
03/07/2011
06/03/2011
Ensaio Sobre a Cegueira e Sobre o Olhar
Filme de Hoje: Ensaio Sobre a Cegueira (2008), de Fernando Meirelles

02/03/2011
127 Horas e a autoria da própria história



Nos longas de Danny Boyle, o acaso torna-se ferramenta através da qual seus protagonistas precisam superar suas expectativas a respeito de si mesmos a fim de conseguir simplesmente sobreviver, vide as crianças e jovens indianos de Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008) e o famigerado Rent Boy de Trainspotting (Trainspotting, 1996). Em 127 Horas (127 Hours, 2010), Boyle conta a história real de Aaron Rolston, alpinista que, numa de suas tresloucadas viagens, termina preso em um cânion isolado de tudo e de todos.
Com um dos braços preso numa rocha, ele precisa encontrar uma forma de sair e continuar sua vida, mas não da mesma forma que entrou: aos poucos, Rolston começa a perceber o quanto estava distanciado das outras pessoas, o quanto suas viagens representavam uma fuga de um compromisso com elas e, talvez, consigo mesmo. E, em uma metáfora dilacerante, ele só consegue sair do seu infortúnio deixando parte de si mesmo naquele lugar, como se precisasse mesmo abrir mão de si para que os outros encontrassem seu espaço na vida dele.
Com um roteiro que investe na presença forte do protagonista, Boyle deixa Franco à vontade para construir uma persona elétrica, irresponsável, mas, acima de tudo, cativante, um ser humano real, que precisa aprender o valor da responsabilidade. Além disso, ele se utiliza de uma edição dinâmica e fragmentada que joga o espectador para dentro da mente veloz de Rolston, permeada por flashbacks e sonhos que contribuem para manter o mundo externo dentro do cânion. No entanto, essa mesma edição entrecortada termina diminuindo o impacto da situação de Rolston, pois, de certa forma, ele não fica isolado, mas as outras pessoas permanecem como imagens junto dele.
Existem vantagens e desvantagens na escolha que Boyle fez na direção do longa, da mesma forma que Rolston obteve quando precisou escolher a vida, mesmo que com um membro a menos. Estamos sempre realizando opções que podem nos trazer ganhos e/ou malefícios, nem sempre na mesma medida, cabendo a nós lidar com ambos de uma maneira que nos permita, de fato, sobreviver.
Como Treinar Seu Dragão e ser inteiro mesmo sendo parte



Quando se pensa no subgênero “filmes de amizade entre inimigos”, nos vêem diversos longas que propunham unir inimigos em potencial que, contrariamente, aprendem a aceitar suas diferenças e se amar. Essa temática vem desde o teatro, com Shakespeare e seu Romeu e Julieta, assim como tem chegado em Ratatouille (Ratatouille, 2007), longa gastronômico da Pixar, e centenas de outros trabalhos que se utilizam do universo figurativo e narrativo típico deste gênero para abarcar outros temas.
Trazendo uma estrutura convencional em sua construção, Como Treinar Seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2010) traz como protagonista Soluço, um rapaz franzino que mora num aldeia viking povoado por matadores de dragões por natureza. Contudo, mesmo sabendo que não consegue matar dragões, ele deseja se encaixar não somente no padrão que a sua sociedade aceita, mas que seu pai acredita ser o melhor para a “honra da família”. Mas, num dia, soluço conhece um dos dragões cuja lenda o torna o mais poderoso e mais temido de toda a aldeia, algo que ele facilmente contesta ao perceber a fragilidade do mesmo ao vê-lo tentar voar e não conseguir, por conta de uma deficiência na cauda.
Construído com uma técnica que parece atrasada em relação aos trabalhos feitos pela Pixar, o filme, no entanto, conquista pela simplicidade e generosidade ao deleitar o espectador com uma trilha sonora bela e tocante, assim como um discurso que trata da deficiência física como uma simples limitação, mas não como a maior barreira para nosso sucesso. Para Soluço, a maior barreira está construída dentro de nós mesmos, que mesmo inteiros de corpo, parecemos fragmentados, divididos, por vezes destruídos, pelas situações e pessoas que nos cercam e frustram.
Contudo, como atesta a mensagem final do longa, todos podemos ser parte dentro de um todo maior, mas precisamos estar inteiros dentro de nossa identidade e da compreensão de nossa força transformadora, domando - ou treinando - aquilo que parece querer nos destruir, seja por dentro ou por fora.
20/02/2011
Inverno da Alma e a aridez do humano
15/02/2011
Tradicional X Controverso em O Discurso do Rei
10/02/2011
O Vencedor e os filmes de superação
05/01/2011
Top Gun e a maquinaria como palco



Ver Top Gun pela primeira vez 25 anos depois de seu lançamento é uma experiência interessante, com a finalidade de se perceber a trajetória de seu diretor como um “obreiro” dos filmes de ação, onde, geralmente, as maquinarias são o palco do desenvolvimento das ações de seus heróis – vide O Sequestro do Metrô 123 e Incontrolável.
No caso deste, um porta-aviões onde Tom Cruise interpreta Pete Mitchell, conhecido como 'Maverick', um jovem e talentoso piloto que ingressa na Academia Aérea da Marinha Americana. Sua trajetória envolve uma bela mulher chamada Charlotte Blackwood e uma constante disputa com 'Iceman', um piloto à sua altura.
Apesar de envelhecida, a trama torna-se um deleite para Scott entrar no ritmo videoclíptico da edição MTV, tornando-se sua principal marca ao longo dos anos, assim como para Tom Cruise ter sido o astro construído para levar as adolescentes ao delírio. Uma fórmula que passou de algo interessante para, depois de repetida á exaustão, terminou se tornando banal e levando à renovação dos Neos e Bournes da vida.
19/04/2010
A magia do ponto de vista em A Single Man



George atravessa duramente o dia, sente pela última vez cada momento banal do seu dia: as crianças brincando em frente à sua casa, o sorriso da bela recepcionista, os estudantes irresponsáveis, o prostituto compreensivo, a amiga fútil. Enquanto desfila por essa galeria de personagens, Falconer vive o paradoxo de desejar ser invisível diante de todos e negar a si mesmo a possibilidade de se conectar plenamente com outro ser humano ou aproveitar ao máximo a companhia e a simpatia de todos que lhe rodeiam pelo tempo que lhe resta.
Nessa encruzilhada surge a direção poderosa de Tom Ford, que, semelhante a um maestro com pleno domínio de sua arte, encaminha o espectador para o ponto de vista do protagonista sobre si mesmo e sobre os outros. Trilha Sonora, fotografia e edição compõem com fluidez e suavidade uma pintura em movimento, uma sinfonia de cores e monocromias que se alternam para criar momentos em que George se permite encantar novamente pela vida: ao observar cuidadosamente uma flor, ao se deleitar nas divertidas conversas com Charlotte e, principalmente, ao ouvir as doces palavras de seu aluno Kenny Potter.
Se seria muito fácil fazer George Falconer se encantar por um de seus alunos, procurando o sexo ou um novo amor como uma maneira de fazê-lo se revigorar, Ford nos mostra que o protagonista tem muito mais a oferecer: Falconer sabe os perigos de "substituir" seu companheiro e, mesmo desejando Kenny, enxerga nele além de um corpo ou uma personalidade cativantes, mas a humanidade que o liga a ele, as dúvidas, as escolhas que um dia ele precisou fazer. George nada contra a corrente deste mundo apressado, deste oceano de pessoas que andam lado a lado ou contra si, mas não têm a coragem de olhar cuidadosamente e contemplar os sentimentos e sensações, a condição humana que nos une no mesmo lugar e, ao mesmo tempo, nos torna únicos.
Essa possibilidade de se reencantar com o banal e, aparentemente, frívolo traz a George um novo ponto de vista: de se relacionar intimamente com o que há de prazeroso e doloroso na vida, por mais tenebrosa ou cativante que ela possa parecer.








