28/03/2009

O caótico e o solitário em Não Estou Lá


Tendo em seus seis protagonistas o mesmo personagem - Bob Dylan -, o longa de Todd Haynes - Não Estou Lá - resgata as sensações e os sentimentos do famigerado cantor ao longo de sua vida e carreira, num exercício de direção estupendo.

Em contrapartida à maior parte das cinebiografias, Haynes opta por trazer uma visão extremamente pessoal do seu objeto, trazendo seis atores para encarnar uma de suas facetas: Cate Blanchett, Heath Ledger, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin e Ben Wishaw. Mas uma unidade procura trazer o sentido de sua empreitada: mesmo que Dylan prossiga em diversas verdades ao longo de sua carreira, talvez o que o mantenha seguindo seja sua busca solitária pelo caos.Não pela desordem no mundo, mas a consciência da necessidades de mudança nesse mundo.

A impossibilidade de manter uma ordem no seu universo, Dylan procurava mudar as pessoas ao se expressar para elas, ao explodir de dentro de si tantos sentimentos e atitudes - por vezes, contraditórios. Haynes, através de seus roteiro e edição complexos, leva seu espectador talvez ao mesmo universo de seu protagonista - ao mesmo tempo como documentário, como musical, como drama biográfico ou histórico.

Nesse trabalho, um diretor e um personagem encontram-se e dialogam entre si, deixando talvez um pouco sua solidão, mas investindo no seu caos.

Orgulho e Preconceito e o diretor-autor



Ritmo, beleza e música. Uma celebração dos nossos ritmos, dos nossos corações, de como podemos seguir por tantos descaminhos até encontrar um destino que nos satisfaça. As desilusões surgem talvez para testar nossa persistência e capacidade de merecer essa recompensa no desfecho. A emancipação feminina já ganhou inúmeros olhares ao longo dos anos, mas Jane Austen é sempre bem-vinda, ainda mais quando tão bem traduzida nas imagens de Joe Wright para o longa Orgulho e Preconceito, conseguindo renovar a crença no amor, sem apelar para diálogos e cenas melodramáticos excessivamente, mas com a sinceridade e a veemência de seu elenco.

O longa mostra os jogos de amor e interesse numa Inglaterra ainda condenada à decadência de sua nobreza, sendo a única salvação para tais situações o casamento arranjado no interesse econômico. Nossa protagonista, Elizabeth, no entanto, batalha contra as convenções e decide se casar por quem se encontrar apaixonada. Entre as idas e vindas, sabemos desde o início seu desfecho, mas o que importa é o desenrolar da trama e maneira como a direção discreta de Wright permite que as verdades contidas no romance apareçam naturalmente.

Sem tentativas de atualizar desnecessariamente a trama ou de olhar cinicamente os sentimentos expostos através de suas personagens, Wright consegue entregar um longa digno e forte - principalmente devido à escolha de sua protagonista, que, mesmo que não supere as expectativas, traz um frescor ao material humano de Austen. Alguns poderiam criticá-lo por não investir em um discurso próprio através das imagens capturadas e sua montagem, mas Wright se entrega de fato à sua habilidade: o contar histórias de maneira sincera e simples.

20/03/2009

Criancinhas e seus Pecados






Mais uma vez no caminho inverso: depois de ter contato com o excelente longa Pecados Íntimos, dirigido por Todd Field (Entre Quatro Paredes) - estrelado por Kate Winslet e Patrick Wilson -, procurei ler o livro que deu origem ao roteiro para o longa: Criancinhas, de Tom Perrotta - responsável também por Eleição, que se transformou em filme pelas mãos de Alexander Payne.

Quando vi o filme, tive uma imersão enorme na construção cuidadosa de suas personagens, que entram pedindo licença e tomam conta de nossas emoções de maneira sutil. Quando Sarah Peirce, Brad Adamson e Ronnie McGorvey cruzam a tela, somos impactados pela força de um roteiro maginificamente escrito, que compreende suas protagonistas e não tenta julgá-los e imputar neles questões moralistas e hipócritas. Seus roteirista e diretor, de fato, se importam com eles, se veem como um deles, por mais que essa verdade seja difícil de aceitar. Foi gratificante aprofundar questões que, no filme, só puderam ser sugeridas e permitir uma identificação ainda maior com o que está sendo contado.

Aprofundando questões como responsabilidade, convivência e aceitação do outro se aprofundam, o filme decide manter o tom crítico e dramático que a história possui, suavizando o tom irônico e cínico que Perrotta traz à sua narrativa. Ronnie, nas linhas de Perrotta, é um personagem que parece sofrer menos com sua condição de rejeitado e perseguido pela sociedade, por causa de suas tiradas sarcásticas direcionadas à mãe, que pouco emergem na transcrição para a tela. Field também optou por deixar de lado um aprofundamento das histórias dos cônjuges de seus protagonistas e de seus amigos, permitindo suas inserções em seus momentos mais marcantes e úteis à história.

Esse tipo de decisão valoriza a tonalidade do longa e altera a conclusão da narrativa, que, no livro, se dá de maneira também irônica, perdendo um pouco do impacto dramático que a história por si só traz. Além disso, o autor utiliza seu clímax para reunir quase todos os personagens num único espaço, tentando forçar um conflito, enquanto que, no filme, os únicos encontros são entre Ronnie e Sarah - muito forte, por sinal - e Ronnie e Larry. Contudo, Field conflui elementos em comum ao manter a narração do livro, que, paradoxalmente, aproxima e distancia o espectador de seus protagonistas. Isso se revela como um elemento estético que referencia de maneira direta aos romances que fazem parte da história, no caso Madame Bovary. Termina se tornando também um filme sobre livros, histórias e como elas podem dialogar conosco, fazendo com que nos enxerguemos nele. Sobre como podemos - e precisamos - compreender melhor a nós mesmos e aos outros.

Este é um dos raros trabalhos em que um filme consegue melhorar um livro, dialogar com o espectador e com a obra original, mas mantendo uma estética discursiva própria. Todd Field consegue esse feito com propriedade, tornando-o um dos melhores cineastas da atualidade, mesmo que tão pouco enxergado pelo público.

19/03/2009

Deixe ela entrar e a inevitabilidade do contato




Qual a possibilidade de se isolar do mundo a ponto de negar o contato com o outro? Na citação aristotélica, "O homem é um ser social", estamos intrinsecamente destinados a nos relacionar, por mais que não o desejemos ou possamos.

A delicadeza surge de maneira fantástica no relacionamento entre Oskar - um frágil adolescente perseguido na escola e que cria para si um círculo de antipatia e rejeição - e Eli - uma criatura fantástica que necessita abster-se do contato emocional com outros seres humanos -, ambos negligenciados, marginalizados pela sociedade de que desejavam fazer parte, mas cuja hipocrisia e violência - mesmo que simbólica - emergem quase aceitáveis em Deixe ela entrar, longa do sueco Tomas Alfredson.

Como sobreviver às intempéries que a própria vida dispõe à nossa frente? Bem, como atesta Eli em certo momento: "Revide". Aproveite a oportunidade para lavar sua própria alma, não deixe que a apatia tome conta do seu espírito. O revidar não está simplesmente em devolver com a mesma moeda ou intensidade, mas em se relacionar com a sua condição de ser humano e permitir-se dominar pela emoção. Talvez desse jeito, fosse possível livrar-se da violência que cometemos contra nós mesmos todos os dias.

Certos 'nãos' que dizemos aos outros podem fazer mais do que qualquer violência física, pois aprendemos a nos afirmar diante do outro e realizamos o contato tão desejado, deixando a apatia enterrada ante a felicidade da satisfação. Oskar aprende a dizer 'sim' às próprias emoções, não precisando mais ocultar-se diante de uma sociedade que o oprime. Tudo isso porque permitiu que o relacionamento entre ele e Eli fizesse parte de sua vida, mesmo com a violência com que precisavam declarar: "Eu estou aqui".

Das Cidades de Deus - Do filme para trás







Quando se pensa nas adaptações de livro para cinema, poucas vezes o público leitor fica satisfeito com o resultado final. Mas uma pergunta: como reagem aqueles que lêem o livro depois de ver o filme?

Bom, já estive dos dois lados da moeda e posso refletir um pouco sobre o processo de adaptação de filme para livro na minha cabeça. Começarei com o mais recente: Cidade de Deus, escrito por Paulo Lins, roteirizado por Bráulio Mantovani e levado às telas por Fernando Meirelles. Caso típico de "experiência multimídia", entrei em contato com livro, filme, roteiro, trilha sonora etc nestes anos em que o filme fez parte de minha consciência.

Mantovani e Meirelles são responsáveis por unir num longa de duas horas a história de diversos personagens, reduzindo a trama complexa do livro - que contém inúmeros personagens e situaçõs que dificilmente seriam aproveitadas no longa como um todo. Mas algo se mantém: o espírito fragmentado, cinematográfico que Lins traz às diversas tramas, além do rápido processo de anarquia que ronda a favela ao longo dos anos.

Temos a batalha entre Zé Pequeno - no livro, Zé Miúdo - e Mané Galinha - originalmente, Zé Bonito -, além de diversas outras passagens protagonizadas por Buscapé, Barbantinho, Madrugadão, Acerola, Filé com Fritas, Laranjinha, a turma do Caixa-Baixa, que ganham mais força e detalhamento nas linhas de Paulo Lins. Mantovani, no entanto, adiciona à verve popular do autor uma ironia tipicamente burguesa, que distancia e estetiza a paixão e a violência com que estes seres marginais conduzem sua vida.

A metalinguagem esperta da narração de Buscapé não está nas linhas passionais do livro, mas fazem parte de um longo processo de autoria de Mantovani, que recria boa parte da estrutura do livro, o que favorece - e muito - na produção do longa, que se diferencia do retrato que por tantas vezes o Brasil fez de si mesmo na tela. A veia popular dá lugar ao pop, que torna excitante e quase bela a violência do longa, tamanho o trabalhar do estilo de roteirização e direção.

Os diálogos rápidos e espontâneos ainda estão lá, com adição de elementos sexuais mais violentos que o filme opta por não aprofundar. Não gostaria de entregar juízos de valor comparativos a respeito dos três contatos - com filme, roteiro e livro -, pois creio que são experiências diferentes, que demandam espírito diferentes e mente aberta para a constante recriação de uma história, seja por um escritor, um roteirista ou um diretor. E, afinal, qual seria a graça?

03/03/2009

Tomar a sua cruz = Slumdog Millionaire





Nos tempos dramáticos que a América - e, por conseqüência o restante do mundo - tem vivido, não surpreende o fato de que um filme emocionante e otimista como Slumdog Millionaire faça esse sucesso retumbante.

Um pobre indiano resolve competir no jogo de perguntas e respostas Quem Quer Ser um Milionário? simplesmente para que sua amada o veja e resolva se encontrar com ele, mas termina sendo torturado e questionado por saber todas as respostas do jogo momentos antes de se deparar com a pergunta final. De início, é provável que o espectador já consiga imaginar o desfecho da trama, mas dificilmente não se envolverá com a jornada de seu protagonista rumo à satisfação.

Com uma edição poderosa, uma fotografia deslumbrante e um roteiro simples, porém marcante, Danny Boyle constrói um longa sólido que trata da força de amor - seja ele ÁGAPE (entre Deus - ou destino - e suas criaturas); PHILOS (entre irmãos) ou EROS (entre um homem e uma mulher) - superando tudo o que cremos ser as maiores dificuldades para a realização de um sonho. As experiências de seu protagonista o levam a conhecer cada resposta do programa, sendo realmente seu destino - ou Providência Divina - estar naquele lugar, naquele exato momento. Quando pensamos que tudo o que fazemos nesta vida é carregar fardos pesados - situações difíceis que precisamos superar -, Cristo, assim como Boyle, nos leva a entender que o peso dessas "cruzes" está dentro de nós mesmos, naquilo que nos impede de seguir em frente.

Tomar diariamente as nossas cruzes e seguir em frente está em assumir a responsabilidade de cumprir um propósito na nossa existência, seja ele qual for, ter a capacidade e a autoridade para assumir uma missão aqui nesse lugar, diante de tudo aquilo que vivemos e com quem vivemos. Mesmo que, em princípio, ele não se desse conta, a missão de Jamal talvez fosse salvar a sua amada desde o momento em que se conheceram, assim como a de seu irmão seria a de salvar a ambos, entregando sua própria vida em favor dessa causa.

Por mais que beba da fonte da cultura indiana, é facilmente perceptível o grande ensinamento cristão por esta obra tão rica em camadas e tão simples na identificação com suas personagens e situações. Uma fortaleza para momentos tão angustiantes como essa economia instável, violência gritante e desespero incessante que o mundo pós-moderno tem disponibilizado como deleite para deixarmos nossa esperança de lado.

26/02/2009

Wall-E por uma sociedade menos niilista


Quando se pensa num filme infantil, talvez o primeiro recurso a ser usado sejam diálogos rápidos e simples e uma história que verse sobre a construção da personalidade através superação de conflitos. Mas, se tratando de uma das mais inteligentes produtoras de longas de animação da atualidade, a Pixar consegue inverter todas as expectativas e cria um filme que redefine os conceitos que diferenciam roteiros voltados para infantes e para adultos.

Wall-E é uma linhagem de robôs cuja serventia está em ajuntar o lixo que ocupou a superfície da Terra, numa tarefa que levará toda a eternidade e existe sem o menor objetivo prático, visto que toda a população humana mora agora numa estação espacial a anos-luz de sua antiga morada. Lá, as pessoas realizam o mínimo de esforço físico, indo da cama para o banheiro, cozinha, trabalho, piscina etc em plataformas flutuantes equipadas com telas holográficas - onde vêem televisão e anúncios 24 horas por dia - e não tem o menor conhecimento da existência do seu planeta natal.

A Humanidade, então, termina sendo formada por jovens e velhos obesos que não mantém um mínimo de contato visual ou verbal com a pessoa do lado. O responsável pelas mudanças nessa nova sociedade é o robô Wall-E, que, ao conhecer a robô Eva - enviada à Terra para procurar sinais de vida vegetal -, se apaixona e se dedica a encontrá-la quando vê que foi resgatada por um nave de volta à estação espacial.

Contando com um enredo que já não seria tão típico para crianças, o longa ainda tem a ousadia de deixar sua primeira parte quase sem diálogos, demonstrando a solidão e a falta de sentido da vida com que o robô Wall-E leva sua vida, colecionando pequenos objetos que vão dando a ele uma rotina e trazem sentimentos de apego. Quando o pequeno autômato entra em contato com as pessoas, as perseguições e as mudanças acontecem e os seres humanos passam a tomar as rédeas de sua própria vida, deixando de lado a ilusão que os mantinha passivos.

E a maneira como Wall-E transmite essa idéia ocorre da maneira mais sutil possível, recorrendo não a discursos panfletários, mas à visualização dos efeitos que o descaso com a natureza terrena e a sua própria podem causar ao ser humano.

Kung-Fu Panda contra o estigma da obesidade


Como contruir um longa infantil que trate sobre a obesidade sem aderir aos modelos básicos dos clichês do "gênero" - meninos(as) obesos que fazem de tudo para perder peso e entrar nos padrões estéticos da sociedade e descobrir que os valores internos são os mais importantes, aceitando-se como está?

A resposta pode ser encontrada na animação Kung Fu Panda, novo longa da Dreamworks, que investe numa narrativa clássica, mas infestada de referências aos filmes de arte marciais, mas adequados aos clichês da indústria cinematográfica hollywoodiana. Na narrativa, encontramos Po, um panda que sonha em se tornar um mestre da guerra, integrando o time dos Cinco Furiosos - composto por Tigresa, Macaco, Louva-a-deus, Víbora e Garça (os cinco estilos de kung-fu) - e sendo discipulado pela chinchila Shifu.

De início, o panda, animal típico da China, poderia ser o protagonista mais improvável para um filme de artes marciais - da mesma maneira que um rato o seria para um filme sobre restaurantes e cowboys em um filme sobre homossexualidade -, mas termina passando por uma jornada típica do gênero - treinamento corporal e mental tendo em vista a superação individual - para conseguir se afirmar.

Durante sua jornada, o mestre vai aprendendo a lidar com as limitações de seu discípulo, criando novos métodos de ensinar-lhe as técnicas de luta orientais e fazendo com que ele demonstre sua individualidade na execução do que foi aprendido. A irreverência típica dos norte-americanos entra em conflito com a China tradicional e cria um modo diferente de lutar, que usa também trejeitos que surgem decorrentes do aspecto físico de seu protagonista.

Dessa maneira, o longa rebate nos clichês de filmes de treinamento: quando há esforço físico e mental e entrega do herói à jornada que se propõe a realizar, todo ser é capaz de realizar qualquer coisa, não importando o que os outros pensem. Mesmo que o panda saiba que não tem a estética perfeita, ele, em nenhum momento, perde o peso para se tornar habilidoso, mas usa sua própria forma em beneficio de sua performance. Não precisamos nos ressentir de nossa aparência - ou de qualquer característica que nos incomode em nós mesmos - para cumprir os desejos do nosso coração, mas saber usá-la ao nosso favor.

Trovão Tropical e a sátira sem besteirol


Trovão Tropical, novo longa de Ben Stiller - uma paródia tanto aos filmes de guerra quanto à indústria do cinema blockbuster - opta por deixar de lado piadas mais óbvias, tendo como objetivo uma sátira mais corajosa aos produtores, agentes, astros e clichês de cinema que infestam a indústria do entretenimento.

O elenco reúne: Ben Stiller, que interpreta um astro que tem dificuldade em se envolver emocionalmente nas cenas e termina entrando numa jornada de aprendizado da arte da interpretação quando entra numa guerra verdadeira; Robert Downey Jr., que traz a personagem mais interessante do longa, um ator que sempre passa por mudanças drásticas fisicamente para os papéis que escolhe e perde, aos poucos, a noção de seu próprio corpo e alma, mantendo o personagem ao longo de toda a filmagem; Jack Black, cuja personagem explora o niilismo e a loucura da situação de guerrilha e os vícios que surgem em consequência destes. Além destes, temos participações de Tom Cruise - como o produtor do longa - e Matthew McConaghey - como o agente do personagem de Stiller.

Tendo como mote uma proposta inteligente - a filmagem de um longa de guerra com os atores vivenciando uma situação de guerrilha real, mas que foge ao controle dos produtores e atores, gerando efeitos nunca imaginados, como no famigerado A Bruxa de Blair -, o longa consegue se sustentar como uma sátira sem apelar para o besteirol, mas para os exageros típicos de uma comédia farsesca como a que se propõe ser.

Os traumas coletivos e a banalidade do mal em O Leitor


Hanna Schimtz e toda a Alemanha padecem de um mal irremediável: um passado negro que ainda os persegue. Enquanto que Hanna cometeu atos condenáveis em nome do cumprimento do dever, a Alemanha teve entre suas fronteiras o palco para a realização de um dos maiores atos genocidas de toda a História: o Holocausto.

O Leitor humaniza os algozes anti-semitas, trazendo a eles a imagem ao mesmo tempo frágil, determinada e ignorante da oficial nazista Hanna, que, depois de ter um caso com um adolescente e receber uma promoção no trabalho, decide ir embora da cidade, procurando fugir de um "defeito" que a persegue e envergonha.

A idéia de Stephen Daldry ao construir a delicada história de Hanna Schmitz de maneira tão objetiva - extinguindo alguns exageros melodramáticos e enfatizando em atuações sutis de seu elenco magnífico - talvez fosse a tentativa de nos fazer olhar com objetividade os acontecimentos que levaram a cobradora de bondes ignorante e rústica vivida por Kate Winslet a destruir tantas vidas judias sob a justificativa do cumprimento do dever.

Da mesma maneira que os estudos de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal - sobre Adolf Eichmann, oficial nazista que justificava da mesma forma suas atitudes anti-semitas -, Winslet constrói uma personalidade misteriosa e, ao mesmo tempo, simples para uma mulher que esconde um segredo que lhe traz vergonha e humilhação, o que, contraditoriamente, não acontece com os crimes genocidas cometidos durante o Holocausto.

Esse longa acumula ainda a idéia dos trauma coletivos que a Alemanha ainda sofre, tendo em seu passado um fato como o Holocausto, que terminou corroborando seu estigma de rudeza e xenofobia diante dos outros países. A complexidade do longa torna-o um dos melhores filmes que concorreram às principais premiações deste início de ano, com uma edição e um roteiro que misturam passado e presente de seus protagonistas fluentemente e esclarecem as idéias que Daldry deseja transmitir e, por consequência, tocar seu espectador.

16/02/2009

Vida X Morte em Benjamin Button




Por que desperdiçar a juventude sendo jovem e, por consequência, imaturo? Por que não ter nosso vigor juvenil agregado a uma mente sábia que só aparece com a experiência da velhice?

Benjamin Button nasceu com todas as crises corporais do corpo de um ancião, mas com o espírito sempre aprendiz de um recém-nascido. Abandonado pelo pai quando era criança, foi criado num asilo de idosos, tendo um contato direto com a finitude da vida e com as intempéries que ela traz, seja no corpo ou na consiência. A partir desse ponto de vista, Button foi criando - talvez inconscientemente - essa aura madura, esse serenidade para encarar as frustrações alheias, os objetivos mal escolhidos, as desesperanças...

Assim como todos nós, Benjamin nasceu com o relógio em contagem regressiva, a diferença é que ele se dá conta disso. Sua condição extraordinária o permitiu enxergar a beleza da juventude e do estar vivo, de poder aproveitar todos os momentos como se fossem únicos. A vontade de ir e vir, de explorar o desconhecido, de conhecer o outro de maneira única.

Todos nascemos com essa sentença decretada, mas nos achamos eternos e, às vezes, desperdiçamos os segundos, as horas, as semanas com tantos sentimentos e sensações que nos levam a lugar nenhum ou, se preferir, ao arrependimento. Mas Benjamin nos traz a esperança de que. um dia, possamos compreender nosso papel no mundo e fazer valer a pena os dias que nos restam.

Apesar de algumas falhas, o roteiro de Eric Roth - bebendo da fonte de seu sucesso Forrest Gump - permite a imersão nesse universo simples e belo em que vive Benjamin, além da trilha sonora e da fotografia inspirada, sem falar na edição primorosa, que não faz com que as quase três horas do longa sejam sentidas tão fortemente.

Cuidadosamente construído por David Fincher, O Curioso Caso de Benjamin Button toca o espectador com sua consistência e fluidez narrativa, além de idéias que falam ao coração de todo ser humano.

Coraline e os universos paralelos de que tanto gostamos


Quantas vezes nos sentimos deslocados do mundo em que vivemos e sonhamos com uma existência paralela, onde todos cumpram nossos desejos num estalar de dedos? Quantas vezes nosso id sofreu essas retaliações e procurou esconder-se dentro de si mesmo, o único lugar seguro para habitar?

Coraline, novo longa de Henry Selick - genitor de O Estranho Mundo de Jack -, trata desse sentimento que, além de perpassar a infância, também nos persegue por toda a vida. Nessa idéia se encontra a universalidade da história dessa garota que, não recebendo a devida atenção dos pais, termina encontrando na porta de seu quarto um universo paralelo, onde sua mãe cozinha e conversa com ela e seu pai não trabalha insistentemente num catálogo de jardinagem, mas se revela um exímio pianista e jardineiro.

Baseado numa história de Neil Gaiman - famigerado criador de Sandman -, o longa, utilizando o mesmo estilo gótico que fez a fama de Selick e seu Estranho Mundo, apresenta ao espectador o universo agradável da Outra Mãe como algo utópico e negativo, já que a convivência de Corlaine nesse mundo fantástico termina por lhe trazer consequências dolorosas e ela precisará amadurecer para perceber a tragédia de se perder aquilo que se tem.

Por mais que essa mensagem pareça banal e infantil, quantos de nós já nos encontramos nessa situação, quando desejamos que nossos amigos de trabalho, nossos cônjuges e nossos chefes fossem diferentes daquilo que nos demonstram ser?

13/02/2009

Hulk e as potencialidades do cinema autoral


Talvez seja injustiça analisar filmes cujo propósito maior não ultrapassa a sólida barreira do entretenimento fácil, mas, ao pensar que, como espectador, eu me senti lesado ao não ter a menor diversão de assistir a O Incrível Hulk, posso me dar o direito de expor meus motivos para que isso tenha ocorrido.

Bruce Banner - Edward Norton faz o que pode, mas não salva -, após a contaminação pelos raios gama, vai ao Brasil tentar encontrar a cura, mas termina sendo perseguido pelos seus opositores e embarcando num romance com a dra. Betty Ross - Liv Tyler não convence - e enfrentando um inimigo com os mesmos poderes que o gigante verde-esmeralda.

A impressão que fica quando se assiste o longa é de que as cenas de ação foram o primeiro item da pauta de reunião de roteiro e a história aparece como último item, um fiapo de idéia que interliga uma explosão a outra. As protagonistas não comportam a complexidade que a situação em que se encontram poderia gerar nas suas consciências, algo que, no desenvolver da trama, resume-se à busca de Banner pela cura, aos olhares apaixonados e lacrimosos de Ross e da vilania unidimensional dos antagonistas. A consequência dessa falta de cuidado dos roteiristas termina sendo a construção fraca de uma trama sem química ou identificação, o que termina fazendo com que o filme seja levado com a barriga pelo espectador, que talvez nem se envolva o suficiente com as sequências de ação.

Tavez a presença de um diretor que não seguisse as cartilhas do cinema de ação - mas que, com sua veia autoral, procurasse ter um olhar diferente sobre o material que lhe foi dado, como Guy Ritchie, Sam Raimi, David Fincher, JJ Abrams, Doug Liman ou Tom Tykwer - teria trazido algo diferente a um público que almeja algo mais quando vai ao cinema. Essa resposta ao filme de Ang Lee termina metendo os pés pelas mãos e não vinga nem como filme de quadrinhos nem como filme de ação.

12/02/2009

Feliz Natal por um cinema verité anti-social




Feliz Natal, primeiro longa dirigido pelo ator mineiro Selton Mello, traz um novo sopro na safra de filmes das terras brazucas, referenciando a estéticas do cinema verité - sem temática social, vale a pena ressaltar - e aproveitando o improviso de grandes atores como Leonardo Medeiros, Graziella Moretto e Darlene Glória.

Caio, dono de um ferro velho no interior do estado, decide retornar à casa de seus pais durante as festividades natalidades, a fim reencontrar e sarar feridas há muito enterradas. A vida de irresponsabilidade divertida compartilhada antes com seus amigos não mais existe, dando lugar ao ódio perpetrado por sua família ao sujeito que manchou a reputação de todos. Caio passou a ser persona non grata na sua própria casa, renegado pelo próprio pai (Lúcio Mauro) e desconhecido pelo sobrinho Bruno (Fabrício Reis), precisa enfrentar a obsessão e o alcoolismo da mãe Mércia (Darlene Glória) e a apatia do irmão (Paulo Guanieri) na tentativa de salvar a si mesmo de seu passado.

Durante os 140 minutos do longa, Mello constrói personagens cativantes, que enfrentam altos e baixos de maneira contundente e delicada ao mesmo tempo, embarcando numa jornada que leva o espectador a uma subliminar morte de si mesmo. Sofrer é morrer aos poucos, mas qual a resposta que encontramos quando nos perguntamos: "por que eu?".

Como atesta o final do longa, viver é sofrer. Aquele que não sofre mais é por que já não está mais aqui. Bruno não vai embora, mas faz uma viagem por aquela janela para uma inexistência que leva à liberdade que a infância oferece. Ao contrário de Caio, que permanecerá sempre preso aos fatos que levaram à sua infelicidade.

01/02/2009

A Vida de David Gale e a manipulação do discurso



Vi recentemente o filme A Vida de David Gale, que reflete sobre a pena de morte e conta a história de um professor universitário acusado do estupro e morte de uma colega de trabalho. Condenado ao corredor da morte, Gale convoca uma jornalista para ouvir a sua história e desenterrar momentos tristes da vida deste homem.

O filme de Alan Parker representa um tipo de cinema idealista, adepto da manipulação das imagens e idéias na tentativa de direcionar o discurso da pena de morte como algo que precisa ser excluído da face da Terra. Apesar de concordar totalmente com Parker, seu filme termina se tornando um grande panfleto de ideais, com diálogos, cortes e planos que evidenciam o caráter heróico de seu protagonista, quando o colocam como mártir pela causa que defende.

Mas esse cinema engajado não é privilégio de Parker: Serguei Eisenstein - o famigerado diretor de A Greve e O Encouraçado Potemkin -, que na tentativa de causar no espectador uma reação, um choque, editava seus filmes com base no confronto entre duas imagens. Outros passaram a aderir a esse cinema de propaganda, de idéias: Leni Riefensthal, Dziga Vertov...

Mas esse tem sido um cinema mais raro hoje em dia, quando estamos enfrentando um apogeu do cinema que fale à intimidade do espectador, mas do que ao seu intelecto. Apesar de Parker se render a alguns clichês do suspense, seu final faz pensar sobre até que ponto seguimos firmes com nossos princípios, tornando-nos mártires de nossas próprias causas.

C'est fini.