20/01/2013

O existencial nosso de cada dia em Era uma vez eu, Verônica


Uma adolescência em que se escreve um diário pode ser um dos períodos mais ricos na vida de alguém, já que passamos um bom tempo olhando para nós mesmos e pensando em nossas atitudes, no que estamos sonhando e no que, de fato, acontece. Recentemente, abri alguns dos meus cadernos antigos, não da adolescência, mas da faculdade e vi alguns dos milhares de planos que havia traçado para depois que terminasse o curso: outras graduações, cursos, profissões, histórias, projetos etc. ao mesmo tempo em que bate certo ranço por não ter realizado algumas coisas que se pretendia, resta algo de nostálgico desses 20 e poucos anos em que sonhamos em ser tudo e conquistar o mundo.

(Atenção: a partir daqui contém revelações sobre o enredo)

Verônica, quando inicia seu período de residência depois do curso de Medicina, parece empenhada em construir um mundo diferente para cada um de seus pacientes, oferecer-lhes a possibilidade de ter uma vida diferente, sem doenças, preocupações ou infortúnios que lhes impeçam de seguir em frente com seus próprios sonhos. Porém, o cotidiano duro de um hospital público começa a fazer daquela médica recém-formada uma mulher um pouco infeliz com as escolhas que fez para si mesma, pensando talvez que, ao se ocupar dos problemas dos outros, fosse se esquecer de cuidar de si mesma.

Usa o sexo como uma forma de se alienar de si, como uma anestesia para sua própria existência, como se alterar seu estado emocional provocasse alguma mudança significativa dali por diante. Verônica encontra somente sua redenção quando entra num estado de purgação, de purificação, o que surge quando ela olha para o horizonte de expectativas que lhe aguarda, quando a água, imprevisível e moldável como somente ela se faz, chove no seu rosto e parece trazer algo de primitivo e pueril para uma vida tantas vezes cheia de protocolos.

Esta é a história de Era uma vez eu, Verônica (2012, Marcelo Gomes), em que o diretor se utiliza de um formato de diário mesclado às reflexões sobre diagnósticos para explorar os bastidores da vida de uma médica, mas, principalmente, para contar a trajetória dessa personagem que começa a desejar tratar as doenças da alma. Com uma trilha sonora sutil e uma fotografia que alterna os momentos solares com os soturnos, Gomes traz uma Hermila Guedes menos visceral e mais comum, com uma interpretação mais racional do que emocional. Por mais que seja uma experiência estranha e não traga a catarse que se espera, o longa faz refletir sobre o que estamos sonhando, o que nos faz falta de verdade... é um convite para conhecer ou reconhecer esse estranho que somos nós mesmos.

18/01/2013

Detona Ralph e a máscara da vilania


A grande vague de reciclagem oitentista vem dominando cada vez mais os produtos de mídia, gerando musicais como Rock of Ages, os últimos filmes de comédia adulta, como A Ressaca e Este é o meu garoto. Nesta esteira, temos este DetonaRalph (2012, Rich Moore), que além de apostar no universo dos games, o que já rende um amplo self service de possibilidades, demonstra apontar para algumas tendências que tem aparecido com frequência em filmes recentes: atrair crianças, mas também também a adultos que cresceram nos anos 80 e 90 com inúmera referências pop (cinessérie Shrek); apostar na inversão dos papeis de vilão e herói (Meu Malvado Favorito e Megamente) e apostar na ascensão dos excluídos / minorias como temática (série Glee e derivados).

Como um produto típico do seu tempo, Detona Ralph brinca ao fazer referência aos diversos gêneros e formatos dos jogos (dos clássicos 8 bits aos sofisticados jogos estilo CS e similares), mas sempre com foco na história: Ralph (John C. Reilly) é o vilão do jogo Fix It Felix Jr e não se sente mais confortável nesta condição, decidindo procurar outro jogo em que possa ser o herói, ganhando uma medalha pelos seus feitos. No desenrolar da história, ele encontra Vanellope (Sarah Silverman), uma garota que precisa vencer a corrida no jogo Sugar Rush para conseguir ser uma das personagens principais do mesmo. Como se vê, os jogos são visto como várias empresas dos quais os personagens são “funcionários”. Na galeria de personagens clássicos que participaram do filme estão Sonic, Bowser, M Bison, Ryu Ken, Noobi Saibooth e vários outros, contudo, o diretor não se limita a tornar seu filme uma homenagem a estes ícones da infância de tantos. Talvez o maior problema resida justamente na ausência de certa riqueza ao explorar estes personagens, pois a história em si apresenta poucas novidades, apesar de conquistar pela simplicidade e carisma dos dois protagonistas e por ideias como os movimentos bruscos dos 8 bits em alguns personagens do jogo Fix It e a personagem durona Calhoun (Jane Lynch).

Se a história em si apresenta poucas novidades, a direção de arte e a trilha sonora são alguns dos maiores destaques do longa, porque  investem em uma paleta de cores sortida que encanta os olhos e mostra versatilidade ao mostrar universos distintos por meio das formas (como a diferença entre o 8 bit e os jogos com alta resolução e o universo do Sugar Rush, por exemplo, que são diametralmente opostos), enquanto que as músicas investem na releitura de músicas típicas dos videogames oitentistas. Com todos os elementos, Detona Ralph não inverte definitivamente conceitos – e nem pretende –, mas agrada, investindo num discurso que questiona os papeis que a própria narrativa “impõe” aos seus personagens. Quando questiona seu papel dentro da caracterização de seu próprio personagem, Ralph está questionando o ato do narrador em lhe atribuir essa característica, ou seja, ela está problematizando sua própria condição, seu papel naquela sociedade e tirando, momentaneamente, a máscara do vilão para colocar a de herói.  

Quando nos lembramos de Christopher Vogler e seu famoso livro A Jornada do Escritor, vemos que ele trata dos arquétipos diversos (Herói, Sombra, Pícaro, Aliado etc.)  não como papeis estanques e vinculados a determinados personagens, mas como máscaras que podem ser trocadas e/ou divididas entre os mesmos, lembrando que assim o fazemos na nossa própria existência. Somos heróis de nossas próprias histórias, por mais, em alguns momentos, outros nos enxerguem como vilões e vice versa.

09/01/2013

As Aventuras de Pi entre a fé e a religião



O que é a fé? Essa palavra tão curta nos liga a diversas discussões e sentimentos por séculos a fio, causando aproximações e guerras entre os homens. Quando assistimos a As Aventuras de Pi (Ang Lee, 2011), começamos a repensar o modo como as instituições religiosas começaram a tomar o lugar da fé genuína, aquela que nasce com o instinto humano de acreditar em qualquer instância que, de algum modo, lhe ofereça respostas às perguntas  universais: “o que estamos fazendo aqui?”, “quem somos?”, “para onde vamos?”... e assim por diante. E não somente para responder perguntas, mas, principalmente, para trazer a sensação de paz que o religar o homem a um estado de equilíbrio primordial para se viver bem. A fé ultrapassa as instituições que se preocupam mais em categorizar a fé e, dessa forma, domá-la dentro do espaço do cotidiano.
E o que há de especial na história de Pi Patel que revela estas nuances ao público? Ang Lee adapta o romance de Yann Martel para contar a história do menino indiano que morou a vida toda num zoológico e, dentro dele, começou a desenvolver sua fé em três das principais religiões da humanidade – hindu, cristã e muçulmana. De repente, este meso se vê na encruzilhada de ter de ir morar no Canadá por conta dos problemas financeiros que seu pai está enfrentando. Durante a viagem, acontece um naufrágio e Pi precisa sobreviver dividindo um pequeno bote com Richard Parker, um orangotango, uma hiena, uma zebra e um tigre, enfrentando, além da fúria deste último, a fome, a tempestade e a natureza.
Quanto ao roteiro do longa, ele dosa com qualidade certo humor, delicadeza e momentos mais dramáticos, tendo como ponto fraco somente o fato de trazer alguns personagens que não são usados em seguida – como a menina por quem Pi se apaixona, por exemplo. Com uma paleta de cores belíssima, a fotografia, a direção de arte e os efeitos especiais de Pi mostram-se os principais destaques do longa, compondo belíssimos quadros para os olhos do público. Enquanto isso, a edição aposta nas fusões que trazem à narrativa certa lentidão: se o começo do filme parece meio confuso pelo excesso e velocidade das informações, os momentos pós-naufrágio, creio eu, excedem-se na tentativa de trazer essa sensação de dias passados. Isto termina cansando o espectador em certo momento, mas quando longa se aproxima do final, ganha mais corpo e velocidade, chegando à tranquilidade e às emoções contidas do desfecho com a típica tranquilidade oriental.

(a partir daqui contém spoilers)

Quanto ao final do longa, com certeza, ele é o que rende maiores discussões pós-sessão, visto que não contente em fazer o relato de uma história de perseverança e sobrevivência, Ang Lee faz seu protagonista contar outra versão da história para os investigadores que lhe visitam no hospital – na verdade, não existem zebra, tigre, hiena ou orangontango, mas eles representam os humanos que teriam sobrevivido no barco junto com  Pi –, mas eles, na verdade, não passam de uma parábola sobre como o medo nos ajuda a superar adversidades. Atravessar o desconhecido nos faz conhecer mais a nós mesmos e realizar coisas que não imaginávamos, ou seja, conhecer mais o deus, as virtudes que existem dentro de nós mesmos. Quando escolhemos acreditar na história do tigre, estamos escolhendo a história que nos inspira, que nos leva para mais perto do que há de melhor em nós e, assim, um pouco mais perto de Deus.
Em suma, em Pi, ter fé não significa repetir ritos de forma mecânica como um meio de alcançar algum alívio de culpas absorvidas pelo discurso de outrem, mas quer dizer acreditar na sua força interior e na sua relação com a natureza, na experiência que um belo pôr-do-sol pode proporcionar para os olhos da alma, que o amor que pode curar feridas antigas... Que aquilo é eterno, muitas vezes, está no efêmero da nossa existência.

01/01/2013

A performance do existir em Holy Motors



Depois de uma sessão de Holy Motors (idem, Leos Carax, 2011), parece uma tarefa complexa tentar delinear o eixo de discurso que o diretor propõe em sua obra enigmática, mas justamente por essa conexão densa e intrincada de charadas que se mostra a habilidade de Carax.  O longa acompanha um dia na(s) vida(s) de Oscar, que transia entre vários papeis ao longo deste dia, sendo sempre conduzido em sua limusine por Céline, sua motorista. Nomear o trabalho de Oscar como performer seria deveras simplista, visto que as intervenções que este sujeito realiza atravessa a existência do seu público, que está entre ele e interage com ele de forma concreta.
A partir destas conjeturas, pode-se pensar: o que, de fato, pode ser considerado performance? Onde ela começa e termina? No momento em que estou escrevendo esse texto, não estou assumindo um determinado papel que me imprime certos dogmas, regras e condutas de forma consciente ou não? O que me distingue de Oscar é que ele doou deliberadamente sua existência em favor dos papéis que trabalha arduamente para interpretar, enquanto que eu os exerço com o mesmo nome, a mesma idade, o mesmo rosto, o mesmo corpo, a mesma alma.
Quando nos permite realizar este tipo de reflexão, Carax problematiza não somente o que entendemos como arte e existência e as nuances entre uma e outra dentro do filme, mas também nosso papel enquanto espectadores. O que estou vendo? Porque estou vendo? O que me leva a, conscientemente, conduzir-me a uma sala escura e iludir-me com as narrativas que estão impressas na tela grande? Que objeto de fascínio é este que se encontra na tela? Qual a função da ilusão pra mim? Iludimo-nos ao nos projetar no Outro, nesse protagonista que, na tela, podem ser os tantos em que Oscar se traveste – o assassino, o pai, o empresário, o louco etc. – por talvez desejarmos, por um par de horas, sermos outros que não nós mesmos. Seja belo ou grotesco, ou até mesmo extremamente comum, ser um Outro nos fascina.
Com um Denis Lavant que domina a tela com sua atuação visceral, uma fotografia que explora tantos os coloridos como os tons soturnos, uma trilha que ressalta as emoções do longa sem se sobressair, Holy Motors apresenta ainda uma montagem dinâmica que acerta ao não fazer o filme se perder por seu caráter episódico. A sensação e a beleza de estar em movimento – não somente pelo carro, mas pela própria vida – pulsa sem exageros e de forma fluente, com sua dialética entre o ser efêmero e eterno até o questionamento final: quem está vivo, afinal?

10/03/2012

Aprendendo a domesticar-se em Dimanche



Crescer em sociedade nos exige diversas coisas - capacidade de falar e ouvir, aprender etc -, mas provavelmente a maior habilidade que precisamos conviver é a de domesticar o nosso id. Abdicar de determinados desejos nos torna mais afáveis para o outro, claro, já que abrimos espaço para que esse outro entre e se estabeleça. Mas essa renúncia pode chegar num ponto em que deixemos de nos importar com qualquer coisa que nos dê prazer genuíno e nos limitamos a vidas miúdas, que nos conduzem ao mesmo lugar todos os dias.

Assistindo Dimanche (idem, 2011, Patrick Doyon), vejo linhas infantis e ingênuas em contraste com as cores mortas e penso: "Será que uma criança desenharia desse jeito? Jamais! Onde estão as cores da alegria desse rapazote?" Mas é justamente sobre isso que Doyon quer nos comentar: a melancolia de uma infância que, aos poucos, aprende a ignorar sua imaginação e seus sonhos mais íntimos em favor daquilo que é mais prático ou "real". O ritmo lento que o diretor imprime sobre sua narrativa ajuda a dar dimensão a essa relação de tempo esticado, assim como as desproporções entre o trem gigantesco que atravessa a pequenina cidade sem saber o que existe pela frente tornam concreta a sensação de "nanoexistência" daquelas pessoinhas.

Um curta agradável e que faz pensar. O que acham?


26/02/2012

Os traumas coletivos em Tão Forte e Tão Perto


Traumas coletivos sempre conduzem a uma repetição sem fim de histórias. Basta perguntar quantos filmes temos sobre o Holocausto, a Primeira Guerra Mundial ou sobre a ditadura militar no Brasil. Sempre aparece um novo ponto de vista sobre uma história antiga, o que às vezes cansa o espectador: “Por favor, criem uma Terceira Guerra para que parem de fazer filmes sobre a Segunda!”. Uma onda que começou no cinema independente – sempre ele – e que, aos poucos, está passando para o mainstream são os filmes sobre o 11 de setembro. Tivemos Vôo United 93, Torres Gêmeas de maneira mais direta e outros que trataram do tema de maneira mais subliminar.

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, 2012, Stephen Daldry) aproveita-se do sucesso que o livro vem fazendo para trazer às telas a história de Oskar, um menino que perdeu seu pai na tragédia e embarca em uma aventura pelos bairros da cidade por causa de uma chave que ele encontrou no armário. Afeito às investigações, Oskar começa a conhecer histórias das pessoas que encontra em sua empreitada, mas, ao mesmo tempo, afasta-se emocionalmente de sua mãe, sempre meio ausente quando observamos as lembranças que vemos que o menino tem do pai.

Equilibrando passado e presente, assim como as diversas histórias com que o rapaz entra em contato ao longo da narrativa, Daldry torna enredo e direção dinâmicos, assim como conduz sabiamente seu elenco, com especial atenção de Max Von Sydow e Viola Davis – esta que, a cada filme, firma-se mais como uma das melhores atrizes da atualidade. Sua única falha creio eu seria escalar Sandra Bullock como a mãe do menino, já que, quando a vemos na tela ausente em boa parte da narrativa, perde-se um pouco da surpresa, pois o espectador já prevê que ela terá um papel fundamental em algum momento. O filmes não excessivamente clichê e consegue capturar bem o espírito metódico e agitado do menino, às vezes, colocando o espectador dentro da mente do menino. É um filme que fica num meio termo entre filme infantil e adulto, mas que jamais causa incômodo por isso, pelo contrário, emociona e surpreende. Talvez um filme feito para crianças como Oskar, cansadas de histórias de sonhos e mais calcadas na realidade, mesmo que seja um filme menor de Daldry.

O Artista e a estética da limitação


Durante a sessão de O Artista (The Artist, 2011, Michel Hazanavicius), lembrei-me de uma conversa que tive com um amigo meu, que me falava sobre um aplicativo de celular que dava às fotos que se tirava com ele um aspecto semelhante às antigas câmeras soviéticas LOMO. Diante disso, ele conclui que o que antes era uma limitação das máquinas fotográficas terminou se tornando um estilo, possuindo uma estética particular e reconhecível.  O mesmo acontece com o cinema mudo, como iremos ver a seguir.

Esse filme versa sobre George Valentin, um ator de cinema mudo que se recusa a aderir ao cinema sonoro, que, na verdade, provocou a ascensão de outros artistas que revelaram outras habilidades diante da tela: canto, dança e belas vozes. Uma destas artistas é Peppy Miller, que se antes era objeto de afeto do protagonista, termina se tornando sua salvação, ao usar de seu prestígio para permitir que George suba novamente na carreira.

Com esse enredo simples, encontramos o clássico Cantando na Chuva, que partia do mesmo pressuposto, mas era, antes de tudo um musical, fazendo da proposta de Michel Hazanavicius ainda mais ousada. Afinal, quem assistiria a um filme mudo e francês no cinema hoje em dia, excetuando-se as sessões de Chaplin, Keaton e Lloyd em festivais de cinema por aí afora. E o trabalho de direção é notável, pois consegue empregar todos os elementos característicos deste cinema a seu favor: as cartelas com os diálogos, a interpretação pantomímica dos atores (algo raro até mesmo no teatro, que tem procurado uma estética cada vez mais realista), a trilha sonora onipresente e quase ilustrativa e a montagem que deixa os planos durando mais tempo do que nos acostumamos.

Todos esses elementos reproduzem bem o estilo da época e criam no espectador uma viagem a uma época que não existe mais, onde o cinema era mais inocente, em que nossas únicas preocupações eram contar histórias. Por mais que pareça uma experiência mais estética do que propriamente de entrar em contato com um conteúdo novo e com pouco a oferecer, depois de sair da sala de cinema, passei a prestar mais atenção nos sons à minha volta, assim como a uma arte que, durante muito tempo, terminou se tornando mais do mesmo pra mim. Lembrar dos momentos em que, aos dez anos de idade, descobri Chaplin num especial da Rede Globo de 1995foi uma grata experiência.

Tudo pelo Poder - Um estudo de personagem




Desde os primeiros minutos de Tudo pelo Poder (The Ides of March, 2011, George Clooney), sabemos que se trata de um filme sobre os bastidores da política, mais especificamente, sobre as eleições primárias entre dois candidatos, Morris e Pullman. Como não sou uma pessoa tão conectada à política, sempre fico meio pé atrás com enredos políticos, pois sempre acho que não entenderei nada do que estarei assistindo, mas interessante é perceber uma dúvida: não sei se fui eu que amadureci ou se Clooney conseguiu tornar os jogos políticos mais claros, por que Clooney trata tudo de maneira muito objetiva e clara.

Desde que começou a dirigir, Clooney sempre toma atitudes bastante sábias, mas uma delas sempre foi essencial: ele sempre soube escolher elenco e soube conduzi-lo da maneiras mais natural e humana, enquanto que escolhe os roteiros menos óbvios, geralmente optando pelo estudo de personagens. Foi assim com Confissões de uma mente perigosa, com Boa Noite e Boa Sorte e acontece nesse Tudo pelo Poder, ainda que em uma escala menor que seus longas anteriores. O roteiro tem diálogos excelentes e uma trama que se configura como um estudo contemporâneo sobre a lealdade – ou a ausência dela.

O grande trunfo do filme tem nome e sobrenome: Ryan Gosling, que, assim como Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman, não surpreende mais o espectador. Sempre que vemos seu nome no cartaz, temos a certeza de encontrar uma atuação excelente, independente do tamanho do papel que interpretar. E ele consegue ser um personagem que nos cativa desde o primeiro momento - esperto, inteligente e talentoso -, o que dá  a Clooney a ferramenta ideal para transformar o personagem no que quiser e fazer com que espumemos de ódio ou pena, e, ainda assim, trate esse trajetória com coerência.

Missão Madrinha de Casamento: Comédia de Fêmea?


“Comédias de macho” sempre povoaram a cinema, particularmente o público adolescente que ansiava por histórias sobre perda de virgindade e muita curtição, mas o público adulto tem conseguido, nos filmes de Judd Appatow atingir a esse público, que são os adolescentes crescidos dos anos 80. Filmes como Se Beber, Não Case, Penetras Bom de Bico vem atender a um público específico, mas ainda faltava às mulheres terem filmes que falassem do seu universo de forma menos açucarada, como Sex and the City.

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011, Paul Feig) surpreende justamente por ser um filme que lança um novo tipo de produto nesse mercado: comédias grosseiras com doses muito fortes de “vergonha alheia” para e com mulheres. O romance da vez não é entre a mulher independente e o sujeito arrogante, mas entre duas amigas, Annie e Lilian. Quando esta anuncia que vai se casar, a amiga logo fica com inveja, mas apoia sua amiga em todos s momentos, mas também passa a competir com outra candidata a melhor amiga, Helen, que planeja como ninguém os casamentos de suas amigas. A partir desse mote simples, o roteiro destrincha não somente situações hilariantes, mas principalmente, personagens completamente opostos que se complementam. Por mais que sejam estereótipos de mulheres – a grosseirona, a rancorosa, a Disney, etc. -, Wiig assume esses estereótipos e destila bastante escatologia na amizade feminina, algo mais frequente na cinematografia masculina.

Esse roteiro corajoso e um elenco soberbo se torna o maior destaque do longa, já que cada uma delas assume seu estereótipo com unhas e dentes, formando um elenco divertidíssimo. Melissa McCarthy, interpretando Megan,             que, se no momento em que entra na história, parecia uma lésbica que daria em cima de Annie, com o tempo vai se tornando um personagem mais presente e essencial para o crescimento do filme. A atriz se destaca dentre todas as outras, mostrando o porquê de sua indicação ao Oscar em um ano mais fraco para coadjuvantes. Uma boa pedida para um sábado à noite entre garotas.

Histórias Cruzadas - Déjà vu? Sim, com certeza!


Vimos essa história diversas vezes: uma pessoa decide lutar pelos direitos dos negros, com discursos contra a segregação racial e toda sorte de preconceitos que possam existir, com músicas triunfantes e toda a receita do bolo. E, claro, Histórias Cruzadas (The Help, 2011, Tate Taylor) não poderia ser diferente: Skeeter é um jovem sulista que consegue um emprego em um jornal da cidade e, com a convivência mais próxima com as empregadas negras Aibellin e Minny, tem a ideia de escrever suas histórias num livro chamado The Help – “a ajuda”, como os empregados são chamados (“uma ajuda no lar”). Mas as histórias desagradam às patroas, que logo se reconhecem nas narrativas do livro e fazem de tudo para pôr um ponto final na confusão que a revelação das mesmas pode promover.

Dito dessa forma, não parece uma história com grande potencial, já que existem tantas como essa em telefilmes espalhados pela televisão norte-americana, assim como parecia um bocado ultrapassado resgatar “filmes de racismo” quando esse parece ser um assunto ultrapassado. A eleição ao primeiro presidente negro nos EUA com certeza foi um passo histórico, mas ainda precisamos nos lembrar de onde viemos, pois nunca se sabe quem será o ‘bode expiatório’ da vez: os árabes, quem sabe. Tate Taylor, apesar de não conseguir fugir da fórmula de filmes edificantes, escreve o roteiro – com excessos que poderiam ser retirados com ajuda de um roteirista assistente - e dirige um longa que consegue extrair o máximo de seu elenco multifacetado.

Vinda das comédias românticas e de alguns filmes menos convencionais, Emma Stone fundamenta seu chão em Hollywood e pode se tornar anova Anne Hathaway, que começa com no romance e começa enveredar pelo drama. Enquanto isso, Viola Davis se firma como uma das maiores atrizes da atualidade, sempre fazendo um bom trabalho mesmo nas menores participações, principalmente nos minutos finais, quando Taylor sabiamente deixa a câmera estática por alguns segundos, capturando a reação de sua personagem a uma notícia decepcionante em certo momento da narrativa. Ela e Octavia Spencer dominam a tela, construindo figuras cativantes não pela tragédia, mas pela força e simpatia que demonstram ao longo de sua trajetória. Mas claro que a maioria branca consegue ter duas atrizes de peso, mas que jamais ofuscam suas estrelas principais: se Bryce Dallas Howard ganha nosso ódio em cada fotograma, com certeza Jessica Chastain se transforma completamente desde os primeiros segundos, não deixando nenhuma pista de seu trabalho denso e dramático em A Árvore da Vida. Não assista esse longa pensando que vá mudar o cinema ou a si mesmo, mas assista-o para observar esse elenco belo e coeso contando uma história antiga.

De Repente, Califórnia e o ir além do "final feliz"




As histórias de amor homossexuais, se antes eram uma raridade, tem povoado cada vez mais o cinema – vide O Segredo de Brokeback Mountain, Meninos não Choram, Amigas de Colégio e tantos outros. De coadjuvantes simpáticos, eles estão passando a protagonistas, gerando um gênero e fórmula próprios, assim como as comédias românticas: garot@ conhece garot@ e se aproximam, um(a) está atraído(a) e o (a) experimenta um beijo ou uma noite de sexo. Depois, este(a) se arrepende e dizem que a experiência não pode se repetir, mas o amador não resiste e, depois de muito tentar, termina voltando e assumindo a relação.

Em De Repente, Califórnia (Shelter, 2009, Jonah Markowitz), estamos em San Pedro, bairro mais pobre e feio que a glamourosa Los Angeles, em que Zach divide o apartamento com sua irmã, Jeannie, Cody, filho dela, e seu pai e precisa lidar diariamente com a frustração de não ter ido para a escola de artes que fica na cidade grande com os problemas no relacionamento com Tori. Com a chegada de Shaun, irmão de seu melhor amigo, Gabe, para passar umas semanas surfando e se recompondo de um relacionamento frustrado na cidade, Zach conhece um amor até então desconhecido para ele: Shaun parece ser a única pessoa que acredita no potencial que ele tem como artista.

Ao assistir ao filme, tenho me dado conta do quanto o cinema independente norte-americano está anos-luz adiante na representação do homossexual, quando vemos dois rapazes surfistas sem quaisquer trejeitos efeminados compondo um casal cativante. O casal cativa o espectador, com o discurso de que maior dificuldade para o casal homossexual reside em assumir a relação. Entretanto, o      que falta a esse longa é um pouco menos “conto de fadas”: as relações homossexuais passam pelos mesmos problemas de qualquer outra e ainda faltam filmes além do felizes para sempre.

Alguns exemplares além do “final feliz” têm aparecido, como Minhas Mães e Meu Pai e Como Esquecer, já que nossa tendência é ficar cada vez mais maduros e enxergar o mundo de maneira menos Disney possível. Não que a sessão de Shelter tenha sido ruim, mas, com certeza, por mais que precisemos dessa ingenuidade para sonhar com um belo dia na praia onde se possa andar de mãos dadas com o ser amado, ainda necessitamos de um pouco mais para sobreviver nesse mundo.

A ingenuidade piegas de Cavalo de Guerra



Com o passar dos anos, nós, como público, acostumamo-nos a conhecer duas faces de Spielberg: aquele que conduz a arte e diversão no cinema para frente com filmes adultos e aquele que faz filmes planejados para ganhar o Oscar. Foi o primeiro Spielberg que fez Minority Report, Jurassic Park, Munique e O Resgate do Soldado Ryan, mas foi o segundo que fez Amistad e este Cavalo de Guerra (War Horse, 2011).

O enredo é básico: família em dificuldade financeira precisa comprar um cavalo para arado, mas o pai afeiçoa-se a um cavalo jovial e rebelde      que não serve para esse tipo de serviço. Endivida-se, mas seu filho, Albert, adota  cavalo como seu, dando-lhe o nome de Joey e o ensina a arar até que o pai, para pagar uma dívida com seu senhorio, precisa vender o cavalo para o exército diante da explosão da Primeira Guerra Mundial. Joey, então, passará por vários donos: soldados ingleses, soldados alemães e até uma menininha órfã, até que consiga encontrar novamente seu dono.

Atenção: a partir deste trecho, existem revelações sobre o enredo.

Sem trazer nada de novo no quesito roteiro, Spielberg aproveita para investir na direção de arte, na fotografia, na trilha sonora e conseguem dinamizar uma história que poderia ser bastante maçante, não somente pelo tema ultrapassado, mas também pelo caráter episódico do enredo. Ainda por cima, ele consegue emocionar em alguns momentos, como na cena em que o cavalo fica preso em arame farpado e, dessa forma, promove até uma trégua entre os inimigos de guerra e o final, em que Joey e Albert chegam de volta à fazendo em um pôr do sol que relembra os clássicos de Hollywood em Technicolor.

Em suma, mesmo que seja mais do mesmo, não se pode negar que Spielberg sabe mesmo o que fazer por trás de uma câmera. Depois de tantas obras relevantes, podemos lhe dar a chance de fazer obras para atender ao mercado e, de quebra, emocionar plateias mais ingênuas.

Albert Nobbs e as identidades que vestimos



O que nossos nomes dizem sobre nós? Será que é a forma como nos vestimos e conduzimos nossas vidas que, de fato, definem quem somos nós? Ou somos muito mais do que os signos que empregamos para comunicar quem somos? Nesses últimos meses, entrei em contato com dois bons filmes – A Pele que Habito e este que comento - que discutem a questão da identidade e como procuramos defini-la a partir de parâmetros, nomenclatura, gêneros sexuais: homem, mulher, homo, hetero, trans, bi, etc. Têm surgido tantas camadas da sexualidade humana por que somos seres tão complexos que não conseguimos caber em todas as estantes que criamos para conseguir nos compreender.

Atenção: A partir deste ponto, temos revelações sobre o enredo.

Albert Nobbs (idem, 2011, Rodrigo Garcia) trata da história do mordomo que dá título ao filme, que, na verdade, é uma mulher que se transveste como homem para manter seu emprego e conseguir montar seu próprio negócio e família a partir do dinheiro que economizar. Durante seu trabalho no hotel da Sra Walker, Nobbs precisa dividir o quarto por uma noite com Sr Page,    que, assim como ele, também é uma mulher disfarçada de homem e com quem o mordomo passará a confidenciar seus anseios de casar com uma mulher e montar uma tabacaria.

Interessante como em certo momento da narrativa, quando Sr Page pergunta a Nobbs seu nome verdadeiro – ou o nome de mulher -, ele responde: “Albert”, percebemos que se trata de um filme sobre identidade, mais do que sexualidade. Não sabemos se Albert se habituou a ser homem ou se desejou sê-lo sempre, mas o importante é que, para ele, tudo isso se tornou um caminho sem volta, uma máscara que se misturou não somente ao seu rosto, mas à sua alma. Neste trabalho, Glenn Close e Janet McTeer transmitem tamanha verdade em seus personagens que, por vezes, esquecemos que são mulheres e nos permitimos acompanhara a trajetória de duas pessoas na tela. Tudo o mais – figurino, cenografia, fotografia, trilha sonora etc – adequam-se à proposta, mas jamais se sobressaem.

A Invenção de Hugo Cabret e o redescobrir o Cinema


Esse longa, junto com O Artista, pode ser descrito como uma das maiores das homenagens ao cinema deste ano que se inicia, ainda mais pelo cineasta que se consagrou como um dos maiores artistas da sétima arte nos anos 70, quando nomes como Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas começavam a crescer.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011, Martin Scorsese), à primeira vista, tem um enredo incomum para o diretor de Cassino, Caminhos Perigosos e Taxi Driver: Hugo é um rapaz órfão que mora no relógio da estação de metrô e que precisa das peças dos brinquedos do comerciante George para reconstruir um autômato deixado para ele por seu pai, morto no incêndio da relojoaria em que trabalhava.Diversas reviravoltas acontecem até percebermos a homenagem que a narrativa oferece ao próprio cinema, permitindo-nos enxergar no diretor tamanha esperança na capacidade de sonhar.

Com esse filme, é possível ver Martin como uma criança que se fascinou desde cedo pelo cinema, como o próprio Hugo, cuja missão se tornou compartilhar sonhos e realidade com as outras pessoas. O elenco é simplesmente OK, não tendo grande destaque no filme, que, por sinal, se arrasta em certos momentos, mas os outros elementos tomam em cheio o espectoador: a trilha sonora, a direção de arte belíssima, a edição fluida, assim como o 3D que nos ambienta nos espaços por onde os personagens caminham.

Entretanto, é triste perceber que essa grata experiência de ver uma homenagem tão bela e ingênua como uma forma de apresentar o início da arte cinematográfica a plateias mais jovens provavelmente seja algo sofisticado demais para plateias acostumadas à pipoca, ao refrigerante e aos bonecos de Transformers e Avatar. Serão poucos os que, depois de assistir ao filme, pesquisarão no Google quem foi George Meliés ou se interessarão pelos seus filmes, em comparação àqueles que pedirão aos pais os bonecos de Toy Story 3. O que fizemos com nossa capacidade de sonhar?

A Dama de Ferro - O que é dirigir um filme?


Depois de assistir a esse filme, tive sérias dúvidas sobre o que seria dirigir um filme, sobre que tipo de experiência um diretor deseja proporcionar àqueles que estão na tela: se seria tensão ou incômodo para alguns ou alegria e superação para outros. No caso deste A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011), saí completamente esvaziado. Sim, não consegui ter qualquer experiência agradável ou desagradável diante das intermináveis duas horas de projeção, além de perceber o quanto Meryl Streep esforçava-se para trazer verdade para todos os clichês motivacionais que o roteiro e a direção esforçavam-se por destilar a cada frame.

Mesclando passado e presente, a trama versa sobre a ex-Primeira Ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher, sua ascensão, anos de governo e decadência pós-governo, focando basicamente na frustração da senhora em se sentir inútil diante da velhice. Entretanto, a experiência torna-se pavorosa por que tanto roteiro como direção são ineficientes em dinamizar ou trazer qualquer arco dramático para a narrativa de Thatcher, que tanto potencial tinha para render um bom filme. Com enquadramentos e montagem equivocados, Lloyd só não consegue fazer deste filme um erro completo por que tem como trunfo a dama de Streep enchendo a tela de força e frustração em suas duas fases.

Com certeza, faltou à diretora impregnar-se dessa história e saber como transmiti-la para o público. A dama de ferro ainda nos deve um filme à altura de sua grandiosidade.