02/10/2011

O humor do/com/para o Outro - Alô, Alô Terezinha



O que é ser engraçado? De onde vem a sensação o que me conduz ao riso? Por que sinto a necessidade de rir de determinadas pessoas ou situações? De onde vem meu senso de humor? Onde preciso começar e terminar meus momentos de seriedade e irreverência? Ao transferir esses questionamentos para a forma como observamos o outro, pensamos em uma questão essencial para embarcar em uma sessão do longa a ser resenhado: o que acho engraçado no outro?

Alô, Alô Terezinha (idem, 2008, Nelson Honieff) conduz o espectador pelos diversos personagens que passaram pelos programas Discoteca / Buzina / Cassino do Chacrinha: as sensuais e alegres chacretes, os elogiados ou ‘buzinados’ caloruos, além dos cantores que ascenderam graças ao apelo popular e carnavalesco do comunicador que fez história na televisão brasileira. Ou seja, são pessoas famosas como Rita Cadillac, Biafra, Beth Carvalho e Alcione, ex-famosos como Loira Sinistra e Índia Poti, mas também os anônimos Manoel de Jesus e Abacaxi oferecendo depoimentos sensíveis e, às vezes, esculachados não somente sobre Chacrinha, mas também sobre as situações que viveram durante o tempo em que participaram de seu programa e como vivem nos dias de hoje.

Desde as cenas iniciais, percebemos que Hoineff constrói um documentário pouco convencional, ao expor seus personagens ao ridículo constantemente, explorando seus vexames e contradições diante das câmeras, tornando-a praticamente sua melhor testemunha. Em sua montagem mordaz e cruel, ele utiliza cenas que deram errado – como uma Elba Ramalho que esquece a letra da música que cantava ou um Biafra atingido por uma asa delta -, personagens em situações constrangedoras – como o ex-calouro Abacaxi cantando ensandecido no meio da rua ou uma ex-chacrete nua posando em um chafariz – e depoimentos contraditórios – como as diversas falas sobre os affairs que o comunicador mantinha com as dançarinas ou, principalmente, seu “Rosebud” particular “Quem é Terezinha?” – para desconstruir com todas as bases ‘éticas’ dos documentários convencionais.

Ao fazê-lo, Hoineff utiliza-se de um humor escrachado e despretendido que atende os pressupostos que regiam o próprio estilo de Chacrinha: o caos, o imprevisível, a inversão de expectativas. Nessa perspectiva, ele trata a vida como um grande programa de auditório carnavalesco, ou seja, uma grande festa onde vale somente se divertir com o grotesco, o excêntrico que o Outro representa. Se Hoineff foi antiético, preconceituoso e desrespeitoso, digo que ‘sim, um pouco’, entretanto, estaria mentindo se lhes dissesse que ele não me fez rir com as incoerências e pateticidades de suas personagens. Assim somos nós: rimos daquilo que reconhecemos tão ridículo em nós mesmos.

Detroit Rock City e a idolatria nossa de cada dia



O ser humano, em suas sensações de inferioridade, cria ou adora mitos que o conduzam a algum estado de êxtase superior ao cotidiano banal e prosaico com que precisa lidar. Se, na Antiguidade e Idade Média, emergiam os diversos deuses da Mesopotâmia e Egito, passando pelo Deus do cristianismo, pelo Alá do Islamismo, chegamos, a partir da Idade Moderna, ao homem que enfatiza o olhar para si mesmo, para o “deus” dentro de si mesmo, em sua racionalidade. A famigerada Pós-Modernidade, entretanto, começa a propagar a descrença em possíveis valores absolutos, como Razão, Fé ou qualquer coisa do gênero. Quem são, portanto, os novos mitos que adoramos? Os pop-rock-disco-reggae...stars, as celebridades instantâneas, e, em tempos de Youtube, Facebook e similares, A VIDA ALHEIA.
                
A partir deste preâmbulo, não fica muito difícil perceber o subtexto presente em Detroit Rock City (idem, Adam Rifkin, 1999), uma comédia absurda e divertidíssima que versa sobre quatro jovens no final de sua adolescência que, em sua veneração inabalável pelo grupo KISS, parte para Detroit para assistir aquele que seria o show de suas vidas. Os quatro jovens, em suas personalidades distintas, se complementam e se ajudam nas encrencas em que se metem ao longo da jornada: enquanto Jam chega mais perto de ser nosso protagonista ao ter seu sofrimento em não conseguir enfrentar sua mãe católica ortodoxa e fumante compulsiva mais destrinchado, os outros se dividem entre o desprendido e revoltado Hawk, o lerdo Trip e o nice-guy Lex. Cada um, a seu modo, procura encarar os preconceitos com aqueles que não entendem seus sentimentos em relação ao grupo de roqueiros conhecidos como demônios, bichas, baderneiros, dentre outras nomenclaturas pouco elogiosas.

Dentre as inúmeras personagens e situações arquitetadas pelo roteirista Carl V. Dupré – conhecido por filmes B de terror, experiência utilizada em determinada sequências do longa -, Rifkin usa sua versatilidade como ator, escritor e produtor para dirigir um longa com uma velocidade e uma qualidade pop bem MTV. Ou seja, a direção atualiza as conquistas da geração do final dos 70 para um novo público ao trazer numa linguagem juvenil e dinâmica ícones da época como Burt Reynolds, As Panteras, MAD Magazine, Star Wars e outros que fizeram a cabeça de seus pais. A linguagem de desenho animado nonsense faz a festa com um maniqueísmo alucinado e, às vezes, expressionista proporcionam o ponto de vista dos jovens sobre suas próprias descobertas e sensações do que significava ‘ser jovem nos anos 70’.

Com personagens cativantes e divertidos envoltos em uma trama cheia de peripécias e absurdos, Detroit rock City é uma boa pedida para um sábado à noite regado a muito rock setentista para reviver uma época. Se o homem um dia foi chamado de servo, fiel, adorador de seus deuses, hoje, ele encara uma nova nomenclatura diante de seus deuses: fã.

30/09/2011

Premonição 2 e os dejavus das franquias

Hoje, postando a pedido do Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Premonição 2 (Final Destination 2, 2003, David R. Ellis)


Trecho: "Bastou dar um Ctrl+L no roteiro do primeiro filme e substituir o nome dos personagens e temos uma receita para fazer um filme onde só importa as mortes criativas e a espetacular explosão que inicia o filme."

10/09/2011

A tragédia da consciência: Planeta dos Macacos – A Origem



“Minha natureza simiesca passou a afastar-se de mim a olhos vistos, tão depressa que meu primeiro treinador é que quase se transformou num macaco” (Franz Kafka)

Em seu famoso conto Comunicação a uma academia, Franz Kafka utiliza-se da história de um macaco que relata aos estudiosos presentes em sua palestra o processo de hominização que terminou atravessando desde que foi capturado pelo seres humanos. Com certo tom de melancolia, o macaco nos faz perceber quão nociva pode ser a consciência a respeito de nossa condição humana predadora e desnudante.

No longa O Planeta dos Macacos – A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011, Rupert Wyatt), vemos um pouco dessa discussão da relação homem-primata com o seguinte enredo: Will Rodman procura financiamento para sua pesquisa da cura do Mal de Alzheimer, que pode ser viabilizada através de um remédio testado em chimpanzés. Estes passam a desenvolver uma inteligência fora do convencional depois que passam por estes testes com protótipos do medicamento, sendo um deles César, chimpanzé adotado por Will depois da morte da mãe do símio no laboratório. Com o tempo, o primata começa a tomar consciência de sua condição e a se inconformar com o tratamento que os humanos infringem sobre ele e os outros macacos, levando-o à revolução.

Com um roteiro que destrincha sem pressa a ascensão de César, Wyatt oferece espaço para destacar o trabalho de Andy Serkis como o símio, enfatizando a tragédia de se ter a consciência das misérias que o cercam. Enquanto o excelente trabalho de Serkis rouba a cena, James Franco equilibra a dose com a concepção de um cientista obstinado pelo seu trabalho, mas que o realiza pela paixão de ver a solução de um problema próximo a si – no caso, a doença degenerativa que acomete seu pai, interpretado por um John Lithgow correto. Além deles, observa-se uma Freida Pinto ser subutilizada como par romântico e “voz da consciência” de Will em certos momentos e David Oyelowo relegado ao estereótipo do chefe interessado somente no dinheiro da empresa, um dos clichês mais batidos da história. 

Entretanto, ao observar os elementos técnicos usados por Wyatt no longa, ressalta-se os efeitos especiais que transformaram os movimentos de Serkis no símio e uma montagem fluida que investe na identificação do público com o protagonista e, em sua parte final, nos cortes abruptos típicos do gênero de ação. Patrick Doyle compõe uma trilha sonora adequada, mas não memorável e Andrew Lesnie investe em uma fotografia que realça os tons frios e acinzentados típicos da ficção científica, deixando as cores para os momentos mais emocionais do longa. Em suma, o longa de Wyatt oferece novo fôlego para a franquia dos macacos que dominam a Terra, pois investe no elemento fundamental de qualquer história: seus personagens.

Focando na inevitabilidade das consequências que este “abrir de olhos” pode proporcionar, Wyatt aposta na velha fórmula do “ciência – consciência = perigo” para oferecer um pouco mais - mas não muito - do que entretenimento escapista, mas uma tentativa de trazer certa reflexão sobre as virtudes e os infortúnios do conhecimento.

Os Smurfs e a Cultura do Remix




Dentro da chamada Cultura do Remix, percebe-se que a maioria dos produtos audiovisuais concebidos para cinema são baseados em materiais criados originalmente para outras mídias – vide Piratas do Caribe, Nine ou os recentes Thor e Lanterna Verde, dentre outros. Como fruto dessa cultura, vemos o surgimento do longa do desenho animado que veio dos quadrinhos dos anos 50 Os Smurfs, que fez bastante sucesso no Brasil na década de 80, que, neste ano, se transformou em filme.

Nos primeiros minutos de Os Smurfs (The Smurfs, 2011, Raja Gosnell), percebe-se o quanto os longas criados para o público infantil evoluíram nas últimas décadas, visto que a sofisticação e a criatividade presente em filmes como Os Incríveis, Wall-E, A Viagem de Chihiro,  Shrek e outros simplesmente desaparece com o enredo mais do que ultrapassado deste longa meio preguiçoso e antiquado. A trama reside no seguinte: os Smurfs, ao fugir de mais uma investida de Gargamel – interpretado por um Hank Azaria querendo pagar as contas – e Azrael, terminam por parar na cidade grande – no caso, a óbvia Nova York -, onde passam poucas e boas até que consigam voltar para casa.

O clima despreocupado e simplório toma conta de todo o longa, desde o roteiro às interpretações, salvando-se somente a técnica de animação, que mostra a que veio, ao adequar os pequenos seres ao universo dos humanos com destreza. Aos adultos, resta somente perceber algumas brincadeiras visuais com o Blue Man Group, Blu-Ray Disc ou Bluetooth, o que não é grande coisa para quem cresceu com esses seres azuis e esperava bem mais do filme.

Professora Sem Classe e o Ser/Estar Incorreto



Durante nossa infância, procuramos modelos em que nos espelhar a fim de sermos adultos saudáveis e exemplares uns para os outros. Se, durante muito tempo, nossa sociedade relegou à religião a concepção de mitos que funcionariam como exemplos de dedicação, subserviência e amabilidade, como Jesus Cristo, Buda ou Maomé, a contemporaneidade transfere esse status de ‘ícones’ para pessoas ditas ‘públicas’: artistas, políticos e, em menor escala, os educadores – se considerarmos a conservadora sociedade norte-americana -, o que nos conduz ao longa a ser analisado.

Professora Sem Classe (Bad Teacher, 2011, Jake Kasdan) versa sobre Elizabeth Halsey, uma professora de ensino fundamental que, numa das primeiras cenas do longa, pede demissão para ser sustentada pelo namorado rico, com quem está prestes a se casar. Mas, tempos depois, uma travessura do destino tira-lhe a oportunidade de tomar proveito das riquezas de seu fiancée. Ela termina, então, precisando voltar a lecionar para conseguir o dinheiro necessário para fazer o implante de silicone que lhe proporcionará seu próximo marido rico. Durante sue empreitada, passa os dias embriagada, fazendo seus alunos assistirem a filmes ao invés de dar aula, dá em cima de Scott, o bondoso professor de família rica, e infernizando a vida de sua serelepe rival Amy.

Trabalhando com um amor menos inocente do que se esperaria de um filme estrelado Cameron Diaz, Kasdan coloca a sala de aula em segundo plano para desenvolver a personalidade de sua protagonista independente do espaço onde esteja. Dessa forma, torna-a mais viva para o espectador, ainda que sua previsível redenção surja de maneira óbvia e apressada, mas nunca melodramática. Investindo num elenco descolado, Diaz se diverte com os palavrões e o cinismo de sua Elizabeth, enquanto que Jason Segel compõe o professor que se engraça por ela, mas que não a endeusa e Justin Timberlake desaparece um pouco com sua embalagem de cantor pop para tentar compor a timidez e a excentricidade de seu Scott. Com um discurso semelhante ao imensamente superior Papai Noel às Avessas, este longa não passa de um passatempo mais sacana do que as comédias açucaradas convencionais, servindo talvez como uma resposta às comédias ‘masculinas’- vide Se Beber, Não Case - que tem surgido nos últimos anos.

07/09/2011

Pacific - Sorria, você está se filmando.

Postando no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Pacific (idem, 2011, Marcelo Pedroso)



Trecho: "Nesse reality show concebido e registrado por nós mesmos, retornamos ao cinema dos Lumière ao encontrar diversas narrativas conduzidas por personagens anônimos e, por vezes, nada memoráveis, tornando esta experiência quase um dejá vu de nossa própria existência."



Melancolia - Pós-Trans-Oni-Anti-Ciência?

Postando hoje no Cine Lupinha.


Filme de Hoje: Melancolia (Melancholia, 2011, Lars Von Trier)



Trecho: "Rico em simbolismos, Von Trier incomoda e extasia seu público ao fazê-lo experienciar um Apocalipse ainda mais tenebroso do que aquele revelado nas profecias do apóstolo: dentro de nós mesmos, ocultamos um intenso esvaziamento que será suprido somente quando retornarmos para dentro da terra que nos expeliu para uma existência errante e distópica"




30/07/2011

Jogada de Risco – Prefácio de um Cineasta

Hoje, postei no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Jogada de Risco (Hard Eight / Sydney, 1996, Paul Thomas Anderson)




Trecho: "Ao analisar seu primeiro longa-metragem, percebe-se claramente alguns dos elementos que o consagraram: as elegantes e dinâmicas movimentações de câmera e a construção ou dissolução de relacionamentos familiares - geralmente, paternais - de maneira insuspeita"


Do Feminino e Masculino - Ricky



Desde as primícias da Humanidade, a composição familiar centra-se na figura feminina como detentora da “organização” do universo do lar, relegando-se ao homem o papel de provedor material por meio do trabalho – na caça, na agricultura ou na empresa. A mulher, então, começa a desenvolver um perfil de cuidadora de todos os membros da família, dedicando, muitas vezes, sua vida mais para o bem estar dos outros do que de si mesma.

Em Ricky (idem, 2009, François Ozon), o diretor opta por mostrar a constituição de uma família contemporânea “convencional”: mãe solteira, Katie, criando uma filha pequena, Lisa, que, ao se relacionar com um colega de fábrica, Paco, termina por ficar grávida e trazendo o novo namorado para morar na sua casa, o que desestabiliza as noções de harmonia familiar da primogênita. Com roteiro do próprio Ozon, o longa mescla realidade e fantasia com o nascimento do pequeno Ricky, que passa a desenvolver características diferentes das outras crianças: um par de asas. Por motivos que o diretor jamais esclarece, a mãe começa a perceber pequenos hematomas nas costas do menino, que, com seu crescimento, transformam-se em asas. A mãe, então, passa a escondê-lo dos vizinhos e dos médicos, até que uma inesperada exibição no supermercado chama atenção da cidade e da mídia, levando a moça a se enclausurar em seu próprio apartamento.

Optando pela sutileza, Ozon enquadra belamente seus atores -principalmente o ator mirim - com uma fotografia cotidiana e que alterna entre o colorido e o quase desbotado para oferecer o aspecto de realidade / fantasia que almeja imprimir. Sua trilha sonora, com suas doses cômicas, fantásticas e dramáticas, e montagem, que ora suprime ou ora dilata a sensação de passagem de tempo, oferecem ao longa ares que distinguem Ozon de outros cineastas europeus, como se mesclasse o painel real e doloroso dos irmãos Dardenne com a fantasia banal de Jean-Pierre Jeunet.

Por mais que invista em uma abertura deslocada do contexto da protagonista - mostra Katie, depois de Ricky estar crescido, indo em uma agência de adoção para entregar o menino para algum casal que consiga criá-lo, o que destoa de seu comportamento ao longo do filme -, o diretor suplanta essa e outras pequenas falhas com uma despretensão que conquista o espectador pela leveza com que é conduzida. Ao final do longa, resta ao público emocionar-se com a trajetória dessa mãe que, pela bem tecida metáfora empreendida pelo autor, sente a necessidade de deixar seu filho fluir pelo seu próprio curso distante dos seus cuidados, e dessa filha, que também abre espaço no seu coração para um padrasto que sempre se interessou em agradá-la, formando um núcleo familiar atípico, mas harmonioso à sua própria maneira.

Sem Passado e Sem Destino



Cotidiano. Rotina. Adestramento. Palavras que geralmente usamos para representar o dia-a-dia de casa, trabalho, estudo em que nos preparamos para organizar uma vida adulta saudável e desejável. Ignorar a pretensa importância de se estabelecer como um homem / mulher segundo estes preceitos torna-se, então, objetivo de todos aqueles que caminham na contravenção.

Em Sem Destino (Easy Rider, 1969, Dennis Hopper), Wyatt e Billy tornam emblemas desta contracultura ao protagoniza uma viagem pelos Estados Unidos no exercício de um estilo de vida alternativo aos ideais que tantos como eles prometeram anteriormente: uma existência fluida sobre as rodas de uma motocicleta desconectada das raízes que um dia cultivaram na família ou no trabalho. No meio de sua jornada ao encontro de si mesmos e de sua própria noção de espaço, atravessam desfiles, prisões, festas regadas a marijuana e os olhares preconceituosos e violentos dos interioranos conservadores.

Para alimentar seu discurso, Hopper emprega uma trilha sonora agressiva e pontual que conota sua personalidade intempestiva, acompanhada de uma edição que, por meio de cortes que oram usam, ora ignoram o naturalismo griffithiano, prenuncia uma atmosfera videoclíptica e propõe ao espectador novos olhares sobre aquilo que está vendo. Ou seja, Hopper não faz somente um filme sobre outro modo de vida, ele se declara como um novo modo de fazer filmes, que influenciou grandemente os artistas que o sucederam.

Crumb – o Homem como criador e criação


Hoje, postei no Cine Lupinha.


Trecho: "Zwigoff tece uma obra que versa sobre pessoas marginalizadas à sua própria claustrofobia, desvelando um retrato mais feio e sincero de uma sociedade regada pelo ideal de felicidade desgastado que almeja sempre perpetuar."

28/07/2011

Meia Noite em Paris – Ode à Arte e ao Tempo



Ao construir obras de arte, o ser humano procura de alguma forma relacionar-se com o tempo e o contexto que vivencia. Criando símbolos e mitos que comunicam estados, pensamentos e qualidades de um chamado “mundo interior”, os artistas podem, por conta dessa dedicação ao criar, distanciar-se, por vezes, do ordinário, do comum.

O tempo se dilata e a beleza das ruas parisienses se agiganta com a bela abertura de Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011, Woody Allen), em que o diretor destila suas neuroses carregadas de imaginação na pele de Gil Pender, um roteirista hollywoodiano que, insatisfeito com sua carreira, reescreve constantemente um romance que esconde a sete chaves das críticas alheias. Sua vida começa a mudar quando, em viagem com sua irritante noiva à Cidade Luz, resolve caminhar pelas vias parisienses e entrar em um carro antigo que o conduz a um mundo nostálgico, em que grandes artistas – como F. S. Fitzgerald, Ernst Hemingway, Picasso, Dali e Cole Porter – festejam e dialogam ad infinitum sobre o fazer artístico que Pender tanto aprecia.

Decepcionado com os “sub-artistas” do mundo contemporâneo, Pender anseia ardentemente habitar a Paris dos anos 20, que estima pelo intenso fervilhar criativo que proporcionou no encontro de tantas mentes inventivas. Nesse admirável mundo antigo, conhece a bela e sensível Adriana, que, surpreendentemente, aprecia o passado de glórias da Belle Époque de 1900 em detrimento do tempo que vivencia. Aludindo à A Rosa Púrpura do Cairo, a metalinguagem de Allen torna prosaicos os elementos fantásticos de um roteiro despretensioso que reflete e sente o prazer da Arte, mesclando realidade e fantasia em uma sofisticada jornada do homem rumo ao seu próprio tempo. Em seu elenco, Allen aprofunda as personas representadas por Owen Wilson e Marion Cotillard através de um improvável romance entre seres de temporalidades distintas, relegando, porém, seus coadjuvantes a estereótipos fúteis e pedantes em uma narrativa de segundo plano que, pelas presenças magnéticas de Rachel McAdams, Michael Sheen e Kathy Bates, jamais perde o charme. Nesse ourobouros de nostalgia, um universo alleniano se constrói através de belos enquadramentos e de uma fotografia que pinta um cotidiano luxuoso e uma trilha sonora que desvela um encanto pelo clima parisiense, conotando um amor não somente pela Cidade Luz, mas pelas pessoas que a tornaram e ainda tornam, de alguma forma, única.

Mesmo optando por um incômodo didatismo ao expor as conclusões de seu protagonista no ato de escolher entre realidade e fantasia no clímax da narrativa, Allen nos faz sentir e compreender a necessidade e a complexidade desse inevitável desígnio pelo real, por mais que almejemos vivenciar devaneios que nos conduzam para além de nós mesmos, à vanguarda de nosso universo interior.

10/07/2011

A Garota da Capa Vermelha ou Como ‘Crepuscularizar’ Um Filme?



Nessa onda de remixar narrativas antigas, um dos maiores sucessos dos últimos anos - Crepúsculo - parece povoar o inconsciente de todo filme juvenil que invista em triângulos amorosos com seres sobrenaturais. Depois da fase vampiresca, parece que estamos adentrando na fase lobisomem, com A Garota da Capa Vermelha (Red Riding Hood, 2011, Catherine Hardwicke) recontando a história de Chapeuzinho Vermelho com um ar mais juvenil, dark e lascivo para o conto da menina que precisa aprender a lidar com situações inesperadas em sua cidade com a invasão de um lobo em sua cidade.

Valerie (Amanda Seyfried) enrosca-se em um romance com Peter, seu amigo de infância, ao mesmo tempo em que o vilarejo em que habita começa a sofrer os ataques de um lobo que atacou e matou sua irmã, além de ser prometida em casamento a Henry, o objeto de desejo de sua falecida irmã. Ao longo da narrativa, entra-se num jogo de gato e rato, em que todos são suspeitos de serem o criminoso da vez, com reviravoltas que surpreendem os espectadores mais impressionáveis.

Hardwicke, no entanto, investe em um triângulo amoroso sem graça e previsível a fim de despistar o espectador, que, ao saber de antemão o final da história, termina por tentar se divertir em descobrir a identidade do Lobo ou rir da presença exagerada de Gary Oldman como Padre Solomon, que chega à cidade para exterminar o animal assassino. Por mais que o design de produção e a fotografia de Hardwicke acertem o tom dark juvenil para trazer vida para essa nova versão, faltou um pouco mais de cuidado e esforço ao tentar reescrever a matriz.

(Re)escrever o Real - Os Irmãos Grimm



As narrativas, os mitos, os ritos sempre povoaram a mente do ser humano e, até hoje, continuam a se perpetuar dentre as mais diversas mídias, pois a construção de histórias – reais ou ficcionais – sempre nos ajudará a lidar com situações que surgem diante de nós. Dentre tantas histórias que conhecemos, os contos de fada tornaram-se universais pelas mãos e mentes de dois irmãos que resolveram publicar histórias que há muito tempo eram contadas e recontadas pelo povo: os Irmãos Grimm. O longa digirido por Terry Gilliam, Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm, 2005, Terry Gilliam), decide, no entanto, não escrever a história dos irmãos como, de fato, ela aconteceu, mas permitir aos dois escritores mergulharem no universo dos contos de fada que eles mesmos publicaram – como se fosse um “registro-x” da verdadeira História.

O longa dirigido por Terry Gilliam reúne diversas referências a contos como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e Rapunzel para contar a história de Will (Matt Damon) e Jacob (Heath Ledger) Grimm, que, com doses de ilusionismo e charlatanismo, sobrevivem de aplicar golpes em cidadãos que almejam ver os seres sobrenaturais que assombram os redutos de seus vilarejos destruídos ou escorraçados. Os medrosos e estranhos habitantes das cidades que os Grimm visitam desconhecem que eles mesmos forjam os ataques das bestas e bruxas a fim de angarias alguns trocados com o medo e a ignorância alheia. No entanto, quando são incumbidos de desmascarar o truque de outros charlatães que estão aterrorizando a cidade de Margraden ao seqüestrar adolescente, eles percebem que existem outras ameaças sobrenaturais verdadeiras com as quais eles precisarão lidar.

Enquanto que Will caracteriza-se mais pelo ceticismo e praticidade, em Jacob predomina a sensibilidade e o intelecto, tornando-se o responsável por redigir as desventuras dos irmãos em contos que são reunidos em um livro. A partir deste mote, Gilliam trabalha com diversas referências ao universo habitados pelos personagens dos irmãos Grimm, trabalhando com um elenco variado – além de Damon e Ledger, temos Peter Stormare, Monica Bellucci e Jonathan Pryce – e com uma direção de arte e uma fotografia desbotados que caracterizam uma sujeira da Alemanha da época, dominada pelos franceses. Da mesma forma, a trilha sonora tenta capturar o espírito tradicional e fantástico da aventura, compondo um cenário de fábula dark que atende aos públicos juvenis e adultos. Com um Matt Damon no piloto automático e um Heath Ledger que investe nas caretas para tentar trazer um Jacob mais humano e menos melancólico, o ex-Monty Python investe em efeitos especiais terríveis para sustentar a narrativa ao invés de apostar na sutileza, o que, talvez, teria melhorada o resultado da empreitada, que permanece no terreno dos clichês para proporcionar um entretenimento passageiro e esquecível.

Precisamos de histórias para lidar melhor com os problemas e alegrias que vivenciamos, admiramos o cinema por nos permitir viajar por essa estrada de auto-reconhecimento e entretenimento. No entanto, por vezes, não encontramos uma história ou formas de contá-la que nos atraiam ou nos incomodem o suficiente para mudar nossa concepção sobre os fatos.