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07/09/2011

Melancolia - Pós-Trans-Oni-Anti-Ciência?

Postando hoje no Cine Lupinha.


Filme de Hoje: Melancolia (Melancholia, 2011, Lars Von Trier)



Trecho: "Rico em simbolismos, Von Trier incomoda e extasia seu público ao fazê-lo experienciar um Apocalipse ainda mais tenebroso do que aquele revelado nas profecias do apóstolo: dentro de nós mesmos, ocultamos um intenso esvaziamento que será suprido somente quando retornarmos para dentro da terra que nos expeliu para uma existência errante e distópica"




04/01/2010

Como fugir da realidade em Dançando no Escuro?


O diretor Lars Von Trier não é afeito a meios termos, compondo quadros da Humanidade como o local onde o indivíduo se perde, sofre seus maiores infortúnios, tavez resgatando alguns dos ideais de Rousseau como ponto fundamental de sua obra - video Dogville, Os Idiotas, Anticristo e este Dançando no Escuro.

Selma é uma imigrante do Leste Europeu nos Estados Unidos e enfrenta uma realidade difícil ao trabalhar em uma fábrica para realizar a operação nos olhos de seu filho, Gene, que herdará sua doença, que a deixará cega. A fim de sobreviver emocionalmente às intempéries do mundo real, ela se refugia no universo dos musicais hollywoodianos, em que o barulho das máquinas e passos tornam-se música e dança, um deslumbre para os olhos condenados à cegueira. Partindo deste plot simples, mas contundente, Trier traça ainda mais dificuldades para Selma, que será roubada, demitida e condenada à pena de morte ao longo da projeção. A crueldade de seu desenvolver narrativo gera incômodo nos espectadores desavisados e imprevisibilidade no destino da protagonista, tornando-se cinema que surpreende e choca - não de modo gratuito, mas por uma identificação sincera do público com os dramas que todos enfrentamos ao longo da vida.

Björk entrega um trabalho díficil: tornar verossímil personagem tão ingênuo e tão cheio de mudanças na narrativa. Apesar de estar à vontade nos números musicais, a cantora também mostra competência e desprendimento nas cenas dramáticas, em especial o final, onde um movimento brusco encerra definitivamente o que era uma vida de constante sofrimento. Assim como esta, seus coadjuvantes compõem um universo real: Kathy, sua colega de trabalho; Bill, e Linda, o casal que a abriga; Gene, seu filho; Jeff, seu amigo e pretendente, e tantos outros. Mesmo que se mostrem aliados ou inimigos, todos almejam trazer Selma à realidade, tragá-la para um mundo onde as pessoas não dançam e cantam espontaneamente, onde nem sempre os finais serão felizes. É essa conclusão que surge dolorosamente ao final do longa, com o olhar lastimoso de uma carcereira diante de uma Selma padecendo seus últimos momentos.

Contudo, se sua força reside num melodrama tão extremo - a jovem inocente dizimada por um mundo que não a compreende e deseja seu mal -, como fazê-lo habitar em um universo real onde as nuances entre Bem e Mal surgem tão tênues. Apesar de nos identificarmos tão fortemente com a personalidade quase limítrofe de tão ingênua de suas protagonistas, percebe-se em Trier a necessidade de se ver de modo tão corrompido pelos outros. Talvez Von Trier deseje ardentemente se colocar no lugar de Selma: como alguém que sofreu pungentemente diante dos infortúnios provocados pela Humanidade, entidade que talvez o conforte a fim de não enxergar o mal existente dentro de si mesmo.

20/09/2009

Anticristo: um filme de sensações


Lars Von Trier, um sujeito sem meio-termo. Da mesma forma, seus filmes. Amar ou odiar. Sentimentos. Que aparecem tão à flor da pele, que perpassam os órgãos dos sentidos. As sensações de náusea. Algo físico. Os olhos sentem o desejo de não enxergar. O medo dos eventos posteriores transformam o longa em um conjunto de intempéries quase palpáveis de tão extremas. Mesmo que não encontre os aúreos momentos de Dogville, o cineasta consegue entregar uma obra acima da média das produções estadunidenses - ao menos no que concerne ao rótulo de fime de terror -, carregando nas tintas da tensão e no extravasar da violência com cenas fortes e explícitas.

Hermético. Intrincado. Uma sensação de vazio acompanha o espectador ansioso por uma catarse numa sessão de Anticristo, mas dificilmente o deixará incólume diante de momentos tão constrangedores e irracionais como os construídos pelo diretor. Oscilando entre cenas belíssimas e deprimentes, Von Trier arquiteta e executa um longa que, na verdade, promete mais do que cumpre, pois o diretor se mostra tão pretensioso em suas colocações que se torna maçante. em certo momento. Ao jogar atores e público diante de cenas de violência e sexualidade extremas, o autor ignora o potencial da palavra - ou sua ausência -, investindo na ação e no gesto, o que, em certos momentos, torna seu espetáculo gratuito. A profundidade do não-dito parece estar sempre à espreita, sem se desenvolver, trazendo ao espectador essa sensação de vazio, de incompletude: não necessariamente almejando um meio e um final destrinchados, mas com uma curva dramática que justifique os atos tão extremos propostos pelo cineasta.

O espectador, ao fim da sessão, talvez espere saber em que papel o autor se encontra: na mente do homem arrogante e extremamente racional ou no corpo da mulher sentimental e, aparentemente, irracional. A dúvida da investigação permanece. pois talvez seja no meio dessa luta que Von Trier deseje se encontrar: nas sensações pueris ainda ingênuas daquela criança que padece logo na primeira cena. A sensação da queda, da perda conduz o espectador a um oceano de angústia e desespero. Mas, neste universo tempestuoso, não existem soluções fáceis ou somos nós que não conseguimos encontrar o caminho? Precisamos senti-lo ou racionalizá-lo? Humanos que somos, caminharemos sempre escolhendo entre um e outro, tentando nos equilibrar diante de uma natureza que parece sempre nos pedir o contrário.