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07/02/2012

Preciosa?




A angústia sobre si mesmo, pode-se dizer, é quase uma doença que tem afetado a sociedade contemporânea: valorizamos muito pouco o que somos ou o que temos e estamos sempre à procura de ideais de “mais e melhor” que nós mesmos desconhecemos.

Em Preciosa (Precious, 2009, Lee Daniels), vemos a história de Claireece “Precious” Jones, uma adolescente negra e obesa que está grávida do segundo filho, concebido por meio do estupro do pai, e que sofre diariamente a violência física e psicológica por sua mãe, Mary. Precious tenta obter uma educação melhor em uma escola alternativa, numa sugestão da diretora do colégio de que foi expulsa por sua condição familiar complicada e, aos poucos, aprende a valorizar a si mesma. Num contexto que lembra, em alguns momentos, filmes motivacionais como À Procura da Felicidade ou A Cor Púrpura, Preciosa diferencia-se pelo retrato da degradação familiar por meio de um roteiro denso e por um elenco primoroso.

Em certos momentos da narrativa, me perguntei o que leva o ser humano a fazer tantas maldades contra seus semelhantes e, por vezes, contra aqueles que são sangue do nosso sangue, como a personagem Mary. Numa rápida análise, penso que essa personagem infringe sobre Precious tanta violência quanto ela acredita que ela mesma mereça, Mary odeia mais a si mesma do que a filha, pois sente-se angustiada com a possibilidade de ser abandonada pelo marido, pela filha e terminar seus dias sozinha, vivendo do dinheiro do seguro desemprego. E a maestria de Daniels está justamente em orquestrar essas duas personalidades na tela numa relação clara de opressão que se inverte ao final do filme, quando conseguimos nos sentir piedosos por aquela figura que aprendemos a odiar durante quase duas horas.

Se soa como filme “auto-ajuda” em alguns momentos, são pequenas falhas diante de uma pérola que nos faz acreditar em dias melhores para aqueles que passam por tempestades de uma existência viva e presente, como Preciosa afirma se sentir em determinado momento: “estar aqui”.

14/10/2011

Capitães da Areia e seus descompassos



O que entendemos por descompasso? Trata-se de ausência de compasso, de regularidade, de medida entre dois ou mais instâncias / parâmetros que andam em paralelo, exibindo suas imperfeições enquanto tentam caminhar paralelamente. A partir deste preâmbulo, começo esta resenha afirmando que Capitães de Areia (idem, 2011, Cecília Amado) comporta-se como uma obra cinematográfica descompassada entre todos os elementos que compõem a sétima arte.

Baseada no livro de Jorge Amado, a obra versa sobre um grupo de garotos de rua, liderados por Pedro Bala, que vivem nas ruas da Bahia praticando pequenos furtos e cortejando as prostitutas da cidade. A partir desse mote, temos as várias situações que permeiam a narrativa: o aparecimento de Dora e Zé Fuinha, as brigas com uma gangue rival e a prisão de um deles no reformatório.

Para sua caracterização do romance, Cecília Amado emprega uma bela paleta de cores - que torna ainda mais bela a cidade de Salvador - e uma trilha sonora eclética e agradável - que, na verdade, funciona mais fora da tela do que dentro dela - para construir seu longa, mas parece se apoiar exclusivamente nestas ferramentas para trazer um pouco de vida aos personagens na tela. O elenco, formado por não-atores, até tenta se esforçar, mas não consegue, de modo algum, dar vida para os personagens, oferecendo cenas e mais cenas constrangedoras onde as crianças parecem que não sabem o que estão dizendo com aquelas frases. Se, por um lado, posso louvar seu esforço em oferecer um longa que não seja estrelado por atores globais ou com a “limpeza estética” do padrão Globo de qualidade, percebo que não houve diligência em trabalhar as atuações dos garotos e, se houve, ele não foi suficiente para conduzir o espectador pela história que já encantou tantas gerações na literatura brasileira.

Mesmo que não seja um filme que faça vergonha ao cinema nacional, neste descompasso advindo da inexperiência, a diretora termina por alavancar seu esforço no design visual e sonoro da produção, mas termina ignorando o poder que os atores possuem de nos fazer esquecer todos estes elementos coadjuvantes na realização fílmica quando assistimos a uma que nos toca profundamente.

12/01/2011

Namorada de Aluguel e a ascensão nerd


Visto depois de tantos anos depois de seu lançamento, podemos encaixar Namorada de Aluguel no que se pode classificar como “filmes da ascensão nerd”, preconizados neste e em tantos outros longas que lhe sucederam.

Contudo, se nos anos 80 e 90, os protagonistas geralmente eram motivo de escárnio por conta de suas maneiras e seu deslocamento social – vide A Vingança dos Nerds -, hoje eles estão sendo estudados como personagens tridimensionais – vide A Rede Social -, indo além do simples estereótipo perpetuado por filmes como Superbad e séries como The Big Bang Theory.

Neste longa, temos a história de Ronald Miller (Patrick Dempsey), um jovem tímido e trabalhador que sempre sonhou em ser popular no colégio. Quando ele descobre que Cindy Mancini (Amanda Peterson), uma garota linda que todos os garotos paqueram, está precisando de 1000 dólares ele surge com uma insólita proposta: empresta o dinheiro a ela e em troca ela deverá fingir ser sua namorada, para que ele alcance a popularidade almejada.

As diferenças que podemos apontar entre este exemplar e os mais modernos podem ser resumidos em dois tópicos que se complementam: a aceitação de sua identidade e a conseqüente ascensão na soceidade. Enquanto que nos idos de 80 e 90, o principal desejo destas figuras era se transformar em pessoas diferentes de si mesmas a fim de alcançarem a popularidade, hoje, percebemos não somente uma aceitação do nerd em sua condição e identidade, mas uma superação dos estereótipos do gênio da informática ou ciências exatas para obter o status de empresários criativos e milionários.

Esta mudança ocorre por conta de uma sociedade que viu Steve Jobs, Bill Gates e, mais recentemente, Mark Zuckerberg ascenderem meteoricamente por conta de suas invenções, e não por uma renegação de suas personalidades deslocadas socialmente. Interessante presenciar as mudanças que as representações culturais demonstram quando a sociedade passa a se ver no cinema.

Joe Dante e o fantástico trash infanto-juvenil


Com uma filmografia que inclui títulos como Meus Vizinhos São Um Terror, Gremlins e Viagem Insólita, percebe-se que Joe Dante sempre procurou tratar de temas fantásticos, mas trazidos para o cotidiano dos subúrbios, de gente comum em situações extraordinárias, como um thriller de proporções ilimitadas.

Em Viagem ao Mundo dos Sonhos, os sonhos visionários de três meninos curiosos e aventureiros transformam-se em uma excitante realidade, numa mistura que combina humor inteligente, afeto e fantasia, com inesperadas reviravoltas. Em seu improvisado laboratório, os garotos usam sua genialidade e também uma surpreendente descoberta para construir sua própria nave espacial e lançarem-se em uma fantástica viagem interplanetária, repleta de seres alienígenas e equipamentos eletrônicos.

O trio de protagonistas – formado por River Phoenix, Ethan Hawke e Bobby Fite – segura a simplicidade do longa com propriedade, representando bem os estereótipos com que precisam lidar. Eles carregam com afeto a missão de dar vida àqueles jovens inocentes e sonhadores, revelando uma inocência perdida em algum lugar no tempo na sociedade contemporânea. Além disso, Dante moderniza a ficção científica dos anos 50 e a contextualiza para o cotidiano daquelas crianças. Se hoje, encaramos como plena fantasia os desvarios eletrônicos de Jimmy Neutron e Dexter, a intenção do diretor era de tornar o mais palpável possível aqueles que teve durante sua infância.

06/01/2011

A juventude de John Hughes e Gatinhas e Gatões


Durante os anos 80, John Hughes terminou se tornando um dos diretores que começou a trazer maior visibilidade para a juventude abaixo dos 20, trazendo à tela as situações cômicas e dramáticas de uma geração que tinha resquícios de uma liberação sexual das décadas anteriores, mas não conhecia muito bem seu significado ou o que fazer com ela.

Dirigindo filmes icônicos como Curtindo a Vida Adoidado, Clube dos Cinco, Mulher Nota 1000 e este Gatinhas e Gatões, Hughes trouxe uma juventude cuja revolta não era por coisas grandes ou revolucionárias, mas pelas coisas pequenas que todos precisamos enfrentar diariamente: um dia tedioso na escola, uma festa de aniversário esquecido, a falta de uma namorada ou um fim de semana perdido na escola.

Contudo, seu cinema, apesar de escapista, traz esses jovens comuns e cotidianos para o centro da locomotiva para que seu público veja a si mesmo na tela. Eles não estão mais enfrentando seres fantásticos ou sendo coadjuvantes de uma história protagonizada por adultos, mas estão contando suas próprias histórias de vergonha, desespero, amizade e relacionamentos.

Se hoje, a juventude não está mais inocente como Samantha Baker - que, dentre outras coisas, gosta de um rapaz que namora outra moça mais bonita, é assediada por um rapaz inconveniente e ainda tem a festa de seu aniversário de dezesseis anos esquecida -, resta-nos o registro de uma época em que tudo isso era grande o suficiente para receber um abraço caloroso da família.