25/07/2009

Harry Potter e o Enigma do Príncipe: Sobre a Confiança e a Perda


Como restaurar um coração partido? Como entregar seu amor e dedicação? Como ver seu esforço desprezado pela indiferença alheia? Alguns dos questinamentos que perpassam as desventuras de Harry Potter e o Enigma do Príncipe - dirigido pelo mesmo David Yates do longa anterior. No desenvolvimento bem arquitetado de seus personagens, o longa se mostra sólido e coeso, aperfeiçoando o tratamento dado ao relacionamento entre Hermione e Rony, Dumbledore e Severo, Tom Ridlle e Slughorn.

Estes relacionamentos nascem e crescem baseando-se em confiança, da mesma maneira que nós mesmo iniciamos os nossos. Entregamos nossa sinceridade e desejamos esse amor de volta, multiplicado. Mas, quando ocorre a decepção, como confiar de novo? Como levantar a cabeça e perdoar, deixar-se vulnerável novamente para que outras frustrações surjam e você perceba que, sim, ele é um ser humano, e, sim, é imperfeito como qualquer outro?

Hermione precisou aprender um pouco mais sobre a indiferença de Rony, mas, no fundo, percebe que ele a ama. Só não se deu conta deste sentimento ainda. Dumbledore sofreu a máxima consequência dessa entrega e decepção, deixando para trás um rastro de remorso em Severo. E Tom Riddle e Slughorn? O primeiro ainda ameaça a todos na figura do famigerado Voldemort, mas o segundo pôde confiar uma segunda vez em um aluno prodígio como seu antagonista: Harry Potter.

Perdoar é abrir-se para um novo horizonte mesmo estando no mesmo lugar. É deixar que as decepções surjam para criar novos aprendizados e gerar atitudes mais corretas e um relacionamento mais forte.

O ensinar e o aprender em Harry Potter e a Ordem da Fênix


Quem é capaz de ensinar? E quem se propõe a estar no lugar de aprendiz? Em Harry Potter e a Ordem da Fênix, estes papéis se invertem ao mostrar Harry ocupando, sim, o lugar de seus professores na trajetória educacional de seus amigos. Do mesmo modo que o longa atesta, a educação para a vida surge de uma prática constante, relacionada com uma teoria não-castradora que eleve o ser humano para os objetivos que deseja alcançar.

Parece fácil quando se escreve, mas essa educação informal ocorre o tempo todo, basta percebê-la e estar aberto para a (re)criação. Como repensar anos e anos de formalidades e burocracias quando se percebe em poucos instantes de projeção que aprendizado não se limita às quatro paredes de uma sala de aula, mas está nas ruas, nas palavras, nos olhares, nas pessoas. Da mesma maneira que um certo roedor chamado Ratatouille nos confronta - "Qualquer um pode cozinhar" -, esse longa nos mostra que qualquer pode ensinar. Nem todos podem tê-lo como dom ou vocação, mas todos desejam esse desejo de ser responsável pelo aprendizado de outra pessoa.

Talvez seja um dos modos com que pais, professores, avós sentem que cumpriram seu papel nesse mundo: quando transmitiram aquilo que viveram para outro ser humano e ver que esse trabalho frutificou. Pode parecer tolo ou fútil, mas os momentos em que Harry Potter ensinou seus amigos foram essenciais para sua auto-confiança, para que pudesse se sentir, enfim, responsável. Mais do que aprender, muitas vezes, o ensinar nos fortalece e nos guia para nossa verdadeira vocação.

A reificação do contato por A Garota Ideal


Em determinado momento do longa de Craig Gillespie - A Garota Ideal -, Lars recebe para Bianca, sua namorada (uma boneca encomendada por um site especializado em objetos eróticos), um vaso de flores entregue por uma senhora da igreja que ele freqüenta. Sua resposta? "Essas flores não são de verdade, Bianca. Elas vão durar para sempre." Da mesma maneira, podemos nos identificar com o relacionamento ideal que tanto Lars quanto nós procuramos: um relacionamento eterno, perfeito.

Quais as garantias de se obter um contato desse tipo? Com as coisas. Elas estão imunes a sentimentos, frustrações, incompletudes. Acreditamos ser perfeito um relacionamento desse tipo: quando não precisamos nos expor para conseguir um sentimento recíproco, quando não precisamos amar para receber em troca. Os inanimados não precisam retribuir. Como pensar em relacionamentos humanos perfeitos desse modo? Impossível, digo e provavelmente todos vocês repetirão. Lars, inconscientemente, aprende a se relacionar com as pessoas, a deixar que a "vida", a participação que os objetos têm na sua vida perca força e dê espaço para os relaiconamentos de verdade. Essa perfeição que enxergamos na relação com os objetos, na verdade, é a perfeição não que desejamos encontrar nos outros, mas em nós mesmos. As pessoas ao redor de Lars, mesmo que não o mencionem, também sentem-se desse modo. Tanto que, na tentativa de aproximar o rapaz solitário de seu convívio, acolhem sua "namorada" e a fazem participar de suas atividades para que o rapaz também o faça. Com o tempo, porém, a "moça" passa a fazer parte da vida de cada um deles, tornando-se o personagem mais querido, dno de uma personalidade quase palpável de tão presente. Bianca torna-se, desse modo, uma "garota real".

Graciosos, sinceros e corajosos. É como posso classificar a construção dramática tanto do roteiro de Nancy Oliver como da interpretação de Ryan Gosling, que nos transportam para o universo de Lars e nos fazem compreender sua situação, assim como todos ao seu redor. Viver uma mentira muitas vezes é um dos modos de nos fazer enxergar a verdade. Revelamo-nos mais quando tentamos nos enganar do que quando tentamos enganar aos outros.

Como, então, amadurecer? Quando tornar-se adulto para os relacionamentos? Nunca, atesta o longa. Pois nunca esquecemos nossas meninices e imaturidades. Afinal, são elas que nos fazem seguir em frente.

18/07/2009

Duro de Matar 2 e a Sociedade do Espetáculo


Sim, também me surpreendi ao decidir escrever após a experiência de assistir Duro de Matar 2, aventura de ação do começo dos anos 90 orquestrada por Renny Harlin e protagonizada por um ascendente Bruce Willis. Mas, ao observar as referências do longa ao espetáculo perpetuado pelas imagens da mídia, não pude ignorar um paradigma da própria sociedade dos anos noventa.

Os anos 90 presenciaram mudanças significativas no âmbito midiático, que se perpetuam e se extrapolam constantemente nos idos do novo milênio: a representação através das imagens. Explico-me: desde os primórdios da Humanidade, o homem procurava, sim, criar imagens para representar, figurar aquilo que era e o que podia ver. Com o tempo, a sofisticação e a evolução das técnicas pictóricas terminou levando às diversas escolas de pintura, escultura, passando pela fotografia, chegando ao cinema e a televisão, caracterizando, assim, a explosão de um dos instrumentos de comunicação humana: a imagem.

Nessa nova sociedade em que vivemos, a imagem registra o "real" ou aquilo que acreditamos que o seja, torna-se um meio através do qual acreditamos nos fatos que vivenciamos. As imagens terminam ganhando mais expressão e espaço quando se encontram na mídia, quando os comunicadores estampam nos telejornais e revistas fotos, sons e textos contendo tais informações. Isso é o que nos leva ao longa: num momento em que as telecomunicações dominavam o meio militar e os centros tecnológicos, a população pouco conhecimento tinha sobre essas evoluções. John McClane representa essa sociedade pouco adepta das novas tecnologias, mas que precisa entrar em contato com ela para esclarecer os olhares obscuros sobre um possível atentado num aeroporto novaiorquino.

Num momento em que a Guerra do Golfo principiava uma batalha cuja presença da mídia interfere através do olhar imediato dos espectadores, tornando-se assim, uma "guerra na televisão", percebe-se o quanto essa presença transbordante das imagens influencia nosso cotidiano, nossa maneira de observar e receber a "realidade". Nesse bloco difuso de (in) definições, reina a Sociedade do Espetáculo - conhecida através do livro homônimo de Guy Debord-, em que se discute uma sociedade em que o "real" passa a ser legitimado pelo espetáculo, pelo que está registrado na mídia. Hoje, para que algo ou alguém possa ser considerado "existente", deve estar presente na rede de buscas Google, ter alguma imagem no MySpace, possuir um video no Youtube.

No longa, questionava-se o papel dessa mídia intrusiva, que ora auxilia o herói na sua empreitada ora atrapalha o desenrolar dos fatos. Imagine a criticidade do subtexto do filme num mundo globalizado e digitalizado como esse novo milênio, onde cada fato vulgar da vida de qualquer pessoa já é pensado para ir direto para a rede. Vivemos numa sociedade permeada pelas imagens, sim. Nesse instante, desumanizamo-nos para aderir a uma imagem, a um perfil imagético que, abstratamente, diz tudo o que é preciso saber sobre nossa personalidade.

A mídia de grande circulação pode ter sido a maior vilã dos anos 80 e 90 nos discursos contra essa sociedade do espetáculo, mas creio que, nesses novos tempos, encontramos essa "vilania" em nós memsos. Desejamos tanto ser aceitos por essa sociedade que nos submetemos a essa auto-representação através da mídia, ao invés de perceber a beleza e o poder de uma boa conversa tête-a-tête.

13/07/2009

Razão X Emoção. Quem vê o caminho do meio? O Equilibrista.


Toda a vida, somos guiados por duas retas - podemos chamá-las RAZÃO e EMOÇÃO - que na maior parte do tempo, podem ser paralelas ou confluir para um mesmo ponto, mas também se dissociar por estradas totalmente díspares. Mas o que fazer quando o desejo toma o sono, fazendo da nossa existência mero motivo para o cumprimento dessa ânsia?

Phillipe Petit, protagonista do documentário O Equilibrista, parece deixar que sua impulsividade o (des) controle. Mas não. O que o artista possui não é um desejo louco e impulsivo, mas uma meta pela qual ele batalhou arduamente, com racionalidade e (perdão pelo trocadilho) equilíbrio: atravessar as Torres Gêmeas por um fio. Com a ajuda de seus companheiros, ele possuía esse sonho desde quando soube da idéia de se construir as torres. Passou por outros monumentos - a Notre Dame, entre eles -, mas não se dava por satisfeito. Morando nos EUA, convocou seus amigos para o ajudarem na empreitada, trabalhando clandestinamente para montar os equipamentos.

Depois de anos de trabalho, finalmente o cumpriu. Atravessou as torres. Algo que as pessoas estranham, pois não há razão para fazê-lo. Não se passa nenhuma mensagem mais direta com essa intervenção. A não ser a nossa união pela vida de alguém. Talvez não exista algo que nos una mais que esse importar-se com a vida alheia. Ver Phillipe enfrentando perigos para cumprir seu objetivo emociona as pessoas, pois todos nós temos objetivos sonhos a realizar. E nos felicitamos quando alguém se supera, pois isso nos inspira a seguir em frente.

Por trás da aparente loucura do equilibrista, há tanto sentimento quanto racionalidade, mas ainda assim, seu objetivo se cumpriu: emocionar seus espectadores, fazer com que se importassem com sua vida e, de certa forma, com suas próprias.

Meu Tio e a busca pela perfeição


Ao ver o famigerado longa de Jacques Tati, Meu Tio, percebe-se um clima de nostalgia e um retorno pela infância e pela pureza, não somente das pessoas, mas de um cinema jovem, que ainda teria tanto a dizer. Com fortes referências ao cinema mudo, aos quadrinhos, Tati constrói um longa que mostra um tempo diferente do nosso, mas que se mostra ainda atual e inteligente nas suas críticas à sociedade. Dando início ao filme, encontram-se, nas ruas sujas da França, cachorros revirando latas de lixo. Um deles chama a atenção: está vestido! Logo depois, vemos que volta para a casa dos donos: cheia de bugigangas eletrônicas e pouco práticas, a residência pretende cercar seus moradores com o máximo que pode oferecer.

A partir desse ponto, vemos a relação que Sr Hulot e seu sobrinho estabelecem entre si - amizade e companheirismo - e com a casa - rejeição e incômodo. Mas por quê? As facilidades do mundo moderno não são uma evolução? Depende do modo como o utilizamos. As pais do menino se apóiam neles e fazem destes a razão de suas vidas, relegando à própria família um lugar secundário. Por isso, o menino sente-se mais à vontade com Sr Hulot: um outsider ao seu modo. Ele não se encaixa nos padrões pragmáticos da sociedade, portanto, se torna um excluído. Ou seja, lixo, excesso.

O aspecto clean e hermético da casa ajusta as relações falsas e superficiais que as pessoas estabelecem naquele lugar, como os vizinhos e amigos da família, que, mesmo em meio a uma festa, não enxergam nada além de si mesmos. Tanto que não percebem as trapalhadas de Sr Hulot e o menino para lidar com algumas traquitanas da casa. É perceptível o cuidado com que Hulot compõe suas sequências: na maior parte das cenas, vê-se um amontoado de lixo que nunca é varrido, causando um incômodo - pelo menos, em mim - para que aquela sujeira fosse retirada. A partir dessa sensação, reflito: como aceito os outsiders da sociedade e não aceio essa sujeira, esse pequeno incômodo na tela?

Essa nossa busca pela perfeição é eterna e no move. A maturidade, no entanto, se encontra em perceber a evolução nos processos e não simplesmente os resultados. Viver na utopia de habitar em um ambiente distante das imperfeições do mundo externo só nos ilude e nos isola do conato com o outro. Como atesta o final do longa, é inevitável que as coisas mudem, mas evoluir está no benefício que estas mudanças trazem para si e para as outras pessoas. Seja na relação que a criança finalmente estabelece com seu pai. Seja na mudança na vida de Sr Hulot. Aquilo que não muda é por que não existe mais.

Obs.: Essa relação com lixo, a busca pela perfeição e pela segurança, até a forma como o herói da história é construída, além da estética herdada do cinema mudo, lembra bastante Wall-E, longa de animação da Pixar.

06/07/2009

A festa da menina morta e seus tênues limiares


Imagens. Falam mais do que palavras. Com esse clichê, pode-se explicar muito da sensação de se conferir o longa de estréia de Matheus Nachtergaele - A Festa da Menina Morta: um filme que não mexe necessariamente com o coração, mas com nossas expectativas, com o que nosso raciocínio procura enquadrar e classificar

Nachtergaele mostra-se um diretor habilidoso na construção dos enquadramentos e no tempo que permite que apareçam, mas peca por momentos excessivamente teatrais e por contrastes tão gritantes na edição que mexem com a fluência da narrativa. Um mecanismo interessante - que remete muito à própria esfera de paradoxo do longa -, mas que cansa quando utilizado em excesso.Mesmo com alguns problemas típicos de principiante, o longa desconforta, perturba, pois muitos são os elementos obscuros e truncados no roteiro.

Há muito implícito nas relações entre Santinho, suas "criadas", seu pai, Tadeu. Esses nós, em nenhum momento se desvelam, o que, a uma primeira vista, incomoda, sim. Mas a atuação hipnótica de Daniel de Oliveira faz com que isso flua contundentemente, quase palpável na tela. Talvz seja essa indefinição de identidade que incomode tanto a ele e a nós: a indefinição "santidade" e paganismo, entre masculino e feminino, entre verdade e mentira, entre amor e desrespeito. Santinho caminha nesse limiar incômodo: suas explosões vêm repentinamente e pelos motivos mais triviais, pulando para o insano quando menos se espera. Como nós, muitas vezes.

04/07/2009

O "Eu estou aqui" universal de A Cor Púrpura


É difícil se manter estagnado diante das intempéries que Miss Celie sofre ao longo do longa de Spielberg: A Cor Púrpura é um drama universal. Sentimos na pele esse sentimento de rejeição do mundo, o precisar enfrentar os bombardeios de pessoas que não nos amam. Os negros e as mulheres padeceram da falta de respeito por muito tempo na História.

Aprenderam, sim, a gritar por seus direitos e dizer: "Eu estou aqui". E, sim parece muito difícil gritar por si mesmo, quando todos o outro parece ser tão forte e tão convicto, mas o primeiro passo deve surgir. Ninguém pode lhe negar esse direito. Por mais que queiram lhe negar o direito de dizer e/ou fazer algo por você mesmo, nada lhe pode impedir essa auto-afirmação. Muitas vezes o que parece ser a maior força, esconde a maior fraqueza. Albert oprime Celie por querer se enganar, pra que ela não se sinta importante e o abandone. Quando ela finalmente se liberta de si mesma e dele, vemos sua beleza finalmente explodir, enquanto que ele permanece na sua insignificância. Sem os invencionismos estéticos típicos dos filmes atuais, Spielberg se mostra um excelente narrador, ainda que investa em um grane maniqueísmo. Mesmo com 2h30, o longa passa rapidamente diante dos olhos do espectador, tamanho o envolvimento que o diretor permite com sua protagonista. Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey, Margaret Avery e Akosua Busia se revelam como verdadeiras donas de suas personagens, enfretando com um misto de fúria e sensibilidade as intempéries de suas jornadas.

Traçando um paraleto com a obra teatral Cuida Bem de Mim e os longas O Piano, Meu pé esquerdo, Quanto vale ou é por quilo?, Madame Satã, O Senhor dos Anéis, Matrix e tantos outros, todos os seus heróis gritam desesperadamente, "Eu estou aqui!". Assim como Spielberg procurou ser visto: distante dos blockbusters, um diretor de respeito. E conseguiu.


Já havia visto o longa há alguns anos, mas, revendo-o, pude ter uma nova experiência como espectador: mais maduro e mais dono de meus caminhos, algo que, com certeza, foi contribuição de Miss Celie.

13/06/2009

O Grande Truque & a Arte: Sacrifício ou Autodestruição?


Ganância + Poder = Masculinidade. Durante muito tempo, essa operação funcionou para trazer ao sistema patriarcal a predominância na sociedade, relegando aos outros a submissão diante dessa desigualdade. Na sociedade que conhecemos hoje, o homem consegue perceber a importância de outras camadas da sociedade, mas a competição ainda faz parte do seu instinto natural.

No longa de Christopher Nolan, uma amizade dá lugar à rivalidade quando a arte do ilusionismo está em jogo e os segredos de sua perfeição se tornam mais importantes que os processos de sua criação. Versando sobre o comércio da arte perpetuado por esse instinto competitivo masculino, O Grande Truque passa de uma premissa simples para um estudo audacioso sobre ganância e vaidade através dos habilidosos roteiro e direção de Nolan - direcionando o espectador com seus complexos flashbacks dentro de flashbacks e suas idas e vindas do tempo, assim como evitando um maniqueísmo barato que aprofunda as personalidades de seus protagonistas e faz com que questionemos as atitudes de ambos.

É possível que deixemos nossas concorrências diárias nos levem a cometer atos muitas vezes tão questionáveis? Para os dois mágicos, o ilusionismo provavelmente já havia perdido o seu encanto cotidiano da criação, mas havia virado um jogo onde a destruição do outro se tornara o ideal, o que terminou a destruir a vida de ambos. Num mundo que viu Van Gogh cortar sua orelha, Cacilda Becker morrer encenando Beckett, a dedicação e sacrifício que ambos faziam por sua Arte não encontra seu sentido no amor a ela, mas por sua obsessão em ser o melhor.

24/05/2009

Cão Sem Dono: Um Elogio à Simplicidade


Existe muito sentimento nas entrelinhas do longa de Beto Brant e Renato Ciasca. Existe uma conquista do espectador, uma sensação de voyeurismo consentido, como se fôssemos convidados a estar ali e presenciar o cotidiano de alguém. No caso, Ciro, o nosso cão sem dono.

Protagonista sem pretensões maiores do que sobreviver e ter uma vida feliz ao lado de sua amada Marcela, nos identificamos facilmente com sua condição de homem sem direção, que pouco sabe o que fazer com seu diploma na mão, mas sem perpespectiva de emprego. As frustrações daquilo que se espera de um homem - a responsabilidade, a autonomia, a iniciativa - se encontram na vida de Ciro, que, mesmo se definindo como um realista, não toma ares para encontrar um rumo para sua vida, ao contrário de Marcela, que, mesmo sendo a "sonhadora", não desiste de batalhar por aquilo que deseja.

Difícil enxergar como um roteiro tão pessoal encontrou a luz do dia em maos tão habilidosas, já que, cercado de frases e situações prosaicas e que parecem não levar a lugar nenhum, exigem de seu público uma intensa sensibilidade para enxergar o que há por trás de sua simplicidade. Nessa confiança de que o público compreenderá a jornada de Ciro reside a grande intensidade de Cão Sem Dono: seu jogo com o espectador é constante, pois lhe entrega algo que é seu, situações que poderiam acontecer na vida de qualquer pessoa, bastando ter olhos abertos para percebê-lo.

As referências ao cinema europeu mais recente não transparecem de maneira pretensiosa e dão ao público um retrato sensível da juventude sem rumo, não por revolta ou desejo, mas por não se conseguir se enxergar diante da vida e da sociedade. Sujeitos levados pelos fluxos de papéis que precisamos assumir - marido, filho, estudante, professor etc - à procura de uma identidade.

27/04/2009

Os conflitos do pragmatismo em TheLastNote.com


O cinema pernambucano encontra em Leo Falcão um exemplar diferenciado de representação da identidade nordestina, traduzido de maneira interessante em thelastnote.com, curta-metragem realizado em 2003 que conta com as atuações de Gustavo Falcão e Lázaro Ramos. Com roteiro do próprio Falcão, foi premiado no Cine PE pela trilha sonora assinada por DJ Dolores.

Centrado na história de Collodi, usuário de um site especializado em suicídios, e Lázaro, o criador e funcionário do site, o curta TheLastNote.com tece uma crítica universal sobre a desumanização da sociedade ante a maquinaria digital, que oferece todos os serviços que um indivíduo pode imaginar, ignorando as conseqüências morais e éticas de suas ações. Trazendo à tona o cinismo típico dos anos 90, Falcão traz questionamentos feitos por um homem que resida em Pernambuco, na Europa ou no Japão, o que torna sua obra perfeitamente compreensível e passível de identificação em qualquer destes lugares, o que o destaca da maioria dos cineastas pernambucanos. Enquanto a maioria destes opta por localizar e trazer o povo pernambucano em sua essência mais explícita e óbvia, Falcão a dilui, aderindo a um cinema que se espelha na estética hollywoodiana. Essa perda da identidade pernambucana devido aos meios globalizantes de comunicação se transpõe para a realidade fílmica por meio de uma “crise na representação” - que está diretamente ligada à destruição dos referenciais que, durante a Modernidade, norteavam a criação e análise de obras de arte.

A globalização e o individualismo inerentes ao mundo pós-moderno são inspiração clara para o conteúdo e a forma do curta. Ambos os personagens representam os dois lados conflituosos tanto da mente humana como da sociedade: RAZÃO X EMOÇÃO. Lázaro se adequa à sociedade que o construiu: impessoal, pragmática, homem que busca a competência na maneira de cumprir suas obrigações antes da realização pessoal; ao contrário de Collodi, que representa o que ainda resta de humanidade nesta outra face da moeda: inseguro, indeciso, humano. O clímax deste conflito se estende no telhado de Collodi, onde ele ainda pretende fazer parte da vida das pessoas mesmo que precise morrer para isso. Ele tem a pretensão – ao mesmo tempo egoísta e altruísta – de mudar a percepção das pessoas sobre a vida e a morte.

O filme encerra, de maneira irônica, a jornada de Collodi e Lázaro, levando a crer que questões existenciais como vida e morte não encontram mais o mesmo espaço que tinham na Modernidade. A realidade além das duas protagonistas não ganha grandes mudanças após sua morte, da mesma maneira com o espectador, que apenas acompanha o início de tudo: o anúncio do site proposto por Lázaro.

Mas será que o caráter múltiplo, policultural e hiperinformacional da pós-Modernidade influenciaram de maneira positiva o cinema de Falcão ao observarmos que ele eleva o perfil do pernambucano e o torna universal? Ou é possível também verificar nesta maneira de representação um meio de apagar os rastros de identidade do pernambucano nesta idealização desfocada no tempo, espaço, ação e personagens? Ambas as resoluções têm pontos positivos e negativos, mas para Pernambuco creio ser mais válido um cinema que possa espelhar o povo que produz e reproduz essa cultura e não está ligado às formas homogêneas de realizar cinema no exterior ou no próprio Brasil. Afinal, como atestam os pós-modernistas, “todos os discursos são válidos”.

Obs.: Resenha escrita para a disciplina de Cultura Nordestina - Cinema Pernambucano - 2007.2, ministrada pela mestranda Amanda Mansur.

18/04/2009

Os silêncios de King Kong


Amor. Que limites ele poderia transgredir? Da classe? Da idade? Da raça? Do gênero? Na aventura romântico-fantástica King Kong, Peter Jackson o faz ultrapassar a barreira da própria espécie, trazendo a afeição de uma mulher por um primata gigante.

Em viagem a uma ilha que guarda os mistérios da civilização humana e mantém criaturas como dinossauros e insetos gigantes, Jack Driscoll, Ann Darrow e Carl Denham planejam montar um longa-metragem de aventura, tendo como vilão o gorila de sete metros de altura. Inicialmente temerosa pela perigo que corre - principalmente, por ser utilizada como oferenda em sacrifício ao Kong pelos nativos da ilha -, Darrow, surpreendendo a si mesma, se afeiçoa ao cultuado animal. Aprende a enxergar por trás da aparência grotesca e de sua selvageria, percebendo como a mente daquela criatura funciona e permitindo ser cativada por suas risadas e trapalhadas.

Jackson constrói suas protagonistas com cuidado, deixando que o espectador se identifique com eles e preencha os silêncios de suas vozes com pensamentos que nós mesmos teríamos diante daquela situação. Enxergar pelos olhos e atitudes de Kong possibilitam um esvaziar-se de si mesmo e revelam atitudes que palavra nenhuma poderia definir e, por consequência, limitar. Seus silêncios o tornam mais racional e humano que muitos homo sapiens que acreditam ser o centro do universo. Sua morte, dolorosa para quem a acompanhou e se sentiu cativado pela presença de espírito daquele primata.

Ps.: Já tinha visto esse filme antes, mas, revendo, me deu uma grande vontade de escrever sobre ele.

Valorizando os sacrifícios em As Bicicletas de Belleville


Todo herói realiza sacrifícios para o cumprimento de sua jornada. Mas poucos são os heróis cuja realização está no bem-estar do outro, negando, muitas vezes, a própria existência em prol da felicidade do outro.

Madame Souza, nossa heroína em As Bicicletas de Belleville, cumpre esse papel com louvor, entregando o sentido de sua vida na felicidade de seu neto Champion. Inicialmente um garoto melancólico e infeliz - que mal percebe a existência de sua avó -, Champion encontra sua realização numa bicicleta dada por Souza. Desde então, ela vem ajudando o garoto a se tornar o campeão da Tour de France, acompanhando-o nas corridas diárias, cuidando de sua saúde. As dificuldades começam quando ele é sequestrado por mafiosos, que montam um esquema de apostas clandestinas que exploram o desejo de outros ciclistas como ele.

O diretor Sylvain Chomet constrói uma fábula que critica a obsessão capitalista que leva à criminalidade em favor do amor maternal que essa avó mantém por esse ente querido. Levando em consideração os elementos de que ele se utiliza para essa construção (narrativos, imagéticos e sonoros), pode-se ainda inferir que sua crítica resvala exatamente nos Estados Unidos - de onde vem a influência da máfia, da trilha sonora noir que os caracteriza, além da invasão capitalista que promovem.

Mesmo com todos esses elementos confluindo para que sua idéia torne-se clara para o espectador, Chomet ainda dá espaço para a emoção surgir subliminarmente: ao final do longa, aquele garoto melancólico que talvez nem percebesse a existência de sua avó, finalmente lhe dá ouvidos, respondendo com carinho uma de suas perguntas. Quantos sacrifícios nossos pais já fizeram? E quanto ainda viveremos esquecendo tudo isso?

13/04/2009

A decadência da Modernidade em Todos os Homens do Presidente


Num escândalo como o ocorrido no arrombamento da sede do partido democrata pelo então presidente estadunidense Richard Nixon, o interesse por diversas versões de uma história torna-se incessante e até cansativo. Mas, diante da emergência daquela situação no campo jornalístico investigativo, Carl Bernstein e Bob Woodward - protagonistas de Todos os Homens do Presidente - não pestanejaram na busca pela verdade neste intrincado jogo de interesses políticos.

Nessa produção, o ponto de vista dos dois repórteres surge como principal motivo de interesse para o longa. Alan J. Pakula não conduz seu longa como uma verdade impessoal e absoluta, mas nessa impossibilidade perante um ideário em que os objetivos da Modernidade se apresentam desiludidos. Enxergamos a história do Watergate pelo "nosso" ponto de vista, de pessoas comuns que desejam se esclarecer a respeito da vida política e exercê-la com autoridade, investigando e perguntando às pessoas que participaram do referido evento.

Diante dessa decadência da Modernidade, a busca por uma razão una e absoluta não faz parte do cotidiano pós-moderno dos indivíduos. Essa foi a versão de Woodward e Bernstein. Qual seria a de Nixon? Resta a outros autores a identificação com esse ponto de vista.

11/04/2009

A (des)esperança em Edifício Master


Há uma galeria de pessoas em Edifício Master. Não enxergamos tipos, mas pessoas de verdade. Atuando diante da câmera, é verdade. Mas que, ao nos demonstrar suas personagens, revelam muito mais sobre si mesmas do que poderiam imaginar.

As partes que compõem esse edifício surgem tranquilas, enérgicas, nostálgicas, esperançosas. Em meio a reminiscências de um passado que não retorna ou um desprezo pelo passado do próprio lugar onde residem, encontramos somente uma face da esperança. O último depoimento do longa nos mostra a vida uma garota que se mudou há pouco tempo para o prédio e, por mais que fale sobre as dificuldades de se aprender a morar só, demonstra mais alegria e satisfação do que muitos que procuram escancará-la com atitudes espevitadas ou sorrisos em excesso.

Será que aquela garota perderá esse rosto que deseja os anos todos que ainda tem pela frente? Talvez, com o tempo, apareça nela a fisionomia dos outros: do cansaço, da solidão, da morte que se aproxima em contagem regressiva, junto com a decadência da ilusão de que um dia seriam felizes. Ver Edifício Master em retrospecto, remontando-o na ordem inversa, traz essa sensação de que há uma angústia que o ronda. Seria esse mesmo o nosso destino? Ou podemos lutar contra essa desesperança com uma dose de ingenuidade e otimismo?