19/04/2010

Nascimento da Responsabilidade: O Ano em que meus pais saíram de férias


Que lições pode a ausência de autoridade trazer para uma criança em plena idade das experiências? Que caminhos nos levam em direção à maturidade? Mistura de filme infanto-juvenil e drama social, o longa de Cao Hamburger resgata uma época hpa muito retratada pela nossa cinematografia: a ditadura militar. Contudo, o cineasta propõe um olhar diferenciado a respeito deste mesmo fato, um ponto de vista inocente, ingênuo, mas partindo para a maturidade.

Mauro, menino de dez anos, atravessa uma jornada rumo ao amadurecimento quando se vê, repentinamente, deixado na porta da casa do seu avô por seus pais, que, segundo os próprios, estão viajando "de férias" - rumo de diversos revolucionários comunistas perseguidos por suas posições políticas. No entanto, a morte de Mótel, seu avô, no mesmo dia, deixa-o a mercê da própria sorte, sendo acolhido por Schlomo, homem judeu que vive no apartamento ao lado e, subitamente, recebe seu "Moisés", menino hebreu recebido pelas mãos do Faraó e criado por eles - numa metáfora que acompanha sua trajetória no desenrolar do longa.

Partindo do pressuposto desta amizade improvável, Mauro e Schlomo apreendem o peso e a satisfação de assumir o compromisso de estar para outra pessoa, do cuidado para com o outro. Enquanto Mauro aprende com a necessidade a ser responsável por si mesmo e, em um dado momento, por Ítalo, comunista foragido que se hospeda em sua casa; Schlomo aprende a abrir mão de suas próprias escolhas para acolher o menino e assumi-lo diante das intempérias que se seguirão depois disso. Tudo isso embalado por boas lembranças de uma infância setentista e boleira, de uma ingenuidade brasileira vivida nos sobrados e várzeas, pela torcida pela Copa do Mundo dos 70.

Cao orquestra uma fotografia desbotada, trilha sonora pueril, interpretações naturais e sutis e um roteiro belíssimo com sabedoria, calma e, acima de tudo, o sentimento de quem vivenciou todas aquelas situações. De quem aprendeu a ser responsável sendo.

16/04/2010

Up e os ensaios para a vida


Como seres humanos, realizamos diversos planos para nossas vidas, como se estivéssemos sempre nos preparando para algo posterior que será chamado, de fato, nossas vidas. Fazemos projetos para viajar, experimentar, como se tudo o que estivéssemos fazendo antes disso não fizesse parte do viver, do estar vivo.

Carl Fredricksen planejou com sua esposa diversas viagens que seriam feitas ao longo dos anos, porém os diversos fatos que ocorreram com eles terminaram por adiar constantemente seus projetos, conforme mostrado em uma bela elipse logo no início de filme, que sintetiza de maneira emocionante diversas fases dramáticas de ambos com sutileza e habilidade. Anos depois, conhecemos a pessoa que Karl se tornou ao longo dos anos: ranzinza e afastado do convívio com outras pessoas. No entanto, ele começa a relembrar seu passado e, mesmo com o peso da idade, decide fazer algo inóspito: amarrar uma imensa quantidade de balões no telhado de sua casa e sobrevoar diversos lugares para viver grandes aventuras. Acompanhado por Russell, um escoteiro que precisa angariar reconhecimento para que obtenha suas medalhas de honra ao mérito, este protagonista excêntrico leva o espectador para uma jornada divertida e dinâmica, onde encontram um cachorro que, com um aparelho eletrônico, consegue falar; uma ave rara procurada por diversos exploradores, como Charles Muntz, grande herói de Karl em sua juventude.

Optando por um ar mais caricatural e cômico do que naturalista, Pete Docter e Bob Peterson utilizam o cartum como forma de aproximação imediata do público com suas personagens, fazendo de suas formas corporais um reflexo de sua interioridade. Enquanto Karl apresenta feições mais retas e rígidas que demonstram seu caráter rabugento, o menino, o cachorro e a ave possuem feições mais arredondadas, que demonstram leveza e flexibilidade diante das situações que surgem em seu caminho. No desenvolver do enredo, o roteirista consegue tornar clara as nuances que seu protagonista obtem, além de incluir diversas situações que exploram as infinitas possibilidades de enredo conseguem de forma criativa, sem precisar apelar para uma fragilidade das narrativas episódicas típicas dos road movies.

Mesmo que não apresente a genialidade de Wall-E ou Ratatouille, a Pixar constrói uma animação acima da média, que diverte e faz refletir na mesma medida, levando seu espectador a sair do cinema com desejo de aproveitar melhor o dom da vida, e não permanecer em um constante ensaio para um plano futuro. Sua essência não se trata simplesmente de aproveitar a vida enquanto se pode, mas de usufruir de seus benefícios em qualquer momento.

09/03/2010

A imprevisibilidade do ponto de vista em O Desinformante


Steven Soderbegh compõe um cenário com charme atemporal no longa O Desinformante, estrelado por Matt Damon e Scott Bakula, que conta a história real de Mark Whitacre, um funcionário de uma grande empresa norte-americana, que decide, após ser ameaçado por uma falha no seu ofício, fornecer informações confidenciais aos agentes federais, com a ânsia de se proteger de possíveis retaliações que venha a sofrer.

Resgatando um clima setentista à la James Bond em cenários, figurinos, trilha sonora, Soderbergh surpreende constantemente seu espectador ao criar múltiplos pontos de vista, mas não divididos em vários personagens, mas com a mesma personagem: o próprio Whitacre. O narrador, no gênero épico, é aquele em que o espectador confia para trazer às informações completas, aquelas que não podem ser fornecidas plenamente através das imagens e dos diálogos. No entanto, com o decorrer da narrativa, o espectador desconfia do próprio Whitacre, decompondo o protagonista clássico dos filmes de espionagem. O alvo deixa de ser aquele de quem se fala, mas quem fala. Da mesma maneira que o FBI não confia mais nas informações trazidas pela testemunha, o espectador se diverte com as reviravoltas no caso Whitacre, quando ele passa a se tornar suspeito de fraude nas informações que tem passado.

Matt Damon compõe uma protagonista à beira do desequilíbrio entre a confiança nas informações que expõe e o desespero pelas consequências que se seguirão após atravessar esse limiar, enquanto que Scott Bakula, Melanie Linskey e todo o elenco trazem à tona o equilíbrio entre a crença e a desconfiança nos depoimentos contagiantes de Whitacre. Dentro deste cenário, vemos não uma fábula sobre autoconfiança e ou um retrato amargo sobre o distúrbio bipolar, mas uma simbiose entre ambos, entre o que pode ser real ou ficcional, como atesta a cartela no início do longa: "Embora este filme seja baseado em fatos reais, alguns incidentes e personagens foram adaptados e diálogos, dramatizados. Então...". A partir dessa sentença, Soderbergh diz o aparentemente óbvio: não acredite muito no que verá adiante. Essa é a magia da tela de cinema: ter a possibilidade de suspender por algumas horas o compromisso com o real, com o fato, a possibilidade de exercer por alguns momentos o colocar-se diante de um ponto de vista. No caso, o ponto de vista de Whitacre, por mais imprevisível e até improvável que ele possa ser.

23/02/2010

Guerra ao Terror: Guerra ao Próximo?



Incrível como uma diretora consegue obter um olhar tão perspicaz sobre o universo masculino da competição, da resolução das diferenças e do ocultamento de sentimentos como afeição e perdão. Guerra ao Terror retrata com tintas escaldantes a rotina exaustiva física e psicologicamente dos soldados responsáveis pelo desarmamento de bombas abandonadas em pontos das cidades em guerra.


Tendo como protagonistas William James, responsável pelo desarmamento, e os soldados Sanborn e Eldridge, o roteiro desconstrói o universo da guerra para oferecer ao espectador um cenário para tratar sobre tolerância, diferenças, afeição, perdão como elementos essenciais de uma dinâmica do conflito: conflitos entre James e Sanborn, de Eldridge com ele mesmo, de todos contra todos. Todos somos bombas espalhadas pelo mundo, onde, mexendo nos fios errados, podemos causar estragos a nós mesmos e aos próximos. Como estes soldados conseguem resolver, mesmo violentamente, seus conflitos e nações inteiras não o fazem? Por que temos tanto temor em oferecer a outra face?


Bigelow compõe este mundo rústico e patriarcal e traz ao espectador um roteiro que supera os mais diversos clichês dos filmes de guerra: as esposas ansiosas recebem ligações angustiadas dos soldados, os ideais de honra e coragem dão lugar ao conflito e intolerância dentro do próprio pelotão. A cineasta compreende a covardia como parte daquele universo: matar James seria uma solução fácil para Sanborn ao invés de resolver seu conflito de maneira direta, assim como seria simples para o psicólogo falar a Eldridge sobre viver em guerra sem tê-lo feito um dia da sua vida. Vive-se uma guerra distante espaço e temporalmente, mas esquece-se de um conflito bem mais nocivo: com o próximo.

O Lobisomem: Sessão fraca, mas já esperada


Ao entrar na sessão para assistir o longa de Joe Johnston, já imaginava o que veria pela frente: membros estirpados, roteiro prevísivel e esburacado e e sutileza zero na mão de um diretor conhecido por seus filmes superlativos - vide Rocketeer, Jumanji e Jurassic Park III. Tendo em mãos essa "necessidade" de realizar uma nova versão de um personagem clássico do cinema, o diretor se equilibra entre fazer cinema à moda antiga e trazer às novas gerações o surgimento de uma nova franquia.

O diretor, no entanto, realiza um longa que se restringe ao rótulo de "versão 2.0" do lobisomem, ignorando possibilidades de realizar uma verdadeira transformação temática ou estética do que costumamos associar às personagens. Benico Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving esforçam-se para tornar mais atrativa a sessão, mas não conseguem realizar o milagre de transformar água em vinho, por conta de um roteiro que prefere reunir todos os clichês possíveis e imagináveis sem superá-los, fornecendo "reviravoltas" mais do que previsíveis e um final "aberto" que propõe a realização da sequência.

O Lobisomem pode render muito, mas está distante de tornar memorável o personagem que tantos outros longas inspirou anteriormente.

01/02/2010

Avatar. Tecnologia de ponta. Roteiro em P&B.


Os EUA ainda tentam curar os males do preconceito tão presentes no seu mais íntimo. Talvez seja esta uma das razões que levem à contrução de tantas obras que enfatizem a absorção da cultura estrangeira pelos norte-americanos - vide Dança com Lobos, O Último Samurai e tantos outros. James Cameron constrói, desta vez, um universo fantástico onde Jake, um soldado paraplégico, se infiltra no planeta Pandora a fim de trazer informações valiosas para exploração de recursos por uma empresa multinacional em constante expansão. Utilizando-se do avatar criado para seu irmão morto, Jake envolve-se emocionalmente com os Na'Vi, habitantes do planeta, e, mesmo sofrendo com o ofício que precisa cumprir, entrega as informações para a equipe militar, que destrói o lugar e a civilização em busca dos recursos que precisam para expandir ainda mais seu domínio comercial. Mas o envolvimento de Jake pelos Na'Vi leva-o a engendrar uma batalha contra seus próprios empregadores, na tentativa de salvar aquela civilização.

James Cameron, depois de anos de hiato, traz uma obra que, tecnologicamente, cumpre seu papel como uma revolução sem parâmetros na experiência do "ver cinema", do "experimentar o cinema", porém, em contrapartida, cria uma narrativa repleta de clichês cinematográficos que não envolvem suficientemente o espectador com um senso crítico mais apurado. Tendo para si três horas longa-metragem, o diretor não aproveita o tempo que possui para delinear melhor suas personagens, mas traz para cada um as perguntas e respostas "espertas" comuns nos seus longas, mas que pouco fazem para torná-los pessoas de verdade. A experiência cinematográfica não se restringe à uma estética visual ou sonora impecáveis, mas tudo isso está a serviço de uma história que encaminhe o espectador para o universo proposto pelo diretor. Talvez preocupado em excesso com o avançar da sua tecnologia, Cameron propõe uma narrativa ultrapassada e preguiçosa, cujas possibilidades ficam na metade quando vemos um desenvolver tão pobre de personagens - como as propostas para Giovanni Ribisi, Sigourney Weaver, Stephen Lang e Michelle Rodriguez, repletos de estereótipos - que, paradoxalmente, reforça algo que o diretor almeja dissipar: o preconceito. Mas, dessa vez, voltado para os universos da ciência, do militarismo e das grandes empresas.

Não nego, nesse momento, que tais campos não possuam as características que são apresentadas no filme, mas proponho o seguinte: será que, da mesma forma que Cameron nos propõe que enxerguemos os Na'Vi com olhos livres de julgamentos e opiniões formadas, não poderíamos fazer o mesmo com os redutos que o circundam? Será que não está tudo tão preto e branco que esquecemos dos tons de cinza?

04/01/2010

Como fugir da realidade em Dançando no Escuro?


O diretor Lars Von Trier não é afeito a meios termos, compondo quadros da Humanidade como o local onde o indivíduo se perde, sofre seus maiores infortúnios, tavez resgatando alguns dos ideais de Rousseau como ponto fundamental de sua obra - video Dogville, Os Idiotas, Anticristo e este Dançando no Escuro.

Selma é uma imigrante do Leste Europeu nos Estados Unidos e enfrenta uma realidade difícil ao trabalhar em uma fábrica para realizar a operação nos olhos de seu filho, Gene, que herdará sua doença, que a deixará cega. A fim de sobreviver emocionalmente às intempéries do mundo real, ela se refugia no universo dos musicais hollywoodianos, em que o barulho das máquinas e passos tornam-se música e dança, um deslumbre para os olhos condenados à cegueira. Partindo deste plot simples, mas contundente, Trier traça ainda mais dificuldades para Selma, que será roubada, demitida e condenada à pena de morte ao longo da projeção. A crueldade de seu desenvolver narrativo gera incômodo nos espectadores desavisados e imprevisibilidade no destino da protagonista, tornando-se cinema que surpreende e choca - não de modo gratuito, mas por uma identificação sincera do público com os dramas que todos enfrentamos ao longo da vida.

Björk entrega um trabalho díficil: tornar verossímil personagem tão ingênuo e tão cheio de mudanças na narrativa. Apesar de estar à vontade nos números musicais, a cantora também mostra competência e desprendimento nas cenas dramáticas, em especial o final, onde um movimento brusco encerra definitivamente o que era uma vida de constante sofrimento. Assim como esta, seus coadjuvantes compõem um universo real: Kathy, sua colega de trabalho; Bill, e Linda, o casal que a abriga; Gene, seu filho; Jeff, seu amigo e pretendente, e tantos outros. Mesmo que se mostrem aliados ou inimigos, todos almejam trazer Selma à realidade, tragá-la para um mundo onde as pessoas não dançam e cantam espontaneamente, onde nem sempre os finais serão felizes. É essa conclusão que surge dolorosamente ao final do longa, com o olhar lastimoso de uma carcereira diante de uma Selma padecendo seus últimos momentos.

Contudo, se sua força reside num melodrama tão extremo - a jovem inocente dizimada por um mundo que não a compreende e deseja seu mal -, como fazê-lo habitar em um universo real onde as nuances entre Bem e Mal surgem tão tênues. Apesar de nos identificarmos tão fortemente com a personalidade quase limítrofe de tão ingênua de suas protagonistas, percebe-se em Trier a necessidade de se ver de modo tão corrompido pelos outros. Talvez Von Trier deseje ardentemente se colocar no lugar de Selma: como alguém que sofreu pungentemente diante dos infortúnios provocados pela Humanidade, entidade que talvez o conforte a fim de não enxergar o mal existente dentro de si mesmo.

08/12/2009

Dos Jogos de Poder e Revolta em Entre os Muros da Escola


Como encarar a arte de contar histórias depois de uma sessão do longa Entre os Muros da Escola? Ao atravessar as dificuldades de relacionamento que alunos e professores enfrentam durante um ano letivo, pode-se dizer que as mais diversas tentativas de realizar um retrato da juventude niilista com que nos acostumamos ao longo destes cínicos e pós-modernos últimos anos encontram no filme de Laurent Cantet seu resultado mais sincero, contundente, complexo, indo além dos filmes escolares norte-americanos e dos dramas excessivamente pessimistas onde as drogas e sexualidade exacerbadas predominam.

François Marin é um professor do ensino público na França que lida constantemente com as intempéries advindas do - ou da falta de - aprendizado e relacionamento que tem com seus alunos. Até este ponto, poderíamos imaginar que se trataria de mais um Sociedade dos Poetas Mortos ou Mentes Perigosas adaptados para o novo milênio. Mas o que surge na tela nos faz esquecer completamente de ensinos otimistas a respeito da relação dentro da sala de aula: ao invés de tê-lo como herói, os alunos vêem o professor como adversário em potencial pelo simples fato de representar a ordem que tanto almejam desmistificar; assim como os professores, que digladiam consigo mesmos sobre até quando tentarão disciplinar pupilos tão indisciplinados como os que possuem? Naquelas quatro paredes, o que os une é a obrigação e as convenções e não o prazer que o Prof. Keating de Robin Williams explorava à exaustão em suas aulas espetaculares.

Neste reduto onde os jogos de poder se complexificam a cada momento, Cantet explora o ambiente com sua câmera adequada, procurando e encontrando pessoas - e não personagens. - e respeitando tudo aquilo que estas permitem mostrar diante da tela, deixando o espectador crente em todos aqueles sentimentos e motivações, pois seus atores não parecem interpretar e nos cativam para conhecê-los cada vez mais. Mesmo parecendo tão antipáticos a princípio, como não querer conhecer as razões da revolta de Souleymane e Esmeralda com o mundo ao redor, o que motiva o chinês Wey com seus estudos ou o que trouxe Rabah para dentro daquele universo francês burguês ao deixar suas raízes árabes para trás? Desfilam pela tela não estereótipos de gótico, estrangeiro, estudioso, revoltado e patricinhas, mas verdadeiros retratos de uma juventude sem perspectivas, onde suas maiores lutas se encontram dentro dos recintos que frequentam, com as pessoas com quem mais convivem.

Não existe mais um Vietnã ou uma Alemanha a que enfrentar. Nossos inimigos somos nós mesmos, a quem temos mais chance de amar e nos decepcionar. Do mesmo modo que François amava seus alunos para desejar que aprendessem mais ou que Souleymane se emocionasse sinceramente ao ver seu professor valorizando seu trabalho diante da turma, os mesmos poderiam ofender-se mutuamente em outro instante e destruir um laço tão tênue como o que haviam construído na singeleza de alguns segundos. Os momentos finais sintetizam esse jogo de conveniências e discrepâncias nos nossas relações: o que de fato está em jogo quando estamos na sala de aula? Ou num escritório? Que campo de batalha criamos quando habitamos momentaneamente dentro daquelas quatro paredes? Que papéis tão complexos estamos assumindo ou sendo obrigados a assumir?

No momento em que todos estão na quadra e se divertem com um simples jogo de futebol, todo aquele conflito anterior foi esquecido por alguns instantes, mas as cadeiras vazias e desorganizadas nos lembram que outro semestre virá, trazendo novamente estes sentimentos adormecidos por um período de férias e aquele jogo de opressão e revolta ressurgirá.

03/12/2009

Reciclando Épocas - Planeta 51


Despretensioso. Esquecível. Filme de uma piada só, Planeta 51 apóia-se na idéia de referenciar estetica e tematicamente aos filmes de ficção científica dos anos 50, mas invertendo os pontos de vista de onde a história é contada. Ao invés de extraterrestres que invadem o planeta Terra em busca de conhecimentos em viagens interplanetárias, encontramos o astronauta Chuck Baker como intruso em um planeta recheado de aliens, tornando-se ele o invasor.

A partir desta idéia inicial, desfilam pelo longa os mais diversos clichês do gênero - os generais truculentos, os garotinhos que salvam o visitante interplanetário, a paranóia da sociedade -, mas numa bagagem que busca criticar uma época. Chuck vem da Terra atual -recheada de tecnologia, iPods, dentre outras traquitanas e mostra-se claramente superior aos hábitos que os moradores daquele planeta possuem. Contudo, tanto Chuck como seu amigo alienígena Lem aprendem: tudo não passa de uma questão de ponto de vista. O que pode ser considerado diferente? O que é considerado normal? Que padrão de comportamento nos é solicitado e por quê? Quem é o estrangeiro, o estranho? O que me faz ser estranho é a minha posição dentro de uma comunidade de iguais? O que pode ser considerado monstro, desconhecido?

Pouco se aprofundam estes questionamentos no longa, levando a crer que crianças não se interessariam por tal. Pode-se questionar o por quê da raça extraterrestre ficar estagnada nos anos 50 e partindo para os 60. Por essas referências estão lá? Por que não um mundo completamente novo onde nenhuma referência com este mundo seria possível? Simplesmente por que referenciam aos filmes dos anos 50? Coisas que poderiam ser mais bem aproveitadas pelo longa, que se concentra na diversão e no bom humor. Ou seja, o longa contenta-se em permanecer sem grandes pretensões filosóficas e em ser esquecido durante as próximas 24 horas. Muito distante de suas obras inspiradoras.

27/11/2009

Ficção Para Uma Difícil Realidade: Ponte para Terabítia


Por muito tempo, relutei em assistir ao longa Ponte para Terabítia, pensando se tratar de mais um filme na esteira de universos imaginários como Terra Média, Nárnia e outros, mas, quando descobrimos boas surpresas, sempre devemos recomendá-las.

A história reside na dificíl adaptação de Jess e Leslie ao cotidiano cruel do colégio, quando precisam lidar com outros colegas agressivos e inconvenientes e com as próprias crises financeiras e emocionais que suas famílias têm vivido. Diferenciando-se da maior parte dos longas infanto-juvenis, o longa opta por aprofundar as motivações e as consequências que a recriação da realidade em Terabítia traz para seus protagonistas. Ou seja, a mitologia dos seres criados não ganha profundidade ou grandes vilões, mostrando que os maiores desafios que as crianças têm enfrentando encontram-se diante deles: na falta de atenção dos pais, nas dificuldades financeiras, na incompreensão dos colegas e professores.

Essa crueldade vivenciada pelos protagonistas leva-os a uma jornada rumo a essa válvula de escape: Terabítia, um reino imaginário onde eles conseguem enfrentar e vencer trolls, esquogros e outras criaturas fantásticas, trazendo a motivação e a auto-estima necessários para superarem as dificuldades cotidianas. A diferença entre estas crianças e aquelas que vimos em tantos outros longas sobre universos imaginários é que Jess e Leslie deliberadamente criaram aquele universo para esta finalidade e, em nenhum momento, mostra-se verdadeiro. Sempre que as crianças reconhecem a necessidade dessa fuga do cotidiano, se dirigem para esse universo - e não o universo que as resgata para uma determinada tarefa que desemboca num crescimento: quando algo as frustra no cotidiano, elas fogem inicialmente, mas, depois de enfrentar situações mais difíceis em Terabítia, ganham a confiança para combatê-los no mundo real.

Mesmo que, a princípio, Jess e Leslie pareçam bons demais para o mundo onde vivem e os outros representem em si o mal encarnado, com o desenvolver do enredo, percebe-se que tudo não passa de uma questão de ponto de vista: Janice, a grandalhona anti-social da 8a série, talvez também precise de uma Terabítia, mas para fugir do pai violento; May Belle, para se aproximar de seu irmão mais velho; os pais de Jess, para conseguir superar as dificuldades que a instabilidade financeira traz. Todos construímos pontes para nossas Terabítias: modos de esquecer o vazio, o desespero, a morte, a solidão, mas optamos por chamá-las de pintura, cinema, dança, música, teatro, escultura, como rege a metáfora que perpassa todo o longa.

A Arte nos encaminha para nossos próprios universos, onde podemos enfrentar fantasmas, demônios e armadilhas e caminhar rumo a uma vida equilibrada.

19/11/2009

O "e se..." de Bastardos Inglórios e a autoria da História


Em tempos em que a relevância do cinema se "testa" por sua verossimilhança e "aplicalibilidade" na formação de um discurso ou na forte inserção na realidade, Tarantino nos entrega uma obra ousada e cria um universo paralelo no seu Bastardos Inglórios.

Brad Pitt une-se a outros soldados judeus, formando a equipe dos Bastardos, cuja missão residia no extermínio do maior número possível de nazistas que poderiam encontrar, almejando, acima de tudo, a morte do Führer. A Operação Kino envolve a destruição dos mais famigerados nazistas em uma cinema onde será exibido um filme que exalta a figura de um herói de guerra alemão - Fredrik Zoller -, chamado "O Orgulho da Nação". Contudo, os planos mudam quando o rapaz decide levar a premiére do filme para um cinema menor, pois se encontra afeiçoado a Shosana, proprietária do local, desconhecendo sua origem judia.


Mesmo que não encontre a mesma conexão emocional que outrora o ligaria a personagens como Mia Wallace, Vicent Vega, Jules e Butch, o espectador acompanha o longa, percebendo o detalhismo de Tarantino na construção de diálogos e sequências marcantes. Contudo, somente ao final da narrativa, o público se apercebe de sua inserção em um universo paralelo quando um destino alternativo pinça a vida de Herr Hitler, fazendo com que o espectador vibre por compreender a quebra da lógica da representação. Tarantino não se preocupa com a adequação do seu filme nos livros de História ou em questionar possíveis lacunas nos autos onde se registram os fatos, mas em refazer a História à sua própria maneira. Assume o SEU próprio ponto de vista: não de como as coisas aconteceram ou acontecem, mas como PODERIAM ter acontecido se ele fosse O Criador. Numa época em que a autoria reside em expressar um modo de ver fatos e pessoas, o diretor reescreve-os a sel bel-prazer, convidando o espectador a fazê-lo. Mas também ao seu PRÓPRIO modo.

15/10/2009

Do Oculto em Felicidade


Vivemos em eterna busca pela perfeição - seja física, espiritual, emocional, profissional. Encontramos no caminho talvez nosso maior adversário: nós mesmos. No longa Felicidade, escrito e dirigido por Todd Solondz - um dos autores mais incômodos e sádicos do atual cinema norte-americano -, encontramos um elenco perfeito - destaque para Jane Adams, Philip Seymour Hoffman, Dylan Baker, Lara Flynn Boyle, Louise Lasser e Camryn Manheim - que retrata um apodrecido american way of life, mas que ainda conserva a aparência saudavel.

Ao revelar feridas tão profundas do inconsciente coletivo da população estadunidense, Solondz consegue, ao mesmo tempo, universalizá-las, fazendo com que nos identifiquemos com estas pessoas patéticas, pervertidas, mas, acima de tudo, incompreendidas. Seja na esposa que não consegue ouvir da atendente as perguntas prosaicas para preenchimento de cadastro - por ter de admitir que se mudará sem marido ou filhos, mas sozinha num quarto de condomínio - seja no psicanalista pedófilo que confessa ao filho os atos sexuais cometidos por ele em seus amigos de colégio. Os subúrbios assépticos onde residem pretendem, mas, em certos momentos, não conseguem ocultar suas inseguranças, medos, imperfeições. Nessas amplas feridas escancaradas, Solondz nos convida a sorrir de nós mesmos, mas, ao mesmo tempo, chorar por se ver naquelas situações. Sentimo-nos feios, gordos, incapazes, abusados, desviados de um propósito maior, que talvez nos orientasse por onde ir e nos limitamos a buscar a miudeza das vidinhas que aprendemos a levar a tiracolo.

No quarentão solitário que deseja a vizinha, na professora que se deixa levar pela carência, no garoto que procura seu primeiro orgasmo, na esposa irritantemente feliz... Nestes personagens, expõem-se muitas de nossas chagas emocionais, expostas como num mostruário, onde podemos rir e dizer que não somos assim, onde podemos dizer que somos perfeitos e não olhar para dentro, onde podemos seguir em frente e procurar por uma felicidade palpável e, por isso mesmo, destrutível. Escondemo-nos de nós mesmos a fim de rejeitar uma visão de quem nos conhece melhor do que qualquer outra pessoa: como nos ver tão preenchidos com atitudes e pensamentos que gostaríamos de enterrar e esquecer, mas precisar viver normalmente em casa, no trabalho, nas ruas?

Por um Sentido na Vida: Da Incapacidade de Recomeçar



Durante todo o longa de Miguel Arteta e em certo momento em particular, Justine Last vive um momento de profundo egoísmo e infelicidade: diante de uma encruzilhada entre a vida monótona e infeliz com que se acostumou e o preenchimento infinito de possibilidades que uma nova vida lhe traria, opta por trair a si mesma e permite deliberadamente que o imaturo Holden, seu amigo e amante, padeça diante dos próprios infortúnios.

Com um roteiro que harmoniza diversos sentimentos com sabedoria e conquista o espectador com o seu crescente emocional, Por um Sentido na vida nos entrega uma Jennifer Aniston que beira a perfeição ao exibir a dúvida, o patético, a paixão de sua heróina. De esposa irritada e infeliz no trabalho, Justine nos encaminha para sua jornada de adultério, mentira e chantagem, que, ao final, se mostram como mais uma história de aventura em meio ao moto perpétuo da loja de conveniências onde trabalha no setor de cosméticos.

Mesmo desejando que nossa heróina devastasse tudo o que tinha construído junto com o marido maconheiro e preguiçoso Phil em busca de um oceano de emoções que viria com sua jornada ao lado de Holden, constatamos sem réplicas que, provavelmente, tomaríamos a mesma decisão: recomeçar requer esse desprendimento de nós mesmos, necessita negar tudo o que acreditamos, ignorar tudo o que amamos e desejamos algum dia a fim de partir para esse novo mundo. Mas, como negar tudo o que fomos um dia? Como reconhecer que suas próprias escolhas nos encaminharam por um rumo de infelicidade e incompreensão?

Justine não consegue. Quem é essa heroína? Aquela que nos inspira ou que nos retrata?

13/10/2009

Insignificantemente: Sideways e o vazio do homem comum


Ao conhecer Miles e Jack, a princípio podemos pensar em dois fracassados que colhem o que semearam numa vida de passividade e desprezo pelo iminente matrimônio, respectivamente. Mas Alexander Payne, um dos maiores autores do cinema norte-americano atual, nos revela um intenso carinho com suas protagonistas - seja o aposentado Schmidt (As Confissões de Schmidt) ou o professor sem perspectiva McAllister (Eleição) -, deixando que seu carisma nos tornem empáticos até com suas atitudes mais aparentemente absurdas.

Com este longa, Payne nos faz mergulhar em uma história simples, mas que, com roteiro e elenco perfeitos, consegue nos fisgar e emocionar com as situações mais honestas que o cinema poderia nos trazer. Miles e Jack - o primeiro, um professor que fracassa na ainda emergente carreira de escritor; o segundo, ator de novelas prestes a casar que trai a noiva no decurso da viagem - trazem duas pessoas que sintetizam um perfil do homem moderno: dividido entre a insegurança e a temos ao iniciar uma nova vida.

Miles coleciona "nãos" das editoras para seu primeiro livro e ainda se sente ressentido e deprimido com o fim do primeiro casamento, refletindo sobre a possibilidade de começar de novo: em uma nova profissão, com uma nova mulher. A insegurança de entrar em um novo relacionamento sem ter a certeza de que se consumará e o sentimento de fracasso profissional permeiam o protagonista até levá-lo a consciência de que essa certeza nunca vai existir. Como lidar com a diferença entre o que projetamos e o que de fato acontece nas nossas vidas? Como juntar os cacos e seguir em frente para construir um novo vaso, com mãos calejadas e um barro desconhecido? Enquanto isso, Jack encara com pesar a iminência do casamento: a sensação de aprisionamento e distanciamento emocional o corroem, fazendo-o se envolver superficialmente com as mulheres que encontra. Temendo a exposição emocional a que estará se dispondo com o casamento e possibilidade do fracasso, isola-se em seu caverna e teme quem se aproxima, mesmo afirmando amá-lo.

Ambos são as duas faces de um mesmo homem: inseguro, passivo emocionalmente e temeroso com um iminente fracasso. Assim foi com McAllister - que fraudou a eleição para que Tracy Flick não o sobrepusesse numa carreira ascendente - e Schmidt - que impediu a todo custo o casamento da filha, desejando tê-la ainda ao seu lado. Todos com um sentimento de insignificência em meio a um novo mundo que os atropela sem deixar vestígios.

20/09/2009

Anticristo: um filme de sensações


Lars Von Trier, um sujeito sem meio-termo. Da mesma forma, seus filmes. Amar ou odiar. Sentimentos. Que aparecem tão à flor da pele, que perpassam os órgãos dos sentidos. As sensações de náusea. Algo físico. Os olhos sentem o desejo de não enxergar. O medo dos eventos posteriores transformam o longa em um conjunto de intempéries quase palpáveis de tão extremas. Mesmo que não encontre os aúreos momentos de Dogville, o cineasta consegue entregar uma obra acima da média das produções estadunidenses - ao menos no que concerne ao rótulo de fime de terror -, carregando nas tintas da tensão e no extravasar da violência com cenas fortes e explícitas.

Hermético. Intrincado. Uma sensação de vazio acompanha o espectador ansioso por uma catarse numa sessão de Anticristo, mas dificilmente o deixará incólume diante de momentos tão constrangedores e irracionais como os construídos pelo diretor. Oscilando entre cenas belíssimas e deprimentes, Von Trier arquiteta e executa um longa que, na verdade, promete mais do que cumpre, pois o diretor se mostra tão pretensioso em suas colocações que se torna maçante. em certo momento. Ao jogar atores e público diante de cenas de violência e sexualidade extremas, o autor ignora o potencial da palavra - ou sua ausência -, investindo na ação e no gesto, o que, em certos momentos, torna seu espetáculo gratuito. A profundidade do não-dito parece estar sempre à espreita, sem se desenvolver, trazendo ao espectador essa sensação de vazio, de incompletude: não necessariamente almejando um meio e um final destrinchados, mas com uma curva dramática que justifique os atos tão extremos propostos pelo cineasta.

O espectador, ao fim da sessão, talvez espere saber em que papel o autor se encontra: na mente do homem arrogante e extremamente racional ou no corpo da mulher sentimental e, aparentemente, irracional. A dúvida da investigação permanece. pois talvez seja no meio dessa luta que Von Trier deseje se encontrar: nas sensações pueris ainda ingênuas daquela criança que padece logo na primeira cena. A sensação da queda, da perda conduz o espectador a um oceano de angústia e desespero. Mas, neste universo tempestuoso, não existem soluções fáceis ou somos nós que não conseguimos encontrar o caminho? Precisamos senti-lo ou racionalizá-lo? Humanos que somos, caminharemos sempre escolhendo entre um e outro, tentando nos equilibrar diante de uma natureza que parece sempre nos pedir o contrário.