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10/10/2011

Premonição 5 e as Narrativas Seriadas




As narrativas seriadas fazem sucesso desde o início dos folhetins e cinejornais que, alimentando as expectativas do público com dramaticidade e tensão, procuravam mantê-lo imerso em uma narrativa que apresentava elementos quase sempre reconhecíveis na história contada. Como já foi dito na resenha de Os Smurfs(The Smurfs, 2011, Raja Gosnell), vivemos em uma Cultura do Remix, ou seja, em que estamos procurando sempre aspectos familiares em todos os produtos que consumimos.

Em Premonição 5 (Final Destination 5, 2011, Steve Quale), encontramos exatamente a mesma história em cada um dos filmes, diferindo somente os protagonistas e os espaços onde a ação se desenrola: um(a) jovem viaja para algum lugar com um grupo de pessoas, tem uma visão premonitória em que todos morrem e traz um grupo de pessoas junto com ele. Estas pessoas, depois de terem ‘enganado a Morte’, começam a ser mortas uma a uma das maneiras mais absurdas através de estranhas coincidências. Se, no primeiro filme, a novidade fez seu sucesso, a partir do segundo, a fórmula já havia estabelecido e só fez descer ladeira abaixo. Neste quinto, um elemento interessante oferece um renovo para a desgatada narrativa: o humor.

O roteiro de Eric Heisserer, despontando no ramo do terror, traz um certo humor negro em alguns momentos, pois seus personagens parecem se divertir com a situação em que se encontram e não se podam em nos ‘torturar’ com a tensão de nossa expectativa em saber como vai acontecer a morte de cada um dos personagens. E quanto a Steve Quale, pupilo de James Cameron, não se intimidou de seguir os passos do mestre e tornou o filme uma experiência divertida, ainda que descartável. Entendeu que, para gerar identificação com as personagens, não precisava mostrar sempre eles sofrendo com sua condição, mas o ridículo também teria seu espaço. Quanto ao elenco, todos eles conseguem dar conta do recado, criando personagens que, se não são inesquecíveis, conseguem marcar pelo tempo do filme. Mas os elementos que chamam realmente a atenção são as cenas de ação e suspense – como a destruição da ponte em obras e as primeiras mortes, assim como a reviravolta final.

Premonição 5 funciona por ter consciência de não precisar se levar a sério e por se fazer sempre reconhecível pelos elementos que o consagraram, como as várias narrativas seriadas com que nos deparamos ao longo de nossa jornada audiovisual, repetindo o mesmo discurso: ninguém MESMO engana a Morte. 

30/09/2011

Premonição 2 e os dejavus das franquias

Hoje, postando a pedido do Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Premonição 2 (Final Destination 2, 2003, David R. Ellis)


Trecho: "Bastou dar um Ctrl+L no roteiro do primeiro filme e substituir o nome dos personagens e temos uma receita para fazer um filme onde só importa as mortes criativas e a espetacular explosão que inicia o filme."

21/04/2011

Pânico 4 e o cinema como um evento


Desde que apresentou o aparente final da trilogia Pânico com o terceiro filme da série, Wes Craven parecia colocar a primeira pá de cal sobre o estilo “filme de terror metalingüístico” que sacramentou durante os anos 90. Se, em 2000, Pânico 3 parecia francamente desgastado diante da revolução do terror com O Sexto Sentido e A Bruxa de Blair em 1999, o quarto filme da cinessérie - Pânico 4 (Scream 4, 2011, Wes Craven) - funciona como um suspiro de alívio em meio à “responsabilidade” que o fazer cinema “original” terminou se tornando.

Retornando à cidade natal anos depois dos massacres registrados no último longa, Sidney Prescott está lançando um livro que não somente conta a história pela qual passou, mas que também tem servido de inspiração para outras pessoas superarem dramas semelhantes (?), se é que existe essa possibilidade. Enquanto isso, Dewey ainda permanece como o xerife da cidade onde não acontece nada de extravagante para sua esposa, Gale Weathers, vasculhar com seu instinto jornalístico – todos os três meio perdidos na profusão de astros em participações especiais, como Kristen Bell, Hayden Panettiere, Rory Culkin, Anna Paquin e Marley Shelton. Mas todos os furos no enredo e as fracas interpretações pouco importam quando, na realidade, reside na experiência cinematográfica de retornar à época em que se via a renovação deste gênero pelas mãos de Kevin Williamson – roteirista deste e de outros filmes que iam na mesma esteira, como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado e Prova Final, assim como do seriado adolescente Dawson’s Creek - a sua maior qualidade.

Se, desde seu prólogo, o filme aposta na esperteza ao se deixar levar pela metalinguagem deslavada, referenciando não somente os filmes de terror, mas também as mudanças que a trilogia original proporcionou, o realiza na intenção de restabelecer as regras de um jogo conhecido pelos seus jogadores, mas, desta vez, investindo mais ainda na diversão do processo do que o resultado. Mesmo que os clichês de uma época se avolumem a cada fotograma e possamos, ao longo da narrativa, perceber o quanto amadurecemos e nos sofisticamos nessa última década, certamente a sensação mais agradável durante uma sessão do longa reside em perceber que seus realizadores não são somente fãs dos filmes de terror adolescentes, mas fãs da própria trilogia Pânico.

Certamente, eles pensaram na experiência de estar em um multiplex cheio de ex-adolescentes nos seus vinte e poucos anos, gritando, rindo e se emocionando com suas lembranças, uma geração que, enquanto rememora o quanto se divertia anos atrás, também percebe como tem se levado a sério demais em alguns momentos.


10/02/2011

O Pesadelo da Perfeição - Cisne Negro



Medalhas de Honra. Prêmios. Honrarias. Além do reconhecimento por um trabalho bem realizado ou uma postura correta diante de alguma situação, estas recompensas trazem embutidas uma visão da identidade daquele que a recebe: de ser uma pessoa íntegra e merecedora daquele título. Contudo, a situação se complica quando o premiado torna-se escravo da imagem que os outros criaram para ele, fazendo-o viver em função dela para conseguir alcançar honrarias maiores.

Essa reflexão inicial está implícita na mais nova obra perpetrada por Darren Aronofsky, cineasta conhecido por seus passeios pela mente humana, seja calcado em retratos mais realistas – O Lutador (The Wrestler, 2008) – ou construções a partir de um ponto de vista deslocado da sociedade – Pi (idem, 1998) -, mas por vezes, mostrando o desequilíbrio entre sonho e realidade, como no seu Cisne Negro (Black Swan, 2010), em que Natalie Portman encara o tour de force de dar vida à Nina Sayers, bailarina de uma companhia de Nova York. Sua vida, como a de todos nessa profissão, é inteiramente consumida pela dança: ela mora com a mãe, Erica (Barbara Hershey), bailarina aposentada que incentiva a ambição profissional da filha. O diretor artístico da companhia, Thomas Leroy (Vincent Cassell), decide substituir a primeira bailarina, Beth MacIntyre (Winona Ryder), na apresentação de abertura da temporada, O Lago dos Cisnes, e Nina é sua primeira escolha. Mas surge uma concorrente: a nova bailarina, Lily (Mila Kunis), que deixa Leroy impressionado.

Como a representação do Cisne Negro requer que Nina se desfaça da imagem que se acostumou a carregar durante tanto tempo, seja pela criação superprotetora da mãe ou pela disciplina que o ballet lhe exigiu durante toda sua jornada, de que ideal de perfeição ela precisa se desvencilhar: a perfeição de sua vida fora dos palcos ou da sua Arte? Mergulhando nesse pesadelo expressionista, Aronofsky conduz, assim como em Requiem for a Dream (2000), uma protagonista que se entrega de tal forma à realização de um desejo que sua consciência parece se anestesiar das consequências que dele emergem. Utilizando de uma trilha sonora sufocante, uma edição dinâmica e refinada e uma mise-en-scène surpreendente, a câmera na mão de Aronofsky acompanham uma Natalie Portman que equilibra desconforto e transformação a fim de construir um retrato distorcido da humanidade que a cerca através da mente de Nina Sayers, cujo desejo de perfeição a encaminha para uma metamorfose kafkaniana e autodestrutiva.

Um cinema densamente psicológico, poderoso e, por que não dizer, até perigoso como um sonho que, por vezes, torna-se real demais para ser ignorado.


14/12/2010

Alienação e Genocídio em A Epidemia


Como uma refilmagem de um clássico de George Romero – O Exército do Extermínio, 1973 -, A Epidemia (The Crazies, 2010) atualiza o visual de uma história que, mesmo superficial, termina rendendo uma experiência intensa na sala escura.

Durante a primavera de uma tranquila cidade do interior, os moradores misteriosamente tornam-se pessoas silenciosas e extremamente agressivas, algo provocado por substâncias químicas no abastecimento de água do local. O casal David (Timothy Olyphant) e Judy (Radha Mitchell) se vêem cercados por aqueles que um dia já foram seus vizinhos e amigos, mas agora vagam pela cidade com um único objetivo em mente: matar. Sem os tradicionais dez minutos destinados à apresentação da situação dramática de suas personagens, o longa traz o espectador direto para a ação, quando, num jogo de baseball, um dos moradores ameaça David com uma espingarda, sendo morto pelo mesmo em seguida. Com o passar do tempo, os ataques começam a se intensificar até se descontrolar completamente, onde nenhum dos integrantes da equipe de resgate tem a confiança do espectador.

Mergulhando abruptamente na história sem preparação, os espectadores são lançados em uma teia onde o desconhecido e o inesperado predominam, ainda que permeado por sustos óbvios, onde o realista e o sobrenatural estão sempre à espreita. Com um roteiro simples, sua composição trata o ataque súbito daqueles moradores como uma metáfora ao genocídio e à violência de uma maneira geral, concebendo-a como algo sem sentido que, por motivo algum, domina aquelas personagens.

Questionando os limites entre a violência protetora e a destrutiva, seu diretor constrói um longa superficial, mas intenso, que ainda reserva ao espectador um ar de ironia ao seu final, compondo um painel de alienação ao redor dos acontecimentos trágicos da cidade.

23/02/2010

O Lobisomem: Sessão fraca, mas já esperada


Ao entrar na sessão para assistir o longa de Joe Johnston, já imaginava o que veria pela frente: membros estirpados, roteiro prevísivel e esburacado e e sutileza zero na mão de um diretor conhecido por seus filmes superlativos - vide Rocketeer, Jumanji e Jurassic Park III. Tendo em mãos essa "necessidade" de realizar uma nova versão de um personagem clássico do cinema, o diretor se equilibra entre fazer cinema à moda antiga e trazer às novas gerações o surgimento de uma nova franquia.

O diretor, no entanto, realiza um longa que se restringe ao rótulo de "versão 2.0" do lobisomem, ignorando possibilidades de realizar uma verdadeira transformação temática ou estética do que costumamos associar às personagens. Benico Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving esforçam-se para tornar mais atrativa a sessão, mas não conseguem realizar o milagre de transformar água em vinho, por conta de um roteiro que prefere reunir todos os clichês possíveis e imagináveis sem superá-los, fornecendo "reviravoltas" mais do que previsíveis e um final "aberto" que propõe a realização da sequência.

O Lobisomem pode render muito, mas está distante de tornar memorável o personagem que tantos outros longas inspirou anteriormente.

20/09/2009

Anticristo: um filme de sensações


Lars Von Trier, um sujeito sem meio-termo. Da mesma forma, seus filmes. Amar ou odiar. Sentimentos. Que aparecem tão à flor da pele, que perpassam os órgãos dos sentidos. As sensações de náusea. Algo físico. Os olhos sentem o desejo de não enxergar. O medo dos eventos posteriores transformam o longa em um conjunto de intempéries quase palpáveis de tão extremas. Mesmo que não encontre os aúreos momentos de Dogville, o cineasta consegue entregar uma obra acima da média das produções estadunidenses - ao menos no que concerne ao rótulo de fime de terror -, carregando nas tintas da tensão e no extravasar da violência com cenas fortes e explícitas.

Hermético. Intrincado. Uma sensação de vazio acompanha o espectador ansioso por uma catarse numa sessão de Anticristo, mas dificilmente o deixará incólume diante de momentos tão constrangedores e irracionais como os construídos pelo diretor. Oscilando entre cenas belíssimas e deprimentes, Von Trier arquiteta e executa um longa que, na verdade, promete mais do que cumpre, pois o diretor se mostra tão pretensioso em suas colocações que se torna maçante. em certo momento. Ao jogar atores e público diante de cenas de violência e sexualidade extremas, o autor ignora o potencial da palavra - ou sua ausência -, investindo na ação e no gesto, o que, em certos momentos, torna seu espetáculo gratuito. A profundidade do não-dito parece estar sempre à espreita, sem se desenvolver, trazendo ao espectador essa sensação de vazio, de incompletude: não necessariamente almejando um meio e um final destrinchados, mas com uma curva dramática que justifique os atos tão extremos propostos pelo cineasta.

O espectador, ao fim da sessão, talvez espere saber em que papel o autor se encontra: na mente do homem arrogante e extremamente racional ou no corpo da mulher sentimental e, aparentemente, irracional. A dúvida da investigação permanece. pois talvez seja no meio dessa luta que Von Trier deseje se encontrar: nas sensações pueris ainda ingênuas daquela criança que padece logo na primeira cena. A sensação da queda, da perda conduz o espectador a um oceano de angústia e desespero. Mas, neste universo tempestuoso, não existem soluções fáceis ou somos nós que não conseguimos encontrar o caminho? Precisamos senti-lo ou racionalizá-lo? Humanos que somos, caminharemos sempre escolhendo entre um e outro, tentando nos equilibrar diante de uma natureza que parece sempre nos pedir o contrário.