • A relação entre Lisbeth e Mikael fica mais clara, principalmente, no final do filme, em que Fincher consegue criar uma relação de fato humana e de amizade entre o rapaz e a moça e capturar toda a decepção dela em vê-lo nos braços de Erika ao final do filme, encerrando o longa com um nó no estômago.
  • Além dessas cenas, temos outros acertos do longa de Fincher: a apresentação de Mikael – por meio de uma reportagem em uma TV de lanchonete – e da família Vanger – com Henrik mencionando cada um e apontando suas casas –; o velho Harald deixa de ser um simples despiste de suspeita no filme sueco para ser um velho nazi até simpático; as visitas que Lisbeth faz no asilo serem ao pai, não à mãe, pois criamos a relação de violência que ela lhe fez e sentimos a dor dessa relação.

Mas nem só de acertos vivem ambos os filmes, pois podemos apontar algumas falhas que existem tanto em um como em outro:

  • O personagem do tutor postiço de Lisbeth desaparece da trama depois da sessão de tortura que ela infringe sobre ele, ganhando um pouco mais de espaço no longa de Fincher do que no de Oplev, mas faz falta na narrativa.
  • O jeito de Fincher exibir Mikael descobrindo que os nomes e números anotados por Harriet são citações bíblicas: sua filha que participa de Estudos Bíblicos afirma que são citações. É difícil imaginar uma adolescente que, mesmo que lesse a bíblia diariamente, olharia os nomes e números e deduziria rapidamente que seriam passagens bíblicas. No sueco, este aspecto se resolve melhor: esta informação é descoberta por Lisbeth, uma investigadora bastante eficiente para estabelecer esse tipo de relação.
  • A maneira como ambos expõem que Harriet está vivendo sob o nome de Anita: no sueco, um hacker amigo de Lisbeth afirma que existem duas Anita Vanger – o que seria um erro para quem não gostaria de ser descoberto, sendo ideal uma troca completa de nome –; enquanto que, no americano, acontece em uma explicação confusa demais para ser entendida de primeira.

Depois de toda essa experiência, meu voto vai mesmo para Fincher, já que ele conseguiu transpor com maior transparência e equilíbrio a obra de Larsson para as telas.

07/02/2012

Preciosa?




A angústia sobre si mesmo, pode-se dizer, é quase uma doença que tem afetado a sociedade contemporânea: valorizamos muito pouco o que somos ou o que temos e estamos sempre à procura de ideais de “mais e melhor” que nós mesmos desconhecemos.

Em Preciosa (Precious, 2009, Lee Daniels), vemos a história de Claireece “Precious” Jones, uma adolescente negra e obesa que está grávida do segundo filho, concebido por meio do estupro do pai, e que sofre diariamente a violência física e psicológica por sua mãe, Mary. Precious tenta obter uma educação melhor em uma escola alternativa, numa sugestão da diretora do colégio de que foi expulsa por sua condição familiar complicada e, aos poucos, aprende a valorizar a si mesma. Num contexto que lembra, em alguns momentos, filmes motivacionais como À Procura da Felicidade ou A Cor Púrpura, Preciosa diferencia-se pelo retrato da degradação familiar por meio de um roteiro denso e por um elenco primoroso.

Em certos momentos da narrativa, me perguntei o que leva o ser humano a fazer tantas maldades contra seus semelhantes e, por vezes, contra aqueles que são sangue do nosso sangue, como a personagem Mary. Numa rápida análise, penso que essa personagem infringe sobre Precious tanta violência quanto ela acredita que ela mesma mereça, Mary odeia mais a si mesma do que a filha, pois sente-se angustiada com a possibilidade de ser abandonada pelo marido, pela filha e terminar seus dias sozinha, vivendo do dinheiro do seguro desemprego. E a maestria de Daniels está justamente em orquestrar essas duas personalidades na tela numa relação clara de opressão que se inverte ao final do filme, quando conseguimos nos sentir piedosos por aquela figura que aprendemos a odiar durante quase duas horas.

Se soa como filme “auto-ajuda” em alguns momentos, são pequenas falhas diante de uma pérola que nos faz acreditar em dias melhores para aqueles que passam por tempestades de uma existência viva e presente, como Preciosa afirma se sentir em determinado momento: “estar aqui”.

Maria Antonieta e o hedonismo como fuga dos dissabores




Sofia Coppola, desde seus primeiros filmes, trabalha com delicadeza a condição de seus personagens diante de um contexto que parece não lhes satisfazer por completo, mas, muito pelo contrário, são a principal causa de seu descontentamento. Nos filmes Encontros e Desencontros (2003) e Um Lugar Qualquer (2011), os personagens masculinos estão, de certa forma, à deriva, perdidos em sua própria falta de vontade em prosseguir, encontrando na figura feminina uma espécie de redenção que lhes resgatasse uma vivacidade há tempos esquecida.


Em Maria Antonieta (2007), Coppola volta seu olhar para as mulheres, mais especificamente uma, a rainha austríaca que se tornou desafeto na França por conta da futilidade com que conduziu o reinado, gastando bastante dos fundos bélicos do país em festas, comidas e roupas. Com um roteiro em que se enfatiza o “nada” repetitivo que acontecesse na vida da rainha, a personalidade insatifeita e hedonista saltam aos olhos do espectador, por meio de figurinos e uma direção de arte caprichados e exuberantes, como a própria Maria gostava de se ver.


Por meio desses recursos, além da polêmica trilha sonora calcada no rock’n’roll para atualizar o espírito juvenil da rainha para as platéias contemporâneas, Coppola procura explorar uma personalidade que, desde o começo, mostra-se despreparada para assumir a responsabilidade da condução de uma nação. Enfatizando a exacerbação dos prazeres, o ócio, a insatisfação sexual e a futilidade, a diretora exibe justamente a ausência de sentido na condição com que sua protagonista conduz sua existência. Apesar de ser um tema recorrente na sua filmografia, ela, entretanto, despe-se do tom intimista que lhe é característico para explorar o mundo como a própria Antonieta via: cheio de belezas singulares, independente dos protocolos, das regras e títulos. Sentir-se viva era essencial para Antonieta.

02/11/2011

A necessidade da ausência em A mulher sem piano

Hoje, postando novamente no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: A mulher sem piano (La mujer sin piano, 2009, Javier Rebollo)


Trecho: "Com um roteiro que mescla um cotidiano naturalmente sem atrativos e situações que flertam com o absurdo e o patético, Rebollo transforma as situações em imagens com um estilo visual simples e direto"

30/10/2011

O Palhaço e a melancolia chapliniana




Qual o meu espaço no mundo? Qual a minha missão, minha razão de ser e estar nesse estranho e, por vezes, desesperançado universo? Cada um nasce não para um sentido único, mas para encontrar sua própria direção em meio a tantas outras que parecem concorrer ou divergir do caminho que escolhemos. Por vezes, nós mesmos escolhemos dar um passeio por outras trilhas para tentar nos distanciar de uma reta que parece, às vezes, não nos satisfazer mais.

Segundo longa do conhecido ator global, O Palhaço (idem, 2011, Selton Mello) trata da história de Benjamin, palhaço de circo que segue a carreira do pai, Valdemar, mas que se encontra insatisfeito com sua obrigação em “fazer rir” quando, na verdade, o que mais desejava era ter alguém com quem chorar e desabafar todas as lagrimas que vem carregando há tempos. Andando com seus bizarros colegas de picadeiro pelas cidades, termina passando por diversas situações até que resolve se distanciar da lona do pai para encontrar seu próprio abrigo no mundo dos trabalhos convencionais.

Com um enredo simples, mas entremeado com episódios bisonhos e engraçadíssimos, eles ganham maiores contornos com a tripla jornada de Mello como protagonista, diretor e co-roteirista, que lhe permite adensar a temática e a estética que optou por trabalhar no longa. A direção, se comparada com Feliz Natal e sua câmera nervosa, ganha planos compostos de maneira mais “desenhada” e estável, com travellings que transmitem certa delicadeza e fluidez ao universo circense. Relembrando em certas passagens o cinema de Wes Anderson e Zach Braff tanto nas ideias – as estranhas relações familiares e a descoberta de si mesmo num mundo atemporal e, ocasionalmente, pueril - como na forma de conduzi-las diante do espectador – como em alguns enquadramentos estáticos e na galeria imensa de personagens –, a direção de Mello se aprimora com o elenco numeroso que passeia pela tela.

Enquanto Selton esbanja simpatia e lirismo com seu confuso e divertido Benjamin, Paulo José emociona com um Valdemar esperançoso e dolorido, e a galeria de atores que compõem a trupe e os personagens toscos que encontram de cidade em cidade – que inclui Moacyr Franco, Fabiana Karla e Jorge Loredo em participações mais do que agradáveis. A edição fluida, a fotografia viva e a trilha sonora leve ajudam a compor esse painel patético e esperançoso de uma humanidade que ainda pode se reencontrar olhando para si mesma.

Com uma melancolia quase chapliniana que permeia todo o longa, gradativamente Mello se firma como um dos diretores mais sensíveis do cinema brasileiro contemporâneo, pois compartilha experiências e sensações que atravessam não somente as relações familiares, mas principalmente, o homem por trás da máscara.

Real e paralelo? – Contra o tempo




O que podemos classificar como mundo real? E quanto às imagens em nossa mente? O que separa um universo do outro? A fantasia e, mais especificamente, a ficção cientifica durante muito tempo trabalharam com esse tipo de temática que resgata temas de discussão desde a filosofia grega, como o Mito da Caverna, de Platão. Desde então, debater as relações entre corpo e mente tornou-se tarefa cada vez mais sofisticada nas artes, principalmente o cinema.

Contrao Tempo (The Source Code, 2011, Duncan Jones), apesar da tradução cretina, termina se tornando uma bela pérola em meio às tramas simplórias que inundam os multiplexes. Em meio a uma viagem de trem, um homem chamado Sean desperta do que parece ser um transe e desconhece o que seu corpo estaria fazendo naquele lugar, assim como a moça com quem divide o assento do transporte. Absorve cada detalhe do ambiente, tentando encontrar alguma relação com a ideia que possui a respeito de sua própria história. Aparentemente desmemoriado, o rapaz tenta sair do trem, mas é surpreendido por uma intensa explosão que matou a todos os passageiros do trem e o faz acordar numa escotilha com uma certeza: ele não era Sean, mas Colter Stevens, um soldado americano tido como morto na Guerra ao Iraque. Como explica a Tenente Goldwin, aquela explosão aconteceu na manhã daquele dia e sua mente está sendo “implantada” no corpo de Sean, passageiro morto no atentado, para que ele desubra a pessoa que causou a explosão que o vitimou.

Complexo? Pois é. A trama do longa não é algo típico do público-pipoca, já que exige mais atenção do que os descerebrados filmes de Michael Bay para que atinja os efeitos que almeja: dar um nó na cabeça do espectador. A princípio, a repetição de situações incomoda um pouco, mas o crescimento qualitativo das emoções envolvidas torna a experiência ainda mais gratificante. Com uma direção pesada e tensa, Jones trabalha bem com seus atores, deixando-os conduzir a trama complexa em eventos e sentimentos: Jake Gyllenhall carrega na densidade da condição de sua personagem, sem ignorar seu lado de filme de ação; Vera Farmiga torna-se a contrapartida perfeita para o desespero do protagonista, com uma tranquilidade tensa e instável que se revela mais humana do que se esperava; Jeffrey Wright, infelizmente, termina ressoando clichês de cientistas mais preocupados com a ciência do que com os seres humanos; e Michelle Monaghan encanta pela beleza e simpatia.

Com um clímax extremamente competente em transmitir e emoção da sensação da eternidade de um instante perpetuado na mente do protagonista, o diretor, entretanto, termina cedendo a um final feliz em demasia, conduzindo seus personagens para um espaço que, diante da ausência de qualquer explicação, gera ainda mais perguntas, deixando o espectador livre para construir suas próprias conclusões.

Gigantes de Aço e o abismo ao outro

Hoje é dia de Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Gigantes de Aço (Real Steel, 2011, Shawn Levy)


Trecho: "Contando com um dos clichês mais batidos da história do cinema, o roteiro e a direção do longa ganham pontos somente pelo modo como conduzem os elementos fantásticos da narrativa: a ficção científica torna-se mais próxima da realidade."

16/10/2011

Quando as metralhadoras cospem - Adultos Pueris ou Crianças ‘Adultizadas’?



“Joãozinho, vê se cresce.” “Você parece um velho, reclamando de tudo.”. Às vezes, ouvimos comentários desse tipo quando tomamos atitudes que parecem inadequadas à nossa idade. Ou seja, sempre estamos ou outras pessoas estão insatisfeitas com a idade que temos, desejando a sabedoria e a temperança dos experientes, mas também a jovialidade e frescor da juventude.

No musical Quando as metralhadoras cospem (Bugsy Malone, 1976, Alan Parker), encontramos crianças usando vestimentas, palavras e atitudes tipicamente adultas ao dar vida à seguinte história: na Nova York dos anos 20, o honesto Bugsy Malone e a adorável Tallulah protagonizam uma guerra entre duas gangues pela posse de uma arma chamada splurge - um tipo de metralhadora que arremessa chantilly. Satirizando os filmes de gângster, este divertido longa ganha leveza no jazz e blues das danças, além de um certo ar nonsense com a presença das crianças que interpretam mafiosos, dançarinas e aspirantes a artistas de uma época marcante e difícil na história estadunidense.

Alan Parker conduz com mão leve todas as sequências, deixando as crianças tomarem conta do show e exibirem seus talentos para dançar, cantar e interpretar como se estivessem em um grande musical de colégio. Apesar de se alongar em algumas sequências que terminam interrompendo a narrativa em favor dessa exibição de talentos, são poucos os pontos que enfraquecem a excelência do longa em conquistar o público. Contando com uma Jodie Foster em início de carreira que conduz com maturidade e certa dose de ousadia sua Tallulah, Parker nos oferece a oportunidade de conhecer jovens talentos de uma geração que hoje se leva mais a sério.

Com esse longa, Parker nos leva a refletir sobre quão imaturas e infantis podem ser nossas atitudes diante de uma sociedade que sempre parece nos exigir que cresçamos. Por mais que cresçamos em idade ou tamanho, sempre carregaremos dentro de nós mesmos este espírito infantil que, com a mesma disposição que erra, deveria estar mais disposta a perdoar e superar as falhas dos outros.

15/10/2011

Krámpack e a (des)(re)(anti)coberta da sexualidade



Desde nosso nascimento, aprendemos a nos inserir na sociedade de acordo com as ‘regras’ que regem as mais diversas instituições de que participamos: trabalho, escola, universidade e, principalmente, a família. Por ser o celeiro onde somos orientados a fazer escolhas, esta instituição se mostra basilar para que definamos nossa identidade, nossa profissão e nossa sexualidade. Contundo, nem sempre este tipo de preferência surge de maneira clara quanto se imagina.

Em Krámpack (2000), conhecemos a história de Dani, que, durante a viagem de seus pais, convida Nico, seu melhor amigo, para passar o verão em sua casa. Durante esse período, ambos paqueram Berta e Elena, duas garotas eu moram na cidade, conhecem Julian, um escritor que trabalha com o pai de Dani, tem conselhos com Marianne, a empregada da casa, e com Sonia, a professora particular de Dani.  Nesse entremeio, Dani conhece, ou aprende a re/desconhecer sua sexualidade ao começar a desejar Nico como mais que um amigo.

Com um roteiro simples e linear, escrito por Tomàs Aragay e Cesc Gay com base na peça homônima de Jordi Sánchez, o diretor Cesc Gay permite que o seu elenco ganhe maior destaque na narrativa, já que  sua trilha sonora agradável e juvenil, sua fotografia colorida em tons pastel e sua montagem fluida jamais sobrepujam o enredo. A dupla que protagonista o longa consegue dar conta do recado ao dar vida aos dois adolescentes em suas virtudes e contradições, criando dois personagens que conquistam o público justamente por seu descompasso, suas diferenças e, principalmente, pelos caminhos desencontrados que percorrem até reencontrar seu eixo.

Ao final do longa, compreendemos que, para Dani, mais vale manter um laço que não se rompa com as complicações de uma situação amorosa e,ainda mais, pouco importa definir a própria sexualidade em qualquer rótulo que em nada contribua para que viva de uma maneira mais satisfatória.