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02/03/2011

A decadência da identidade - O Mágico


O ser humano, desde seu nascimento, carrega dentro de si o potencial para construir qualquer identidade, podendo ser cientista, artista, estudioso etc, assumindo caracteres que lhe aproximam de determinadas categorias e outras que lhe particularizam dentro das mesmas. Mas, em certos momentos, desejamos manter certas identidades que , por mais que nos encantem, não conseguem ou conseguirão comungar com as experiências das outras pessoas na sociedade.

Essa é a linha mestra do longa de animação O Mágico (L'Illusionniste, 2010), dirigido por Sylvain Chomet - de As Bicicletas de Belleville (Les Triplets Du Belleville, 2003) - a partir de um roteiro de Jacques Tati, que conta a história de um mágico que entra em decadência por não conseguir mais se encaixar no cotidiano de uma grande cidade. Como o público diminui cada vez mais devido à preferência por atrações mais jovens e populares, ele tem menos oportunidades de trabalho e precisa viajar para se manter. Numa destas viagens, rumo à Escócia, ele conhece uma garota, a quem presenteia com um par de sapatos e que decide seguir com ele.

Interessante como Chomet trabalha com a persona de Tati para compor o protagonista, mas, ao invés de utilizar da inadequação como um meio de extrair risadas, ele a utiliza de forma melancólica, extraindo sua poesia de pequenos momentos em que vemos a energia criativa surgir num cotidiano cercado de concreto e barulho. Com traços leves e contornos humanos, além de um sépia constante que ressalta a sensação de deslocamento temporal. Contudo, em seu final pessimista, mas ao mesmo tempo poético, Chomet chama atenção para nossa necessidade de sempre escolher o caminho da realidade, que, mesmo não sendo o caminho mais agradável, ao menos é aquele que nos encaminha para uma realização mais sólida da nossa identidade. Talvez a resposta não esteja na total negação do sonho, naquilo que desejamos para nós mesmos, mas nas possibilidades que, paradoxalmente, uma limitação pode nos fazer enxergar.

18/04/2009

Valorizando os sacrifícios em As Bicicletas de Belleville


Todo herói realiza sacrifícios para o cumprimento de sua jornada. Mas poucos são os heróis cuja realização está no bem-estar do outro, negando, muitas vezes, a própria existência em prol da felicidade do outro.

Madame Souza, nossa heroína em As Bicicletas de Belleville, cumpre esse papel com louvor, entregando o sentido de sua vida na felicidade de seu neto Champion. Inicialmente um garoto melancólico e infeliz - que mal percebe a existência de sua avó -, Champion encontra sua realização numa bicicleta dada por Souza. Desde então, ela vem ajudando o garoto a se tornar o campeão da Tour de France, acompanhando-o nas corridas diárias, cuidando de sua saúde. As dificuldades começam quando ele é sequestrado por mafiosos, que montam um esquema de apostas clandestinas que exploram o desejo de outros ciclistas como ele.

O diretor Sylvain Chomet constrói uma fábula que critica a obsessão capitalista que leva à criminalidade em favor do amor maternal que essa avó mantém por esse ente querido. Levando em consideração os elementos de que ele se utiliza para essa construção (narrativos, imagéticos e sonoros), pode-se ainda inferir que sua crítica resvala exatamente nos Estados Unidos - de onde vem a influência da máfia, da trilha sonora noir que os caracteriza, além da invasão capitalista que promovem.

Mesmo com todos esses elementos confluindo para que sua idéia torne-se clara para o espectador, Chomet ainda dá espaço para a emoção surgir subliminarmente: ao final do longa, aquele garoto melancólico que talvez nem percebesse a existência de sua avó, finalmente lhe dá ouvidos, respondendo com carinho uma de suas perguntas. Quantos sacrifícios nossos pais já fizeram? E quanto ainda viveremos esquecendo tudo isso?