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03/07/2011

Bambi e os Ritos de Passagem

Hoje, postando de novo no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Bambi (idem, 1942, vários)


06/03/2011

Ensaio Sobre a Cegueira e Sobre o Olhar

Hoje, estou postando no Cine Lupinha, com essa equipe maravilhosa!

Filme de Hoje: Ensaio Sobre a Cegueira (2008), de Fernando Meirelles


02/03/2011

127 Horas e a autoria da própria história


Nos longas de Danny Boyle, o acaso torna-se ferramenta através da qual seus protagonistas precisam superar suas expectativas a respeito de si mesmos a fim de conseguir simplesmente sobreviver, vide as crianças e jovens indianos de Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008) e o famigerado Rent Boy de Trainspotting (Trainspotting, 1996). Em 127 Horas (127 Hours, 2010), Boyle conta a história real de Aaron Rolston, alpinista que, numa de suas tresloucadas viagens, termina preso em um cânion isolado de tudo e de todos.

Com um dos braços preso numa rocha, ele precisa encontrar uma forma de sair e continuar sua vida, mas não da mesma forma que entrou: aos poucos, Rolston começa a perceber o quanto estava distanciado das outras pessoas, o quanto suas viagens representavam uma fuga de um compromisso com elas e, talvez, consigo mesmo. E, em uma metáfora dilacerante, ele só consegue sair do seu infortúnio deixando parte de si mesmo naquele lugar, como se precisasse mesmo abrir mão de si para que os outros encontrassem seu espaço na vida dele.

Com um roteiro que investe na presença forte do protagonista, Boyle deixa Franco à vontade para construir uma persona elétrica, irresponsável, mas, acima de tudo, cativante, um ser humano real, que precisa aprender o valor da responsabilidade. Além disso, ele se utiliza de uma edição dinâmica e fragmentada que joga o espectador para dentro da mente veloz de Rolston, permeada por flashbacks e sonhos que contribuem para manter o mundo externo dentro do cânion. No entanto, essa mesma edição entrecortada termina diminuindo o impacto da situação de Rolston, pois, de certa forma, ele não fica isolado, mas as outras pessoas permanecem como imagens junto dele.

Existem vantagens e desvantagens na escolha que Boyle fez na direção do longa, da mesma forma que Rolston obteve quando precisou escolher a vida, mesmo que com um membro a menos. Estamos sempre realizando opções que podem nos trazer ganhos e/ou malefícios, nem sempre na mesma medida, cabendo a nós lidar com ambos de uma maneira que nos permita, de fato, sobreviver.

Como Treinar Seu Dragão e ser inteiro mesmo sendo parte


Quando se pensa no subgênero “filmes de amizade entre inimigos”, nos vêem diversos longas que propunham unir inimigos em potencial que, contrariamente, aprendem a aceitar suas diferenças e se amar. Essa temática vem desde o teatro, com Shakespeare e seu Romeu e Julieta, assim como tem chegado em Ratatouille (Ratatouille, 2007), longa gastronômico da Pixar, e centenas de outros trabalhos que se utilizam do universo figurativo e narrativo típico deste gênero para abarcar outros temas.

Trazendo uma estrutura convencional em sua construção, Como Treinar Seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2010) traz como protagonista Soluço, um rapaz franzino que mora num aldeia viking povoado por matadores de dragões por natureza. Contudo, mesmo sabendo que não consegue matar dragões, ele deseja se encaixar não somente no padrão que a sua sociedade aceita, mas que seu pai acredita ser o melhor para a “honra da família”. Mas, num dia, soluço conhece um dos dragões cuja lenda o torna o mais poderoso e mais temido de toda a aldeia, algo que ele facilmente contesta ao perceber a fragilidade do mesmo ao vê-lo tentar voar e não conseguir, por conta de uma deficiência na cauda.

Construído com uma técnica que parece atrasada em relação aos trabalhos feitos pela Pixar, o filme, no entanto, conquista pela simplicidade e generosidade ao deleitar o espectador com uma trilha sonora bela e tocante, assim como um discurso que trata da deficiência física como uma simples limitação, mas não como a maior barreira para nosso sucesso. Para Soluço, a maior barreira está construída dentro de nós mesmos, que mesmo inteiros de corpo, parecemos fragmentados, divididos, por vezes destruídos, pelas situações e pessoas que nos cercam e frustram.

Contudo, como atesta a mensagem final do longa, todos podemos ser parte dentro de um todo maior, mas precisamos estar inteiros dentro de nossa identidade e da compreensão de nossa força transformadora, domando - ou treinando - aquilo que parece querer nos destruir, seja por dentro ou por fora.

20/02/2011

Inverno da Alma e a aridez do humano



Contando sua história na região Centro-Oeste dos EUA, Inverno da Alma (Winter's Bone, 2010) encontra um elemento humano que se instabiliza entre o urbano e o rural, formando uma rede de conexões de uma terra sem lei, em que Ree Dolly (Jennifer Lawrence) inicia sua caçada por seu pai no submundo do crime, depois que a polícia o declara foragido. Em sua procura, Ree tem de encarar a vida que o pai - um traficante de drogas - deixou para trás, enquanto tenta encontrar respostas para o que lhe aconteceu e uma maneira de não deixar a família entrar em colapso. 

Acostumamo-nos a ver um Oeste fervente nos espaços, porém nesta obra essa aridez surge dentro dos personagens, como se a ruralidade tivesse feito emergir um ódio inconsciente do outro, uma incapacidade de ser cordial sem que isso lhe traga algum benefício. Ree tenta a todo custo encontrar seu pai e, posteriormente, encontrar seu corpo morto a fim de manter sua casa e sua família debaixo das suas asas, por mais que tenha de enfrentar os desgostos e a violência das pessoas que lhe cercam, pois sabe que seus irmãos são os bens mais preciosos que ela poderá ter nessa vida dolorida.

Observando o excelente trabalho do elenco, Jennifer Lawrence compõe uma Ree forte, mas deixando que o espectador conheça a humanidade dessa mulher que aprendeu a sobreviver incólume num ambiente que lhe força sempre a se destruir. Assim como Lawrence, Hawkes parece, a princípio, um monstro em forma de gente, mas, posteriormente, conhecemos sua faceta mais humana, porém não com algum momento choroso, mas deixando que o próprio personagem aja naturalmente conforme essa fragilidade.

Granik orquestra todo esse elenco dentro de um roteiro que, por jogar o espectador abruptamente naquele universo sem conhecer suas regras, deixa-o desnorteado à procura de alguém em quem confiar nessa rede imprevisível de atitudes e sentimentos. Como por vezes, acontece nas nossas vidas complexas e intrincadas, sem floreios ou lições de moral.

15/02/2011

Tradicional X Controverso em O Discurso do Rei



Quando se pensa em tradição, fala-se prontamente em transmissão de práticas ou de valores através de gerações, contudo, em nenhum momento, esta prática exclui a proposição de novas crenças e hábitos pelos próprios participantes da sociedade. A partir dessa idéia, pode-se analisar as maiores qualidades e deméritos da obra O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010).

Apresenta como principal mote a história de George VI (Colin Firth), sucessor do seu pai na monarquia britânica, mas que apresenta um grave problema de fala, algo inadequado para um governante que precisa transmitir segurança e autoridade através dos discursos que proferirá. Depois de passar por diversos tratamentos sem resultados positivos, sua esposa, Elizabeth (Helena Bonham Carter), leva-o até Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta de fala de métodos controversos. Lionel despe a si e ao rei de todas as regalias que sua condição exigiria e se coloca de igual para igual com George, atuando como seu psicólogo e amigo. Seus exercícios e desafios fazem com que o rei adquira autoconfiança para cumprir seu maior desejo: ser aceito não somente como rei, mas como um ser humano.

Tom Hopper, emerso da televisão britânica, traz para sua convencional escrita fílmica o clima austero da monarquia, em que os enquadramentos privilegiam o equilíbrio e a estase, não permitindo que a história, em alguns momentos, tome vida própria diante da tela. Apoiado pela excelente trinca de atores – Firth, Rush e Bonham Carter -, o diretor equilibra momentos cômicos e dramáticos com obviedade e parece não saber conduzir os enquadramentos nem sua edição, optando por um cinema “correto” que não surpreende o espectador contemporâneo. Entretanto, ele não perde seu frescor somente pela força de seu elenco e da refinada construção cênica – direção de arte, figurinos, fotografia -, mas que, em conjunto, torna-se muito pouco para deleitar olhares mais críticos.

A obra de Hopper, mesmo de tratando da superação da tradição por pessoas que “não se encaixam” nos padrões convencionais, peca pelo paradoxo de estacionar no uso da linguagem fílmica ao não empregá-la com total desenvoltura através do espaço que dispunha.

10/02/2011

O Vencedor e os filmes de superação



Da longa tradição dos filmes de esporte, podemos encontrar diversos exemplares, onde a superação dos limites físicos torna-se tema central a ser desenvolvido através da narrativa. No entanto, quando se observa a história de O Vencedor (The Fighter, 2010), percebe-se que, por mais que todos seus elementos típicos estejam dispostos, esta obra consegue dialogar com frescor e maturidade além da simples história motivacional que acomete tantos outros filmes do gênero.

Empregando uma linguagem propositadamente metalingüística, David O. Russell começa mostrando os bastidores das gravações de um documentário sobre Dicky Ecklund (Christian Bale), pugilista que teve seu auge ao enfrentar o campeão mundial Sugar Ray Leonard, vivendo até hoje desta fama, apesar de ter desperdiçado a carreira devido às drogas. Com o passar do tempo, passa a focar na trajetória de Micky Ward (Mark Wahlberg), seu irmão, que tenta agora a sorte no mundo do boxe, sendo treinado por Dicky e empresariado por Alice (Melissa Leo), sua mãe. No entanto, sua família sempre o coloca em segundo plano em relação a Dicky, o que impede que Micky consiga ascender no esporte. Essa situação muda quando ele conhece Charlene Fleming (Amy Adams), que o incentiva a deixar a influência familiar e tratar a carreira de forma mais profissional.

Com um título brasileiro pouco sutil e uma estrutura convencional, Russell destila sua linguagem dinâmica e despretensiosa não para ironizar as figuras com que lida na sua história, como ocorria em Três Reis (Three Kings, 1999), mas para torná-las mais próximas de si mesmo e, por conseqüência, do público. Seu quarteto de atores torna-se o maior destaque do longa: enquanto Mark Wahlberg conduz seu Micky com paradoxal fragilidade e devoção diante daqueles que ama e Amy Adams equilibra-o com a força e o destempero de Charlene, tudo que seu amado necessita para fugir dos laços de fracasso que sua família construiu em torno dele. Contudo, reside na contundência de seus coadjuvantes sua maior força: Christian Bale constrói uma personalidade magnética e destrutiva para o fracassado e viciado Dicky, enquanto Melissa Leo doma a platéia com o retrato apaixonado e agressivo de Alice, uma mãe que não concebe as consequências da péssima administração que faz da carreira do filho.

Depois de ver a ascensão do protagonista no longa, o espectador percebe que os maiores desafios enfrentados por Ward não foram somente no ringue de boxe, mas dentro das paredes familiares, onde, considerando-se protegido, não percebia quão nocivas podem ser determinadas convivências, por menos intencionais que sejam. Ele aprendeu a gritar com sua voz, mas principalmente, os momentos de silenciá-la para liberar o perdão para criaturas tão humanas quanto ele mesmo. Mergulhando abruptamente no universo real e denso de suas personagens, Russell cria uma obra que reflete sobre a construção de uma identidade e os sacrifícios que realizamos na tentativa de alcançar o que desejamos. Wahlberg, Bale, Leo e Adams participam com tamanha veracidade sesta experiência que, por vezes, esquecemos que estamos diante de uma tela e nos permitimos acompanhar as escolhas certas e erradas destas pessoas como se fossem uma parte de nós.

05/01/2011

Top Gun e a maquinaria como palco


Ver Top Gun pela primeira vez 25 anos depois de seu lançamento é uma experiência interessante, com a finalidade de se perceber a trajetória de seu diretor como um “obreiro” dos filmes de ação, onde, geralmente, as maquinarias são o palco do desenvolvimento das ações de seus heróis – vide O Sequestro do Metrô 123 e Incontrolável.

No caso deste, um porta-aviões onde Tom Cruise interpreta Pete Mitchell, conhecido como 'Maverick', um jovem e talentoso piloto que ingressa na Academia Aérea da Marinha Americana. Sua trajetória envolve uma bela mulher chamada Charlotte Blackwood e uma constante disputa com 'Iceman', um piloto à sua altura.

Apesar de envelhecida, a trama torna-se um deleite para Scott entrar no ritmo videoclíptico da edição MTV, tornando-se sua principal marca ao longo dos anos, assim como para Tom Cruise ter sido o astro construído para levar as adolescentes ao delírio. Uma fórmula que passou de algo interessante para, depois de repetida á exaustão, terminou se tornando banal e levando à renovação dos Neos e Bournes da vida.

19/04/2010

A magia do ponto de vista em A Single Man


O estilista Tom Ford estréia com o pé direito na direção do longa A Single Man - recuso-me a aceitar a tradução brasileira para o longa, que lembra soap operas da década de 50 -, construindo um longa sensível e plasticamente inebriante. Contando o dilema de um dia na vida do professor universitário George Falconer, quando se vê diante de uma encruzilhada: acabar com a própria vida depois que seu companheiro de 16 anos faleceu em um acidente de carro, ou seguir em uma vida aparentemente sem perspectivas.

George atravessa duramente o dia, sente pela última vez cada momento banal do seu dia: as crianças brincando em frente à sua casa, o sorriso da bela recepcionista, os estudantes irresponsáveis, o prostituto compreensivo, a amiga fútil. Enquanto desfila por essa galeria de personagens, Falconer vive o paradoxo de desejar ser invisível diante de todos e negar a si mesmo a possibilidade de se conectar plenamente com outro ser humano ou aproveitar ao máximo a companhia e a simpatia de todos que lhe rodeiam pelo tempo que lhe resta.

Nessa encruzilhada surge a direção poderosa de Tom Ford, que, semelhante a um maestro com pleno domínio de sua arte, encaminha o espectador para o ponto de vista do protagonista sobre si mesmo e sobre os outros. Trilha Sonora, fotografia e edição compõem com fluidez e suavidade uma pintura em movimento, uma sinfonia de cores e monocromias que se alternam para criar momentos em que George se permite encantar novamente pela vida: ao observar cuidadosamente uma flor, ao se deleitar nas divertidas conversas com Charlotte e, principalmente, ao ouvir as doces palavras de seu aluno Kenny Potter.

Se seria muito fácil fazer George Falconer se encantar por um de seus alunos, procurando o sexo ou um novo amor como uma maneira de fazê-lo se revigorar, Ford nos mostra que o protagonista tem muito mais a oferecer: Falconer sabe os perigos de "substituir" seu companheiro e, mesmo desejando Kenny, enxerga nele além de um corpo ou uma personalidade cativantes, mas a humanidade que o liga a ele, as dúvidas, as escolhas que um dia ele precisou fazer. George nada contra a corrente deste mundo apressado, deste oceano de pessoas que andam lado a lado ou contra si, mas não têm a coragem de olhar cuidadosamente e contemplar os sentimentos e sensações, a condição humana que nos une no mesmo lugar e, ao mesmo tempo, nos torna únicos.

Essa possibilidade de se reencantar com o banal e, aparentemente, frívolo traz a George um novo ponto de vista: de se relacionar intimamente com o que há de prazeroso e doloroso na vida, por mais tenebrosa ou cativante que ela possa parecer.