12/11/2010

Janela Crítica - 12.11 - Abertura


Uma noite de celebração ao cinema, à arte, à humanidade. Assim se pode sintetizar a abertura da III Janela Internacional de Cinema, que nos trouxe curtas-metragens e um longa que fazem o espectador repensar-se como artista... de uma câmera na mão.

O primeiro curta-metragem – Avós (Michael Wahrmann, 2009) – trata-se de um olhar carinhoso e nostálgico tanto sobre uma época, um cotidiano que não se vive mais como sobre o próprio cinema e sua capacidade de nos permitir olhar para nós mesmos e nos preservar, oferecer a possibilidade de ser um pouco eterno. O segundo curta – Big Bang Big Boom (Blu, 2010) – propõe uma reflexão dos fatos e conseqüências que cercam a evolução. Utilizando diversos objetos cotidianos e mesclando técnicas diferentes de animação – desenho 2D, stop motion –, o diretor nos oferece uma visão ampla do que pode-se chamar desenvolvimento: um progresso não somente da humanidade, mas também da própria arte. Se, de início, o espectador pode se maravilhar com as infinitas possibilidades de expressão que a animação/tecnologia proporciona, ao final do curta, permanece um questionamento: “A que preço temos evoluído?”.

No longa-metragem da noite – Além da Estrada (Charly Braun, 2010) -, descobre-se um contador de histórias apaixonado por suas personagens, que almeja vasculhar cada movimento seu, a fim capturar seus instantes mais verdadeiros. Seguindo seus protagonistas, Santiago e Juliette, ao longo da estrada e do romance que se inicia entre eles, Braun propõe uma experiência cinematográfica que conhece seu ponto de partida, mas caminha rumo ao desconhecido, ao inesperado do mundo real. Se o público reconhece o enredo das comédias românticas hollywoodianas desde o princípio, é porque é desse elemento humano que elas se valem para construir tramas que ressoam clichês e situações que não estão vivas dentro de nós. No entanto, Braun propõe ao espectador um painel sincero e singelo de personagens que redescobrem sua humanidade ao decidir escolher um caminho espontâneo e imprevisível para suas vidas. O canto do coração, como atesta uma das personagens. A estrada do próprio coração.

11/11/2010

Autodestruição e Violência Prosaica: The Big Shave


Desde o título, The Big Shave (Martin Scorsese, 1967) mostra-se um curta superlativo, que mal consegue se conter em seus seis minutos de duração, permanecendo por tempos após a projeção, revelando, desde cedo, o cineasta que nos entregaria obras como Cassino (1995) e Alice Doesn't Live Here Anymore (1974).

Aparentemente versando sobre o banal ato de se barbear, o curta revela um dos temas que se encontrarão posteriormente na filmografia scorsesiana: o temor/anseio de autodestruição de seus protagonistas em meio a um mundo de violência prosaica e cotidiana. Close-ups extremos de um banheiro asséptico denotam um olhar diferenciado sobre aquele espaço, que, através de seu herói pouco convencional, será palco do incômodo do inesperado: o homem começa a mutilar seu próprio rosto com uma navalha, deixando o sangue deslizar pela sua face inexpressiva e sobre a porcelana branca da pia límpida. Cortes abruptos e uma trilha sonora desconcertante pontuam a violência inconseqüente e gráfica que o homem infringe sobre si mesmo com sua expressão tranqüila, restando ao espectador a incompreensão e a impotência diante do que acabou de presenciar. Amar ou odiar parecem verbos irrelevantes em uma experiência cinematográfica tão particular, mesmo que este espécime pareça ter se desgastado após tantos anos de evolução e sofisticação do happening cinematográfico.

Assim como Henry Hill (The Godfellas, 1990), Howard Hughes (The Aviator, 2004), Travis Brickle (Taxi Driver, 1976) e tantos outros ícones da cinematografia de Scorsese, nosso protagonista caminha inconscientemente rumo a sua autodestruição, à quebra da lógica, do contínuo. Sua indolor trajetória reflete-se, paradoxalmente, em nossa angústia diante do que é visto, pela identificação imediata com o receio/desejo de interromper nossa letargia cotidiana, oculta em vicissitudes diárias que, se aparentemente nada revelam sobre nós, tornam-se refúgio do nosso inconsciente, de nossa humanidade.

27/09/2010

Boogie Nights: Uma Família de Desiludidos e Alienados


Ao ver e sentir o cinema de Paul Thomas Anderson de uma maneira geral, encontramos um painel humano da alienação cotidiana, da ilusão de se enxergar diferente dos outros, distanciado da sociedade, seja em Magnólia (Magnolia, 1999), Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002) ou em Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007).

Quando pensamos no seu primeiro filme mainstream - ainda não vi Jogada de Risco (Sydney / Hard Eight, 1996) -, no caso de Boogie Nights (Boogie Nights, 1997), podemos reconhecer um cineasta nato, que usa e abusa da linguagem cinematográfica de maneira dinâmica para contar sua história: durante as décadas de 70 e 80, Eddie Adams, um jovem de 17 anos, trabalha num clube noturno frequentado pelo submundo de Los Angeles, dentre eles, Jack Horner, um diretor de filmes pornográficos. Numa dessas noites, o cineasta, ao ver o rapaz, convida-o para participar de sua equipe de produção, pois percebe nele um grande potencial. A princípio desconfiado com a proposta, Eddie, depois de uma briga com sua mãe, sai de casa e procura abrigo com seu novo empregador, através do qual conhece um mundo onde sexo, drogas e riqueza chamam logo sua atenção.

Sua ascensão, queda e renascimento são o foco do cineasta, que, a partir de seu protagonista, abre a passarela para o desfile de diversos personagens cativantes e extremamente humanos:
Amber Waves, estrela dos filmes de Horner e mãe que enfrenta um processo pela guarda do filho; Rollergirl, estudante que deixa os estudos para seguir a carreira de atriz pornô; Buck Swope, ator e vendedor que sonha em montar uma loja de eletrônicos; Little Bill, iluminador que ama uma mulher queo trai literalmente diante de todos; Reed Rothchild, ator que, a princípio desdenhoso com o novo astro Dirk Diggler, se aproveita dele para se manter na mídia; Maurice Rodriguez, dono de um clube noturno que almeja a "fama" de se tornar um ator pornô, mesmo não atendendo aos padrões de beleza necessários para tal; e Scotty, responsável pelo som do filme e que está apaixonado por Diggler. Uma galeria de pessoas à margem do cinema hollywoodiano, mas humanos acima de tudo.

Anderson foca não só na trajetória de Adams - que adere a um novo nome: Dirk Diggler -, mas, com seu roteiro, câmera e edição dinâmicos, consegue se misturar àquele meio de ilusão e fama, onde, aos poucos, todos começam a se revelar. com essa descrição, o cinema de PT Anderson poderia soar moralista, mas o desenvolver de seu elenco confere grande humanidade a cada uma das personagens que passeiam pelas lentes do cineasta. Enquanto todos se enredam cada vez mais nessa teia de prazeres revolucionários de uma década de desbunde, sua humanidade e fraternidade emergem quando enxergamos naquele estúdio um pai, uma mãe, um filho, uma filha e tantos outros membros que ora se amam, ora se desentendem.

Todos necessitamos de uma família, onde quer que estejamos. Esta família que Jack Horner construiu está repleta de viciados e traficantes que trabalham em empregos diurnos e sonham com uma vida diferente, mães e filhas que transam diante de câmeras, diretores e produtores de pornôs que se iludem com a esperança de estar fazendo arte e entretenimento. Semelhante a Eddie Adams e sua crença de que "cada um tem um dom especial", agarramo-nos a nós mesmos e nossa capacidade de realizar qualquer coisa que somente nós mesmos poderíamos fazer.. de ser únicos.

24/07/2010

Um Cinema da Mente - A Origem


Revisitando e aprofundando o tema da mente humana, como em seus longas anteriores, Christopher Nolan equilibra entretenimento e profundidade num dos maiores sucessos de público e crítica do ano: A Origem.

Se em seu início de carreira, Amnésia utilizava-se da condição médica de seu protagonista, Leonard (Guy Pearce) e de um roteiro com referências ao gênero noir na sequência inversa para destrinchar os meandros de uma mente inconsequente e pouco confiável, O Grande Truque revela um cineasta pleno em sua arte ao propor um painel sobre a criação artística e sua relação com a identidade, empregando uma estrutura complexa de flashbacks dentro de flashbacks, vemos como a grande aceitação através do sucesso de público de Batman não consegue alterar o conceito de seu cinema. Tanto em Batman Begins como em The Dark Knight, Nolan utiliza-se de material pré-existente para conceber um universo realista e soturno onde o heroísmo e a vilania caminham lado a lado, onde racional e irracional são fronteiras voláteis, um terreno onde a mente humana caminha livre ou temerosamente.

Em sua obra-prima, Nolan utiliza de todos os elementos que o consagraram para expandir os limites do cinema ao contar uma história como nunca se viu antes: Dom Cobb é um experiente ladrão, capaz de penetrar no íntimo e infinito universo dos sonhos e, assim, roubar valiosos segredos dos subconscientes das pessoas enquanto elas estão dormindo. Depois de mostrar suas habilidades para Saito, um poderoso empresário que almeja utilizar-se delas para realizar um plano magistral: ao invés de roubas idéias, ele deseja implantar uma no inconsciente de Robert Fischer a fim de que este resolva dividir o império financeiro de seu pai moribundo, deixando o caminho livre para que Saito desenvolva sua empresa. Em troca, este garante que conseguirá a liberdade para que Cobb possa retornar aos EUA para seus filhos, depois que as acusações de ter matado sua esposa, Mal, sejam retiradas. Para tal, ele precisa recrutar uma equipe de talentosos profissionais: Arthur, seu braço direito e responsável pelos treinamentos; Ariadne, responsável pela arquitetura dos sonhos; Eames, falsificador de “pessoas” projetadas nos sonhos alheios; e Yusuf, químico que compõe sedativos poderosos a fim de prolongar e aprofundar o nível dos sonhos da equipe.

Se trabalhasse somente com a idéia da idéia do roubo dentro de sonhos, já seria uma trama suficientemente original, mas Nolan a explora até as últimas conseqüências: os sonhos são compartilhados por toda a equipe para cumprir o plano, que descem o nível dos sonhos a fim de implantar a idéia num nível cada vez maior de inconsciência, enquanto são perseguidos pelo próprio inconsciente de Fischer, representado por agentes que se lançam contra a equipe. Lembrando o nível de aprofundamento que Charlie Kauffman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) realiza em seus roteiros – tanto temática (mente humana) quando estruturalmente (níveis de aprofundamento gradativos) -, Nolan diferencia-se deste por ser menos melancólico e reflexivo e mais espetacular e soturno, compondo um longa que se destaca pela sua habilidade em coordenar com maestria seu elenco internacional, fotografia adequada, trilha forte e sutil e um roteiro magistralmente escrito, que, equilibrando elementos de ficção científica, filme de espionagem, drama e noir, torna-se um longa surpreendente e imprevisível, com reviravoltas e aprofundamentos que vasculham a mente de seus protagonistas da maneira que parece mais racional, mas como elementos inconscientes que desestabilizam o espectador. Além disso, a montagem torna-se sua maior arte, já que consegue equilibrar cinco níveis de trama sem se perder em nenhum momento e manter a dialética entre os jogos de força que se estabelecem e se influenciam. Em seu clímax, Cobb, Mal e Ariadne estão no limbo tentando resgatar Fischer e resolver uma pendência emocional essencial para o desfecho, enquanto nos níveis anteriores, ocorrem perseguições, mortes e emboscadas que influenciam nas sonhos mais profundos, numa corrida contra o tempo que se revela inacreditável em seu desfecho, quando a certeza entre ter vivido um sonho ou estar no mundo real se desestabiliza até para o espectador.

Enquanto o cinema contemporâneo tem agregado outras artes – histórias em quadrinhos, pintura, teatro etc - na evolução da chamada cultura de convergência, Nolan realiza cinema para explorar as potencialidades do próprio cinema, filmes que se utilizam de sua linguagem de forma elegante e bem construída a fim de sempre dar um passo à frente na experiência cinematográfica, na mesma medida em que amplia as reflexões e sensações que os enigmas da mente humana podem oferecer.


23/07/2010

Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo – Crônicas de Vaudeville


A sexualidade humana, diferente da dos animais, apresenta-se de forma mais complexa e desenvolvida por um elemento em particular: a linguagem.

Característica essencial do homem, a linguagem faz com que o homem reflita e fale sobre sua sexualidade, permitindo-o questionar instintos e dogmas construídos ao longo de sua vivência no mundo, principalmente nos campos da Psicologia e da Arte. Surgindo dramática ou cômica, satírica ou erótica, a sexualidade sempre desperta curiosidade porque universaliza o ser humano, ainda mais de forma tão envolvente como no longa Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar).

Trazendo um Woody Allen em início de carreira, este longa, composto por sete segmentos baseados em seções do livro de não-ficção de Paul Reuben, acompanha desde um bobo da corte que dá um afrodisíaco para a rainha até espermatozóides com dúvidas e medos sobre serem ejaculados, passando por um doutor que se apaixona por uma ovelha e um seio predador. Estas esquetes expõem o nonsense dentro do cotidiano a fim de explorar o absurdo sobre a forma como a sociedade trata uma sexualidade cheia de dilemas e vicissitudes, que se mostra mais incompleta do que benéfica em certos momentos.

Allen imprime sua persona a cada um dos segmentos, seguido por um elenco competente que eleva o status teatral das composições a um quadro cinematográfico por algumas sequências em particular, como Gene Wilder e Lynn Redgrave.

Shrek Para Sempre e o Desgaste da Paródia


O primeiro longa de animação a ganhar o Oscar na categoria – o Shrek original – era um conto de fadas às avessas, que, contava uma história a la Bela e a Fera, mas permeado de esquetes cômicas que compunham um cenário satírico ao universo das histórias da carochinha que divertia e envolvia o espectador de qualquer idade.

Contudo, ao longo do tempo, foram criadas as sequências ao original e o tom de paródia, mesmo que permaneça, parece enfraquecido pela tentativa de criar um arco dramático mais emocionante – mesmo que sem sucesso, por se apoiar em clichês do gênero - e estabelecer piadas prontas e datadas – através de referências pop esvaziadas de significado que nada acrescentam ao enredo. O que nos leva ao enredo de Shrek Para Sempre: depois de várias aventuras, Shrek virou um homem de família, pois, ao invés de ficar assustando os moradores locais, o ogro verde vive dando autógrafos. Pensando no passado, quando realmente se sentia como um ogro, Shrek assina um contrato com Rumplestiltskin e sua vida muda completamente: ele passa a viver em mundo que é o oposto do Reino Tão Tão Distante, em que os ogros são caçados, nem o Burro e o Gato de Botas são seus amigos e Fiona nem o conhece.

Mesmo apresentando qualidade em algumas piadas, o longa como um todo não se sustenta com um enredo típico de A Felicidade Não Se Compra (Frank Capra, 1946), referenciando a sua estrutura e desenvolvimento sem oferecer qualquer novidade – como ocorria no longa original, onde, ao Fiona se transformar em ogro depois do beijo de Shrek, subvertia o desfecho de A Bela e a Fera, propondo um final mais lógico com a proposta de ir de encontro à ditadura da beleza.

Esta terceira sequência prefere ser entretenimento esquecível a participar de uma revolução na maneira de contar histórias, como foi seu antecessor.

23/06/2010

Personagens doc-fic em Viajo porque preciso, volto porque te amo


No início do cinema, enquanto os irmãos Lumière atinham-se ao registro do cotidiano, o fantasioso George Melies se ocupava em criar um novo mundo através das técnicas que forjava com a nova invenção. Com a crescente sofisticação da produção e da linguagem cinematográfica, passou-se a classificar as obras em duas lacunas: documentário e ficção. Essa idéia de classificação evolui de um conceito racionalista de possibilidade de taxionomia para a constante transição entre gêneros, com fatos reais influenciando a criação ficcional e a fantasia se permitindo ser mais concreta através de dados e situações da realidade.
Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, nosso narrador-personagem José Renato, interpretado sutil e densamente por Irandhir Santos, narra em seu diário audiovisual pensamentos, sentimentos e expõe conversas que realiza com pessoas que encontra em sua jornada Brasil adentro através de seu trabalho como geólogo. Marcelo Gomes e Karin Ainouz compõem um documentário pessoal e experimental, que oferece um ponto de vista particular sobre algo que qualquer um de nós poderia fazer: uma viagem. Talvez a maior genialidade desta obra esteja em expor a parcialidade de um ponto de vista, ao invés de distanciar-se na narração em off genérica. Ao assumir uma perspectiva sobre os lugares e fatos que experimenta, os cineastas apontam para um documentário com uma autoria que se expõe, mesmo que através de um personagem.
O jogo entre real e ficcional tem permeado a gênero ao longo dos últimos anos, através de longas como Jogo de Cena (Eduardo Coutinho, 2007) e Santiago (João Moreira Salles, 2007), denotando como a verdade é algo deveras complexo na construção de obras que exigem um olhar pessoal sobre seus objetos/personagens.

Esvaziamento da Sátira – Alice no País das Maravilhas


Obra mais famosa de Charles Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas se tornou uma das mais célebres literaturas do surrealismo, contando a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas. Criado para crianças e adultos, está repleto de alusões satíricas, paródias a poemas populares infantis do século XIX e referências linguísticas e matemáticas.

Contudo, na adaptação realizada por Tim Burton, apresenta-se uma continuação da famigerada história: Alice, agora com vinte anos, está prestes a se casar com um homem que não ama quando, no dia da festa, é trazida de volta ao País das Maravilhas a fim de resolver pendências a respeito da Rainha de Copas. Trazendo seu estilo visual como componente de maior destaque da obra, o cineasta termina dissolvendo a crítica à sociedade inglesa com uma trama de guerra que desvia a atenção dos diálogos nonsense que compunham a beleza da enigmática e divertida obra original.

O visual que mescla soturno e colorido exuberante compõe um cenário que chama atenção e deleita o espectador médio, mas o dinamismo videoclíptico da narrativa dispersa de uma possibilidade de reflexão mais profunda. Afinal, o roteiro de Linda Woolverton limita-se a uma jornada de Alice ao seu interior, como uma lembrança da jornada que havia feito aos seis anos e da qual não se lembrava e precisava a fim de sair de uma proposta de casamento fracassada a fim de viver em liberdade. Esse arco feminista ultrapassado torna-se previsível desde as primeiras cenas, onde a jovem já se mostra insatisfeita com toda a pompa que lhe cerca e as novas experiências que encontrará lhe trarão uma nova perspectiva sobre seu futuro.

Quanto ao elenco, todos conseguem trabalhar bem em conjunto, podendo-se destacar Helena Bonham Carter, que se supera como a Rainha de Copas, que se mostra divertida e agressiva como a vilã-mor da história, equilibrando raiva e desprezo com um ar blasé que encanta o espectador. A novata Mia Wasikowska desenvolver uma protagonista digna da obra que tem diante de si, trazendo um frescor ao material do cineasta.

Como espetáculo, vale muito a pena, contudo, se o observarmos esvaziado de toda a carga que poderia apresentar, se optasse por resgatar o tom do original.

18/05/2010

Educação e o anti-ortodoxo



Na tentativa de planejar nosso destino, diversas situações podem nos distanciar de alcançar um objetivo, mas somente uma delas predomina diante de todas as outras: nossa própria vontade.

Em Educação, de Lone Scherfig, conta-se a história de Jenny, uma típica londrina dos anos 60 no final da adolescência e dos estudos que se prepara para entrar na universidade, mas, em seu caminho encontra David, um rapaz nos auge dos seus 30 anos, que lhe apresenta um mundo de jazz, festas e uma cultura da rua, não dos livros. Contudo, ao longo do seu envolvimento, Jenny começa a perceber que o rapaz e seus amigos não são exatamente quem aparentam, onde a responsabilidade e a ética não são consideradas palavras de ordem.


No roteiro adaptado por Nick Hornby a partir das memórias de Lynn Harber, os diálogos tornam-se seu maior destaque, por carregarem uma sinceridade e humanidade que conseguem compor um painel ao mesmo tempo clássico e moderno, oferecendo um frescor na maneira com as situações que apresenta. Se enredo e situações da narrativa não apresentam novidades, é a interpretação dos atores que consegue lhes conferir esse frescor e vitalidade, com destaque para Carey Mullingan e Peter Saarsgard, que, com sua química pulsante e inebriante, extraem do espectador os sentimentos mais dúbios, da candura ao desprezo. Jenny equilibra a responsabilidade e a transgressão em uma personalidade terna e determinada, mas frustrada em certo momento do longa, algo capturado com excelência pela jovem intérprete, que, dessa forma, se torna a alma da obra.


Sua diretora consegue orquestrar essa dinâmica do elenco com habilidade, levando seu público a se identificar imediatamente com a trajetória de Jenny rumo à vida adulta, de maneira imperfeita, contudo, mais experiente.

16/05/2010

Mary & Max e a construção de laços inóspitos


Ao longo de nossa existência, conhecemos diversos tipos de pessoas - divertidas, sérias, convencionais, excêntricas, ricas, pobres, inteligentes, estúpidas, egocêntricas, altruístas etc. -, mas todas com algo em comum: humanas. Por mais que desejemos ocultar nossas fraquezas e enfatizar nossas disparidades, não se pode esquecer que nossa essência nos aproxima e pode oferecer as mais variadas possibilidades de relacionamento.

Em Mary & Max, o cineasta responsável pelo curta-metragem Harvie Krumpet – Adam Elliot – baseia-se em uma história real para construir seu enredo: Mary é uma menina de oito anos que mora com seus pais nos Estados Unidos e, depois de ver o correio sentimental de uma revista, começa a se corresponder com Max, um australiano na decadência dos seus quarenta e quatro anos. Ambos passam anos trocando cartas, compartilhando histórias, sentimentos e formam um laço que se firma e se aprofunda com o passar do tempo.

Enquanto Mary possui em Max um porto-seguro para enfrentar as mudanças de uma jornada que ainda tem muito a percorrer, o amigo compartilha suas fobias e sensações com a menina, mesmo com a distância espaço-temporal que os separa. Elliot se utiliza de dois tons cromáticos para construir os universos díspares de ambos: enquanto Mary parece uma flor em meio ao mundo envelhecido em que reside, Max observa o mundo com uma saturação quase nula, onde reina o preto e branco dos relacionamentos interpessoais secos dos quais deseja se precaver.

O cineasta compõe um painel melancólico e pueril sobre a inocência de uma amizade sem segundas intenções e interesses, evoluindo um estilo já presente no supracitado curta: a narração de Barry Humphries explora a humanidade de um cotidiano universal e humano, extraindo comicidade e pateticidade de diversas situações que poderiam soar banais, mas que são exaltadas pelo carinho e delicadeza com que são tratadas. Uma pérola da animação adulta.

19/04/2010

A magia do ponto de vista em A Single Man


O estilista Tom Ford estréia com o pé direito na direção do longa A Single Man - recuso-me a aceitar a tradução brasileira para o longa, que lembra soap operas da década de 50 -, construindo um longa sensível e plasticamente inebriante. Contando o dilema de um dia na vida do professor universitário George Falconer, quando se vê diante de uma encruzilhada: acabar com a própria vida depois que seu companheiro de 16 anos faleceu em um acidente de carro, ou seguir em uma vida aparentemente sem perspectivas.

George atravessa duramente o dia, sente pela última vez cada momento banal do seu dia: as crianças brincando em frente à sua casa, o sorriso da bela recepcionista, os estudantes irresponsáveis, o prostituto compreensivo, a amiga fútil. Enquanto desfila por essa galeria de personagens, Falconer vive o paradoxo de desejar ser invisível diante de todos e negar a si mesmo a possibilidade de se conectar plenamente com outro ser humano ou aproveitar ao máximo a companhia e a simpatia de todos que lhe rodeiam pelo tempo que lhe resta.

Nessa encruzilhada surge a direção poderosa de Tom Ford, que, semelhante a um maestro com pleno domínio de sua arte, encaminha o espectador para o ponto de vista do protagonista sobre si mesmo e sobre os outros. Trilha Sonora, fotografia e edição compõem com fluidez e suavidade uma pintura em movimento, uma sinfonia de cores e monocromias que se alternam para criar momentos em que George se permite encantar novamente pela vida: ao observar cuidadosamente uma flor, ao se deleitar nas divertidas conversas com Charlotte e, principalmente, ao ouvir as doces palavras de seu aluno Kenny Potter.

Se seria muito fácil fazer George Falconer se encantar por um de seus alunos, procurando o sexo ou um novo amor como uma maneira de fazê-lo se revigorar, Ford nos mostra que o protagonista tem muito mais a oferecer: Falconer sabe os perigos de "substituir" seu companheiro e, mesmo desejando Kenny, enxerga nele além de um corpo ou uma personalidade cativantes, mas a humanidade que o liga a ele, as dúvidas, as escolhas que um dia ele precisou fazer. George nada contra a corrente deste mundo apressado, deste oceano de pessoas que andam lado a lado ou contra si, mas não têm a coragem de olhar cuidadosamente e contemplar os sentimentos e sensações, a condição humana que nos une no mesmo lugar e, ao mesmo tempo, nos torna únicos.

Essa possibilidade de se reencantar com o banal e, aparentemente, frívolo traz a George um novo ponto de vista: de se relacionar intimamente com o que há de prazeroso e doloroso na vida, por mais tenebrosa ou cativante que ela possa parecer.

Nine e os infortúnios da criação


Rob Marshall gosta de explorar a cena, o palco, a experiência de estar diante de um público e receber de imediato suas reações diante de uma performance, seja ela qual for. Mas, se em Chicago, sua protagonista se embriagava com a possibilidade de estar diante de uma platéia e ser vista, em Nine o diretor lida com os infortúnios de estar diante dos olhos alheios todo o tempo e contra a vontade.

Guido Contini, vivido com propriedade por Daniel Day-Lewis, atravessa uma fase de bloqueio criativo quando precisa trabalhar no roteiro de seu novo filme, chamado prepontentemente de Italia, ao mesmo tempo em que busca ou é solicitado por diversas musas inspiradoras durante o desenrolar do enredo. São elas: sua falecida mãe (Sophia Loren), uma jornalista apaixonada (Kate Hudson), sua desiludida esposa (Marion Cotillard), uma ingênua amante (Penelope Cruz), sua dedicada figurinista (Judi Dench), uma prostituta de sua infância (Fergie) e sua atriz favorita (Nicole Kidman). Cada uma o encanta de uma determinada forma e surgem em sua mente na tentativa de fazê-lo prosseguir em sua criação, utilizando para tal os números musicais como o pensamento do protagonista - estratégia utilizada por Marshall em Chicago, onde funcionava bem na condução da narrativa.

Contudo, mesmo com figurinos e cenários bem delineados, o roteiro deveras episódico de Michael Tolkin deixa muitas pontas soltas através de personagens e números musicais desalinhados com a unidade do filme. Enquanto temos números marcantes e interessantes como "Be Italian", com Fergie e "Cinema Italiano", com Kate Hudson, - cujas músicas foram usadas nos principais trailers que circularam pelo cinema e pela web - suas personagens não encontram o devido desenvolvimento ao longo da narrativa, perdendo-se em meio à profusão de outros personagens bem desenvolvidos - caso de Judi Dench e Penelope Cruz -, mas com números musicais sofríveis, restando a Nicole Kidman e Sophia Loren "pontas de luxo" que nad acrescentam de substancial ao longa. A única exceção a essa regra encontra-se na performance de Marion Cotillard, - em belíssimo momento com "Take It All" - que entrega uma personagem completa, cuja trajetória encanta e cativa o espectador, trazendo alguns poucos momentos de veracidade e contundência ao pretensioso longa. Junto com Penélope Cruz, compõe as principais influências na criação de Guido, cuja farsa se transforma em arte no momento em que se deixa libertar das rédeas de sua criação libertina e inconsequente, para abraçar a sensibilidade desconhecida dentro de si mesmo.

Nascimento da Responsabilidade: O Ano em que meus pais saíram de férias


Que lições pode a ausência de autoridade trazer para uma criança em plena idade das experiências? Que caminhos nos levam em direção à maturidade? Mistura de filme infanto-juvenil e drama social, o longa de Cao Hamburger resgata uma época hpa muito retratada pela nossa cinematografia: a ditadura militar. Contudo, o cineasta propõe um olhar diferenciado a respeito deste mesmo fato, um ponto de vista inocente, ingênuo, mas partindo para a maturidade.

Mauro, menino de dez anos, atravessa uma jornada rumo ao amadurecimento quando se vê, repentinamente, deixado na porta da casa do seu avô por seus pais, que, segundo os próprios, estão viajando "de férias" - rumo de diversos revolucionários comunistas perseguidos por suas posições políticas. No entanto, a morte de Mótel, seu avô, no mesmo dia, deixa-o a mercê da própria sorte, sendo acolhido por Schlomo, homem judeu que vive no apartamento ao lado e, subitamente, recebe seu "Moisés", menino hebreu recebido pelas mãos do Faraó e criado por eles - numa metáfora que acompanha sua trajetória no desenrolar do longa.

Partindo do pressuposto desta amizade improvável, Mauro e Schlomo apreendem o peso e a satisfação de assumir o compromisso de estar para outra pessoa, do cuidado para com o outro. Enquanto Mauro aprende com a necessidade a ser responsável por si mesmo e, em um dado momento, por Ítalo, comunista foragido que se hospeda em sua casa; Schlomo aprende a abrir mão de suas próprias escolhas para acolher o menino e assumi-lo diante das intempérias que se seguirão depois disso. Tudo isso embalado por boas lembranças de uma infância setentista e boleira, de uma ingenuidade brasileira vivida nos sobrados e várzeas, pela torcida pela Copa do Mundo dos 70.

Cao orquestra uma fotografia desbotada, trilha sonora pueril, interpretações naturais e sutis e um roteiro belíssimo com sabedoria, calma e, acima de tudo, o sentimento de quem vivenciou todas aquelas situações. De quem aprendeu a ser responsável sendo.

16/04/2010

Up e os ensaios para a vida


Como seres humanos, realizamos diversos planos para nossas vidas, como se estivéssemos sempre nos preparando para algo posterior que será chamado, de fato, nossas vidas. Fazemos projetos para viajar, experimentar, como se tudo o que estivéssemos fazendo antes disso não fizesse parte do viver, do estar vivo.

Carl Fredricksen planejou com sua esposa diversas viagens que seriam feitas ao longo dos anos, porém os diversos fatos que ocorreram com eles terminaram por adiar constantemente seus projetos, conforme mostrado em uma bela elipse logo no início de filme, que sintetiza de maneira emocionante diversas fases dramáticas de ambos com sutileza e habilidade. Anos depois, conhecemos a pessoa que Karl se tornou ao longo dos anos: ranzinza e afastado do convívio com outras pessoas. No entanto, ele começa a relembrar seu passado e, mesmo com o peso da idade, decide fazer algo inóspito: amarrar uma imensa quantidade de balões no telhado de sua casa e sobrevoar diversos lugares para viver grandes aventuras. Acompanhado por Russell, um escoteiro que precisa angariar reconhecimento para que obtenha suas medalhas de honra ao mérito, este protagonista excêntrico leva o espectador para uma jornada divertida e dinâmica, onde encontram um cachorro que, com um aparelho eletrônico, consegue falar; uma ave rara procurada por diversos exploradores, como Charles Muntz, grande herói de Karl em sua juventude.

Optando por um ar mais caricatural e cômico do que naturalista, Pete Docter e Bob Peterson utilizam o cartum como forma de aproximação imediata do público com suas personagens, fazendo de suas formas corporais um reflexo de sua interioridade. Enquanto Karl apresenta feições mais retas e rígidas que demonstram seu caráter rabugento, o menino, o cachorro e a ave possuem feições mais arredondadas, que demonstram leveza e flexibilidade diante das situações que surgem em seu caminho. No desenvolver do enredo, o roteirista consegue tornar clara as nuances que seu protagonista obtem, além de incluir diversas situações que exploram as infinitas possibilidades de enredo conseguem de forma criativa, sem precisar apelar para uma fragilidade das narrativas episódicas típicas dos road movies.

Mesmo que não apresente a genialidade de Wall-E ou Ratatouille, a Pixar constrói uma animação acima da média, que diverte e faz refletir na mesma medida, levando seu espectador a sair do cinema com desejo de aproveitar melhor o dom da vida, e não permanecer em um constante ensaio para um plano futuro. Sua essência não se trata simplesmente de aproveitar a vida enquanto se pode, mas de usufruir de seus benefícios em qualquer momento.

09/03/2010

A imprevisibilidade do ponto de vista em O Desinformante


Steven Soderbegh compõe um cenário com charme atemporal no longa O Desinformante, estrelado por Matt Damon e Scott Bakula, que conta a história real de Mark Whitacre, um funcionário de uma grande empresa norte-americana, que decide, após ser ameaçado por uma falha no seu ofício, fornecer informações confidenciais aos agentes federais, com a ânsia de se proteger de possíveis retaliações que venha a sofrer.

Resgatando um clima setentista à la James Bond em cenários, figurinos, trilha sonora, Soderbergh surpreende constantemente seu espectador ao criar múltiplos pontos de vista, mas não divididos em vários personagens, mas com a mesma personagem: o próprio Whitacre. O narrador, no gênero épico, é aquele em que o espectador confia para trazer às informações completas, aquelas que não podem ser fornecidas plenamente através das imagens e dos diálogos. No entanto, com o decorrer da narrativa, o espectador desconfia do próprio Whitacre, decompondo o protagonista clássico dos filmes de espionagem. O alvo deixa de ser aquele de quem se fala, mas quem fala. Da mesma maneira que o FBI não confia mais nas informações trazidas pela testemunha, o espectador se diverte com as reviravoltas no caso Whitacre, quando ele passa a se tornar suspeito de fraude nas informações que tem passado.

Matt Damon compõe uma protagonista à beira do desequilíbrio entre a confiança nas informações que expõe e o desespero pelas consequências que se seguirão após atravessar esse limiar, enquanto que Scott Bakula, Melanie Linskey e todo o elenco trazem à tona o equilíbrio entre a crença e a desconfiança nos depoimentos contagiantes de Whitacre. Dentro deste cenário, vemos não uma fábula sobre autoconfiança e ou um retrato amargo sobre o distúrbio bipolar, mas uma simbiose entre ambos, entre o que pode ser real ou ficcional, como atesta a cartela no início do longa: "Embora este filme seja baseado em fatos reais, alguns incidentes e personagens foram adaptados e diálogos, dramatizados. Então...". A partir dessa sentença, Soderbergh diz o aparentemente óbvio: não acredite muito no que verá adiante. Essa é a magia da tela de cinema: ter a possibilidade de suspender por algumas horas o compromisso com o real, com o fato, a possibilidade de exercer por alguns momentos o colocar-se diante de um ponto de vista. No caso, o ponto de vista de Whitacre, por mais imprevisível e até improvável que ele possa ser.