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30/07/2011

Jogada de Risco – Prefácio de um Cineasta

Hoje, postei no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Jogada de Risco (Hard Eight / Sydney, 1996, Paul Thomas Anderson)




Trecho: "Ao analisar seu primeiro longa-metragem, percebe-se claramente alguns dos elementos que o consagraram: as elegantes e dinâmicas movimentações de câmera e a construção ou dissolução de relacionamentos familiares - geralmente, paternais - de maneira insuspeita"


03/03/2011

Elizabeth - O Público e o Privado

Hoje, estou postando no blog Cine Lupinha, para o qual fui convidado recentemente por um de seus integrantes - Rafael W. - a fazer parte da Equipe. Desde já estou agradecendo e me sentindo muito lisonjeado pelo convite.

Filme de hoje: Elizabeth (1998), de Shekar Kapur

Obrigado pela oportunidade

23/06/2010

Esvaziamento da Sátira – Alice no País das Maravilhas


Obra mais famosa de Charles Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas se tornou uma das mais célebres literaturas do surrealismo, contando a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas. Criado para crianças e adultos, está repleto de alusões satíricas, paródias a poemas populares infantis do século XIX e referências linguísticas e matemáticas.

Contudo, na adaptação realizada por Tim Burton, apresenta-se uma continuação da famigerada história: Alice, agora com vinte anos, está prestes a se casar com um homem que não ama quando, no dia da festa, é trazida de volta ao País das Maravilhas a fim de resolver pendências a respeito da Rainha de Copas. Trazendo seu estilo visual como componente de maior destaque da obra, o cineasta termina dissolvendo a crítica à sociedade inglesa com uma trama de guerra que desvia a atenção dos diálogos nonsense que compunham a beleza da enigmática e divertida obra original.

O visual que mescla soturno e colorido exuberante compõe um cenário que chama atenção e deleita o espectador médio, mas o dinamismo videoclíptico da narrativa dispersa de uma possibilidade de reflexão mais profunda. Afinal, o roteiro de Linda Woolverton limita-se a uma jornada de Alice ao seu interior, como uma lembrança da jornada que havia feito aos seis anos e da qual não se lembrava e precisava a fim de sair de uma proposta de casamento fracassada a fim de viver em liberdade. Esse arco feminista ultrapassado torna-se previsível desde as primeiras cenas, onde a jovem já se mostra insatisfeita com toda a pompa que lhe cerca e as novas experiências que encontrará lhe trarão uma nova perspectiva sobre seu futuro.

Quanto ao elenco, todos conseguem trabalhar bem em conjunto, podendo-se destacar Helena Bonham Carter, que se supera como a Rainha de Copas, que se mostra divertida e agressiva como a vilã-mor da história, equilibrando raiva e desprezo com um ar blasé que encanta o espectador. A novata Mia Wasikowska desenvolver uma protagonista digna da obra que tem diante de si, trazendo um frescor ao material do cineasta.

Como espetáculo, vale muito a pena, contudo, se o observarmos esvaziado de toda a carga que poderia apresentar, se optasse por resgatar o tom do original.

18/05/2010

Educação e o anti-ortodoxo



Na tentativa de planejar nosso destino, diversas situações podem nos distanciar de alcançar um objetivo, mas somente uma delas predomina diante de todas as outras: nossa própria vontade.

Em Educação, de Lone Scherfig, conta-se a história de Jenny, uma típica londrina dos anos 60 no final da adolescência e dos estudos que se prepara para entrar na universidade, mas, em seu caminho encontra David, um rapaz nos auge dos seus 30 anos, que lhe apresenta um mundo de jazz, festas e uma cultura da rua, não dos livros. Contudo, ao longo do seu envolvimento, Jenny começa a perceber que o rapaz e seus amigos não são exatamente quem aparentam, onde a responsabilidade e a ética não são consideradas palavras de ordem.


No roteiro adaptado por Nick Hornby a partir das memórias de Lynn Harber, os diálogos tornam-se seu maior destaque, por carregarem uma sinceridade e humanidade que conseguem compor um painel ao mesmo tempo clássico e moderno, oferecendo um frescor na maneira com as situações que apresenta. Se enredo e situações da narrativa não apresentam novidades, é a interpretação dos atores que consegue lhes conferir esse frescor e vitalidade, com destaque para Carey Mullingan e Peter Saarsgard, que, com sua química pulsante e inebriante, extraem do espectador os sentimentos mais dúbios, da candura ao desprezo. Jenny equilibra a responsabilidade e a transgressão em uma personalidade terna e determinada, mas frustrada em certo momento do longa, algo capturado com excelência pela jovem intérprete, que, dessa forma, se torna a alma da obra.


Sua diretora consegue orquestrar essa dinâmica do elenco com habilidade, levando seu público a se identificar imediatamente com a trajetória de Jenny rumo à vida adulta, de maneira imperfeita, contudo, mais experiente.

19/04/2010

Nascimento da Responsabilidade: O Ano em que meus pais saíram de férias


Que lições pode a ausência de autoridade trazer para uma criança em plena idade das experiências? Que caminhos nos levam em direção à maturidade? Mistura de filme infanto-juvenil e drama social, o longa de Cao Hamburger resgata uma época hpa muito retratada pela nossa cinematografia: a ditadura militar. Contudo, o cineasta propõe um olhar diferenciado a respeito deste mesmo fato, um ponto de vista inocente, ingênuo, mas partindo para a maturidade.

Mauro, menino de dez anos, atravessa uma jornada rumo ao amadurecimento quando se vê, repentinamente, deixado na porta da casa do seu avô por seus pais, que, segundo os próprios, estão viajando "de férias" - rumo de diversos revolucionários comunistas perseguidos por suas posições políticas. No entanto, a morte de Mótel, seu avô, no mesmo dia, deixa-o a mercê da própria sorte, sendo acolhido por Schlomo, homem judeu que vive no apartamento ao lado e, subitamente, recebe seu "Moisés", menino hebreu recebido pelas mãos do Faraó e criado por eles - numa metáfora que acompanha sua trajetória no desenrolar do longa.

Partindo do pressuposto desta amizade improvável, Mauro e Schlomo apreendem o peso e a satisfação de assumir o compromisso de estar para outra pessoa, do cuidado para com o outro. Enquanto Mauro aprende com a necessidade a ser responsável por si mesmo e, em um dado momento, por Ítalo, comunista foragido que se hospeda em sua casa; Schlomo aprende a abrir mão de suas próprias escolhas para acolher o menino e assumi-lo diante das intempérias que se seguirão depois disso. Tudo isso embalado por boas lembranças de uma infância setentista e boleira, de uma ingenuidade brasileira vivida nos sobrados e várzeas, pela torcida pela Copa do Mundo dos 70.

Cao orquestra uma fotografia desbotada, trilha sonora pueril, interpretações naturais e sutis e um roteiro belíssimo com sabedoria, calma e, acima de tudo, o sentimento de quem vivenciou todas aquelas situações. De quem aprendeu a ser responsável sendo.

13/07/2009

Meu Tio e a busca pela perfeição


Ao ver o famigerado longa de Jacques Tati, Meu Tio, percebe-se um clima de nostalgia e um retorno pela infância e pela pureza, não somente das pessoas, mas de um cinema jovem, que ainda teria tanto a dizer. Com fortes referências ao cinema mudo, aos quadrinhos, Tati constrói um longa que mostra um tempo diferente do nosso, mas que se mostra ainda atual e inteligente nas suas críticas à sociedade. Dando início ao filme, encontram-se, nas ruas sujas da França, cachorros revirando latas de lixo. Um deles chama a atenção: está vestido! Logo depois, vemos que volta para a casa dos donos: cheia de bugigangas eletrônicas e pouco práticas, a residência pretende cercar seus moradores com o máximo que pode oferecer.

A partir desse ponto, vemos a relação que Sr Hulot e seu sobrinho estabelecem entre si - amizade e companheirismo - e com a casa - rejeição e incômodo. Mas por quê? As facilidades do mundo moderno não são uma evolução? Depende do modo como o utilizamos. As pais do menino se apóiam neles e fazem destes a razão de suas vidas, relegando à própria família um lugar secundário. Por isso, o menino sente-se mais à vontade com Sr Hulot: um outsider ao seu modo. Ele não se encaixa nos padrões pragmáticos da sociedade, portanto, se torna um excluído. Ou seja, lixo, excesso.

O aspecto clean e hermético da casa ajusta as relações falsas e superficiais que as pessoas estabelecem naquele lugar, como os vizinhos e amigos da família, que, mesmo em meio a uma festa, não enxergam nada além de si mesmos. Tanto que não percebem as trapalhadas de Sr Hulot e o menino para lidar com algumas traquitanas da casa. É perceptível o cuidado com que Hulot compõe suas sequências: na maior parte das cenas, vê-se um amontoado de lixo que nunca é varrido, causando um incômodo - pelo menos, em mim - para que aquela sujeira fosse retirada. A partir dessa sensação, reflito: como aceito os outsiders da sociedade e não aceio essa sujeira, esse pequeno incômodo na tela?

Essa nossa busca pela perfeição é eterna e no move. A maturidade, no entanto, se encontra em perceber a evolução nos processos e não simplesmente os resultados. Viver na utopia de habitar em um ambiente distante das imperfeições do mundo externo só nos ilude e nos isola do conato com o outro. Como atesta o final do longa, é inevitável que as coisas mudem, mas evoluir está no benefício que estas mudanças trazem para si e para as outras pessoas. Seja na relação que a criança finalmente estabelece com seu pai. Seja na mudança na vida de Sr Hulot. Aquilo que não muda é por que não existe mais.

Obs.: Essa relação com lixo, a busca pela perfeição e pela segurança, até a forma como o herói da história é construída, além da estética herdada do cinema mudo, lembra bastante Wall-E, longa de animação da Pixar.