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15/10/2011

Krámpack e a (des)(re)(anti)coberta da sexualidade



Desde nosso nascimento, aprendemos a nos inserir na sociedade de acordo com as ‘regras’ que regem as mais diversas instituições de que participamos: trabalho, escola, universidade e, principalmente, a família. Por ser o celeiro onde somos orientados a fazer escolhas, esta instituição se mostra basilar para que definamos nossa identidade, nossa profissão e nossa sexualidade. Contundo, nem sempre este tipo de preferência surge de maneira clara quanto se imagina.

Em Krámpack (2000), conhecemos a história de Dani, que, durante a viagem de seus pais, convida Nico, seu melhor amigo, para passar o verão em sua casa. Durante esse período, ambos paqueram Berta e Elena, duas garotas eu moram na cidade, conhecem Julian, um escritor que trabalha com o pai de Dani, tem conselhos com Marianne, a empregada da casa, e com Sonia, a professora particular de Dani.  Nesse entremeio, Dani conhece, ou aprende a re/desconhecer sua sexualidade ao começar a desejar Nico como mais que um amigo.

Com um roteiro simples e linear, escrito por Tomàs Aragay e Cesc Gay com base na peça homônima de Jordi Sánchez, o diretor Cesc Gay permite que o seu elenco ganhe maior destaque na narrativa, já que  sua trilha sonora agradável e juvenil, sua fotografia colorida em tons pastel e sua montagem fluida jamais sobrepujam o enredo. A dupla que protagonista o longa consegue dar conta do recado ao dar vida aos dois adolescentes em suas virtudes e contradições, criando dois personagens que conquistam o público justamente por seu descompasso, suas diferenças e, principalmente, pelos caminhos desencontrados que percorrem até reencontrar seu eixo.

Ao final do longa, compreendemos que, para Dani, mais vale manter um laço que não se rompa com as complicações de uma situação amorosa e,ainda mais, pouco importa definir a própria sexualidade em qualquer rótulo que em nada contribua para que viva de uma maneira mais satisfatória.

14/12/2010

Minhas Mães e Meu Pai - Uma Nova Família


Em certo momento do longa de Lisa Cholodenko, todos os integrantes da família estão reunidos e todos brindam à uma “família incomum”: formada por duas mães, dois filhos e um doador de sêmen. Se antes a noção de núcleo familiar residia na composição de pai, mãe e filhos, amplamente propagados no cinema pelo chamado american way of life, hoje família termina se tornando algo construído de forma quase despropositada, quando os laços se tornam cada vez mais distantes espacialmente, porém mais unidos sentimentalmente.

Em Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right, 2010), dois irmãos adolescentes, Joni (Mia Wasikowaska) e Laser (Josh Hutcherson), são filhos do casal homossexual Jules (Julianne Moore) e Nic (Annette Bening), concebidos através da inseminação artificial de um doador anônimo. Contudo, ao completar a maioridade, Joni encoraja o irmão a embarcar numa aventura para encontrar o pai biológico sem que as "mães" soubessem. Quando Paul (Mark Ruffalo) aparece, tudo muda, já que logo ela passa a fazer parte do cotidiano da família, o que traz conseqüências imprevisíveis no relacionamento amoroso de Nic e Jules, assim como na maternidade de ambas diante de uma figura paterna até então inexistente.

O roteiro de Cholodenko equilibra-se entre o drama e a comédia ao explorar questões que envolvem a paternidade e a maternidade homossexual no contemporâneo: enquanto Jules se frustra por não conseguir se firmar numa responsabilidade prática por sua vida, Nic esforça-se por controlá-la ao extremo, sendo excessivamente crítica e protetora com todos em redor; Joni e Laser, de formas diametralmente opostas, encontram em Paul um referencial masculino que os faz rever suas trajetórias como família, pois, ao se inserir nela, ele, de início, bem aceito, termina sendo expulso pelo desequilíbrio que terminou causando.

Dosando comicidade e drama, seus atores conseguem trazer tridimensionalidade a uma sinopse que, se em alguns momentos, resvalam no humor escrachado, conseguem trazê-los para dentro do seu universo: Julianne Moore e Annette Bening concebem duas mulheres apaixonadas num relacionamento aparentemente saudável que mostra suas feridas com a traição de Jules com o doador de esperma. No show de interpretação de ambas reside sua maior força: tanto na cena do restaurante, onde Nic e Jules conversam sobre suas dificuldades e inseguranças, assim como na cena do jantar na casa de Paul, onde, ao descobrir a traição de Jules, Bening desmancha seu rosto com a dor de uma revelação que ela imaginava nunca receber: como alguém que suportou a força de assumir um relacionamento homossexual “regride” para uma sexualidade hetero? Nesse momento, percebemos que não se trata de uma questão social ou simplesmente institucional como formação familiar, mas são sentimentos e decisões que residem na esfera do indivíduo .

Ambas conseguem mostrar por completo as inseguranças que suas personagens apresentam uma diante da outra, algo que supera os clichês do gênero “filmes de relacionamento gay”: se antes as maiores dificuldades residiam na possibilidade de se ter um relacionamento diante de uma sociedade preconceituosa, hoje os relacionamentos consumados enfrentam as mesmas dificuldades dos heterossexuais, como novo protótipo de família contemporânea.

13/12/2010

Vicky Cristina Barcelona Happening



Happening - do inglês, acontecimento - é uma forma de expressão artística que, apresentando características das artes cênicas, incorpora algum elemento de espontaneidade ao cotidiano do público que o experimenta no momento em que é representado.

Vicky Cristina Barcelona conta a história de duas jovens americanas - a conservadora Vicky e a aventureira Cristina -, que viajam para Barcelona a fim de passar as férias de verão e acabam se envolvendo em confusões amorosas com um artista extravagante – Juan - e sua insana ex-esposa – Maria Elena -, o que termina se tornando um happening para suas vidas aparentemente normais. Ambas equilibram-se e desencaminham-se constantemente entre a ação passional e períodos de reflexão sobre o que vivenciam, sem julgamento ou moralismo, mas como simples fatos da vida. Os rompantes de desatino das personagens que Allen nos apresenta nesse longa cativam pela sua sinceridade e humanidade, mas acima de tudo pela destreza com que são interpretados, principalmente nas performances marcantes de Johansson e Cruz como a dupla de moças que equilibram o coração volátil de Bardem.

Allen, no entanto, aparece de forma mais aparente na racionalidade paranóica e quase destrutiva de Vicky, que, com seu excesso de análise diante das situações, termina, a princípio, se tornando irritante e neurótica como a persona de seu diretor sempre se deixa mostrar. Contudo, em Cristina, percebe-se um Allen desejando que sua verve passional o encaminhe para a beleza do mundo, como se ele, ao sair das sensações úmidas e cinzas de Nova York, tivesse, se de fato, encontrado alguma paixão em sua vida. Woody Allen, de alguma forma, parece que se tornou, além de cineasta, um personagem nos cânones da cinematografia norte-americana, sempre retratando os dilemas e situações ao mesmo tempo vazios e complicados de um cotidiano caracterizado pela verborragia e excesso de racionalidade. E nesse longa, revela um Allen que se permite navegar por outros mares, além das neuroses cotidianas, sem, no entanto, abandoná-las por completo, mas percebê-las sob outra perspectiva, diante de uma beleza que troca a insegurança e a repressão da metrópole nova-iorquina pela exuberância e verve criativa de uma Barcelona.

Vicky, Cristina e Cia. propõem ao espectador a realização de um happening com a própria vida, onde o espontâneo e o imprevisível são capazes de transformá-la em uma obra de arte, onde a paixão se torna essência, ingrediente principal para lhe dar o sabor devido, ao invés de um simples condimento que se perde à massa de racionalidade e previsibilidade que parece predominar no cotidiano.

10/12/2010

Milk por uma sexualidade de fato humana


No longa evolução racional, artística, política, tecnológica etc que a Humanidade realizou e testemunhou durante todos esses anos, a sexualidade pode ser considerada uma das áreas que encontrou as maiores dificuldades. Talvez pelo seu caráter universal, talvez pelas reservas com que a sociedade ocidental acostumou-se a tratar desta temática, mas em nenhum momento pode-se negar que se trata de um tema complexo, onde não se pode – ou não se deve – simplesmente ser maniqueísta ou tentar encerrar o discurso em uma linha ou vertente que atenda a todos os discursos satisfatoriamente.

Nos Estados Unidos, a educação conservadora que regia a Constituição do país precisou ser revisitada depois que uma pessoa comum fez valer os seus direitos: Harvey Milk foi um ativista dos direitos homossexuais que, ao se mudar com seu namorado para São Francisco no início dos anos 70, abriu uma loja de revelações fotográficas e, depois de passar pelo preconceito da comunidade local, surpreendeu a todos ao se tornar um verdadeiro agente de mudanças. Com a ajuda de amigos e voluntários, foi eleito para o Quadro de Supervisores de São Francisco em 1977, tornando-se o primeiro homossexual a ser votado para um importante cargo público nos Estados Unidos. No filme de Gus Van Sant – Milk -, mostra-se o lançamento de sua candidatura, assim como a sua vitória, após sucessivas derrotas, seguido dos infortúnios que se seguem após o cumprimento de suas propostas. O roteiro habilidoso de Dustin Lance Black equilibra o ponto de vista de Milk com as situações que o mesmo vivenciou ao longo dos oito anos em que trabalhou em seu ativismo, tratando-o de forma humana e sincera.

Gus Van Sant alia à uma edição caprichada e dinâmica - que une reconstituições com atores e fotos e videos reais da época - um excelente trabalho com seus atores – principalmente nas performances cativantes de Sean Penn, James Franco e Josh Brolin - para compor um cenário majoritariamente político, mas que ainda acreditava em mudanças positivas através do engajamento de pessoas comuns ao poder. Talvez seu maior mérito seja mostrar outro lado desta comunidade: não mais sofredora ou culpada pelos sentimentos que possuem pelo mesmo sexo, mas arrojada nas mudanças de qualidade de vida que almeja na sociedade que tanto ama. Se, em tempos anteriores, filmes como Brokeback Mountain (Ang Lee, 2006) e Boys Don’t Cry (Kimberly Pierce, 1999) tocavam o espectador pela maneira como abordavam o sofrimento pela condição dos homossexuais – as angústias internas e as conseqüências do assumir sua sexualidade de maneira dolorida -, o longa de Van Sant mostra um grupo forte, que, mesmo temendo suas retaliações, se mantém seguindo, pois, como mostra o discurso inicial de Milk, eles se sentiram recrutados para defender seus próprios direitos.

Talvez o maior abismo que exista entre o Eu e o Outro esteja naquilo que nos universaliza: o amor e a sexualidade. Milk simplesmente desejou transpor esse abismo, estendendo a mão para que conhecêssemos a sua maneira de pensar e sentir e ir além do mero julgar.


23/07/2010

Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo – Crônicas de Vaudeville


A sexualidade humana, diferente da dos animais, apresenta-se de forma mais complexa e desenvolvida por um elemento em particular: a linguagem.

Característica essencial do homem, a linguagem faz com que o homem reflita e fale sobre sua sexualidade, permitindo-o questionar instintos e dogmas construídos ao longo de sua vivência no mundo, principalmente nos campos da Psicologia e da Arte. Surgindo dramática ou cômica, satírica ou erótica, a sexualidade sempre desperta curiosidade porque universaliza o ser humano, ainda mais de forma tão envolvente como no longa Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar).

Trazendo um Woody Allen em início de carreira, este longa, composto por sete segmentos baseados em seções do livro de não-ficção de Paul Reuben, acompanha desde um bobo da corte que dá um afrodisíaco para a rainha até espermatozóides com dúvidas e medos sobre serem ejaculados, passando por um doutor que se apaixona por uma ovelha e um seio predador. Estas esquetes expõem o nonsense dentro do cotidiano a fim de explorar o absurdo sobre a forma como a sociedade trata uma sexualidade cheia de dilemas e vicissitudes, que se mostra mais incompleta do que benéfica em certos momentos.

Allen imprime sua persona a cada um dos segmentos, seguido por um elenco competente que eleva o status teatral das composições a um quadro cinematográfico por algumas sequências em particular, como Gene Wilder e Lynn Redgrave.