16/11/2010

Janela Crítica - BRA 03 – Quanto Vale um Rosto


Mensurar um valor específico para se pagar para usar ou simplesmente observar um corpo pode ser considerado tarefa ingrata, mas algo que certamente temos feito com mais freqüência do que imaginamos, como demonstra o Programa 03 desta Mostra Competitiva Nacional.

Iniciando com o curta Ensaio de Cinema (Allan Ribeiro, 2009), um cotidiano caseiro de dois homens toma fôlego e êxtase quando a criação cinematográfica toma conta daquele ambiente, onde um se permite ser “filmado” e outro vasculha a imagem do outro em um ensaio caloroso em imagens e sensações. Uma bela fotografia que torna estes dois personagens quase palpáveis diante da tela, assim como diálogos que privilegiam a naturalidade de um amor desmedido pelo cinema – com referências a mestres como Antonioni, Bertolucci e Loach.

Em contrapartida, encontra-se em Cynthia (Marcelo Toledo e Paolo Gregori, 2010) a sucessão dos dias de uma mulher obrigada a estipular um preço para seu próprio corpo, trabalhando como manicure e garota de programa a fim de estudar dança no Japão. Belos ângulos e interpretações naturalistas bem compostas fazem deste curta um retrato doloroso e dramático de um cotidiano que aprisiona e parece cegar aqueles que nele se estagnam, mesmo possuindo o desejo de ir embora. Ao final do curta, em uma cena singular, Cynthia, com seu corpo pintado de branco e usando peruca verde, realiza uma performance para o espectador, demonstrando toda a dor de ser considerada mercadoria barata, objeto sexual. O espectador, então, se surpreende chorando por uma mulher igual a tantas outras, mas que se decompõe diante dele, como um pedido de misericórdia.

Finalizando o programa, Permanências (Ricardo Alves Junior, 2010) propõe estabelecer relações de semelhança entre as paredes desgastadas de um prédio em Minas Gerais e os rostos degradados de seus habitantes, mas, com o desenvolver do curta, um novo elemento torna-se chave para este relacionamento: a câmera. Considerada intrusa naquele meio, ela parece constranger o olhar de seus objetos de afeto, por parecer “impiedosa” no seu registro de todos os detalhes que percebe. Enquanto os personagens ocultam seus olhares da análise – talvez fria, talvez emocionada – do espectador, este também se constrange de ter pago um ingresso por uma expressão cujo valor é impossível limitar ou definir.

Com estes três excelentes trabalhos, o programa Quanto Vale um Rosto encerra uma mostra que se equilibra entre o êxtase e a reflexão, que dilui emocionalmente seu espectador tão anestesiado pelo consumismo e culto corporal do dia-a-dia.

15/11/2010

Janela Crítica - INT 05 – Estados Alterados


Quando se fala em alteração de estados, pode se pensar em estados físicos – sólido, líquido e gasoso -, o que também pode ser pensado em estados emocionais, quando pensamos estar mais firmes ou alucinados de acordo com o momento.

Uma sensação de estranhamento permeia o primeiro curta do programa - A history of mutual respect (Gabriel Arantes e Daniel Schmidt, 2010) conduz o espectador por uma história onde o desrespeito não se esconde através de atitudes polidas e falsas, mas emerge das relações de suserania e vassalagem que os personagens exercem. A ironia e o paradoxo constituem um ponto-chave do roteiro através de diálogos ao mesmo tempo filosóficos e preconceituosos, fortalecidos por meio de imagens inquietantes e belas – como a perseguição do homem branco nu à nativa desprotegida pela floresta na tentativa de miscigenar e perpetuar sua raça naquele lugar.

Propondo um olhar mais absurdo e cômico sobre as sensações, Floating Head (Ben Dickinson, 2010) flerta com os filmes fantásticos trash utilizando efeitos especiais toscos para trazer à tona diferentes relações que possuímos com o desconhecido: medo, rejeição, falta, anseio, amor, aceitação. Tudo isso demonstrado da maneira mais esdrúxula e divertida possível, ainda que de maneira rasa.

Indo na direção oposta ao trabalho anterior, ao criar uma mitologia muito simbólica e hermética para lidar com sentimentos como perda e morte, o curta If there be thorns (Michael Robinson, 2009) não consegue uma comunicação ampla com o espectador por centrar-se em um universo extremamente denso e intrincado. Uma obra para se ver uma vez para ser sentida, mas para se rever para ser compreendida.

Voltando ao ar debochado, a paródia dos filmes trash, o curta Health – We Are Water (Eric Wareheim, 2010) mescla linguagem de HQs e clichês do filme de horror – em slow motion, uma garota corre por uma floresta, sendo perseguida por um assassino –, mas propondo uma distorção que o eleva ao escracho total dos slash movies. Uma montanha russa de emoções - do medo ao riso – cujo único propósito é divertir.

Por sua vez, a narrativa linear de Jesusito de mi vida (Jesus Perez-Miranda, 2009) expõe a relação de uma criança com a religião: pouco antes de dormir, um menino sente vontade de ir ao banheiro, mas, por ter medo do escuro, reza a Jesus para que Ele tire sua vontade de urinar. Enredo, direção e interpretação coesos e sutis em uma obra mais esquecível do que tocante.

Caminhando na contramão dos trabalhos anteriores, com a técnica de animação impressionante, Dot (Sumo Science, 2010) lança seu espectador em êxtase para um mundo de aventuras que acontece num cesto de novelos, agulhas e retalhos, gerando um retrato alucinante e imaginativo das possibilidades infinitas da arte cinematográfica.

Propondo um olhar mais reflexivo e empregando belamente uma fotografia em preto e branco e elementos de teatro de formas animadas, El Paraiso de Lili (Melina Leon, 2009) tem como protagonista uma garota que começa a se revoltar com “sistema” que governa o Peru de 1988. Singelo e sincero, ainda que pareça um curta perdido, quando se pensa na temática do programa.

Finalizando a mostra internacional, o curta Fear Thy Not (Sophie Sherman, 2010) mostra o percurso de uma mão que guia seu corpo rumo ao desconhecido, cantando uma música como se fosse uma âncora de segurança em meio à escuridão. Um cinema que trata de sensações quase táteis, ainda que pouco desenvolvido.

A alteração dos estados emocionais proposta pelo programa parece ir além das temáticas das histórias que estão sendo contadas, mas permear a experiência cinematográfica do público daquela noite, que se percebia com uma variedade de sensações – riso, tristeza, medo, reflexão, êxtase etc – em poucos minutos.

Janela Crítica - BRA 06 – Estamos Todos Juntos


Refletindo sobre laços familiares feitos ou desfeitos, o programa incluiu curtas que empregavam diversas técnicas a fim de trazer à tona sentimentos como saudade, compreensão e até humor. Todos eles, conectados de alguma forma à relação da infância com o protótipo de mundo que encontra no microcosmo do seu lar.

Ensolarado (Ricardo Tagino, 2010), o primeiro curta da noite, versa sobre a trajetória de uma menina que mora no sertão castigado pelo sol, cujo desejo de fugir para um lugar diferente e a descoberta de uma forma de fazê-lo procuram ocultar o que está mais evidente na narrativa: a saudade que se seguirá após a partida da menina para outro lugar. O trabalho com não-atores traz um frescor e uma veracidade imensa ao curta, ao contrário do emprego das cores desbotadas e dos close-ups extremos, que oferecem, paradoxalmente, uma textura árida que enfatiza o discurso da obra.

O segundo curta-metragem – Avós (Michael Wahrmann, 2009), que já havia sido exibido na noite de abertura – trata das relações entre um neto e seus avós: um olhar carinhoso e compreensivo sobre aquelas pessoas que parecem tão confiantes e tão frágeis ao mesmo tempo. Uma direção forte sem ser invasiva e um roteiro que toca pela sutileza com que aborda um relacionamento distanciado no tempo, mas não na presença física. Enquanto que, na abertura, seu foco pudesse ser a relação de amor com o cinema e a possibilidade de olhar para si mesmo, quando o vemos neste programa, privilegia a observação das relações de afeto que existem naquela casa, ainda que veladas.

Da melancolia do curta anterior, parte-se para a descontração do registro de um dia de brincadeiras em Perto de Casa (Sérgio Borges, 2009) -, onde podemos observar a espontaneidade da criança, que vê naquele monte de areia a infinitude do universo e muito mais: um modo de lidar com as surpresas que encontramos e os desafios que propomos a nós mesmos, mesmo que seja somente brincar pelado. Um trabalho que seria facilmente encontrado em sites como Youtube®, mas que ganha neste programa um status de arte do cotidiano, de liberdade criativa nos momentos prosaicos.

Retornando a um painel mais dramático das relações familiares, o público se emocionou com um curta sobre uma saudade de quem não se conhece, sobre uma tentativa de idealizar para si uma mãe, a partir de um punhado de cartas. Assim se pode definir o trabalho da criadora de Querida Mãe (Patrícia Cornils, 2009), um registro audiovisual da busca engendrada por ela pela história de sua mãe, Zélia Maria. Mesmo que, de início, caminhe um pouco confuso – pela construção pouco fluente entre leituras de cartas e depoimentos -, o espectador acompanha sua jornada até um momento-chave, quando a diretora chora durante a locução de uma das cartas e acontece uma empatia imediata: a descoberta de uma vida anterior a si mesmo e a possibilidade de compreender seu lugar no mundo tocam profundamente o público presente.

Finalizando a noite com uma animação que emprega a técnica de rotoscopia, o curta Balanços e Milkshakes (Erick Ricco e Fernando Mendes, 2009) oferece ao espectador uma história terna que exibe o desabrochar de um relacionamento entre duas crianças. O diretor consegue ir além do que as imagens lhe propõem e, se, em alguns momentos, a narração parece confusa e redundante, é por que ela deseja conduzir seu público pela construção daquela poética infantil da maneira mais clara possível.

Ainda que pareça ter sido pensado no relacionamento de núcleos de parentesco, este programa une todas aquelas histórias em uma única biografia: a do universo, onde todos nós - crianças, avós, mães, pais, irmãos, amigos, parentes distantes etc – estamos juntos na construção de um universo que se estende além de nós mesmos e se conecta com o eterno e o fugaz ao mesmo tempo.

14/11/2010

Janela Crítica - INT 02 – Os Laços que nos Separam


Versando sobre a união / desunião entre pessoas e sobre as formas em que estes estados podem se configurar, os diversos curtas desta mostra equilibram-se entre narrativas convencionais e projetos contundente e experimentais.

Com toques de melodrama, Homecoming (Kwok Zune, 2009) acompanha os infortúnios que cercam a vida de Charlie, que, desejando sustentar seus filhos, trabalhou durante vinte anos em Hong Kong, mas terminou por acreditar que o dinheiro que lhes enviava demonstrava o amor que sentia. Contudo, ao descobrir que Rex, seu filho, engravidou sua namorada e deseja viver sua vida de forma independente, ela começa a perceber a falha que cometeu durante todos aqueles anos. Com uma linguagem convencional, Zune deixa seus personagens dominarem a história, o que conseguem fazer com propriedade, ainda que o roteiro ressoe clichês que estamos acostumados a acompanhar.

Os fluxos de informação e conexão são tema do experimental Wireless in the world 2 (Timo Arnall, 2010) , que, valendo-se de efeitos especiais, expõe círculos de conexão nos lugares por onde a câmera passeia, gerando uma metáfora visual que pouco se desenvolve através do enredo e da direção, mas se encerra em sua idéia primordial.

Trazendo sua filha como protagonista em um curta singelo e sincero, A Bike Ride (Bernard Attal, 2009), Bernard Attal utiliza-se de sua própria biografia para falar sobre uma garotinha que aprende a lidar com as mudanças com leveza. Vendo seus pais se separarem, Nina anda com uma expressão triste, mesmo passeando de bicicleta com seu pai, e ouve sua voz serena tentando lhe oferecer formas de lidar com a realidade. Aos poucos, a garota consegue abrir-se diante das possibilidades e entraves que as situações da vida proporcionam e a desviar-se daquilo que parece fazê-la desviar-se do seu caminho, algo mostrado com sutileza pela talentosa atriz mirim e pelo habilidoso diretor.

Em Unplay (Joanna Rytel, 2009), vemos inicialmente um namorado sabendo a respeito de uma traição que sua namorada fez com seu amigo e desejando manter o controle da situação ao dizer que foi ele mesmo que planejou a transa entre os dois. No entanto, a moça acredita se revelar feminista ao dizer que foi ela quem planejou transar com ambos, mas, mesmo no domínio da sua sexualidade, não se pode acreditar que esse ato de “revolta” de fato favorece a igualdade entre homens e mulheres da melhor forma.

Mesclando técnicas de animação e live action, Unicycle film (Thomas Hicks, 2009) favorece a poesia visual ao exibir o caos da movimentação constante e o contraponto da tentativa de se conectar profundamente a alguém, longe da mecanicidade e da falsidade do cotidiano.

Propondo um olhar diferenciado entre a separação conjugal e as conseqüências deste ato através do olhar da criança, Videojuego (Dominga Sotomayor, 2009) expõe um infante que joga constantemente tênis no seu videogame, enquanto observamos seu pai empacotar caixas com seus pertences e deixar o lar. O menino pouco se importa com o rompimento definitivo daquele laço, mas difunde sua energia diante do jogo, não como uma atitude de revolta ou desprezo pela situação em seu entorno, mas uma tentativa de distanciamento da dor emocional que surgiria por causa daquela situação. A dissolução daquele laço familiar lhe afeta tanto que sua única solução é distanciar-se dele ao máximo, a fim de não se machucar com seus próprios sentimentos.

Janela Crítica - INT 01 – Intervenções


A ressignificação de um espaço, de um contexto a partir de pequenas ou grandes mudanças. Assim se pode pensar a intervenção, como ocorre nos curtas-metragens desta mostra competitiva.

Brincando com a ficção científica dos anos 50, Synchronisation (Rimas Sakalauskas, 2009) mostra, com a movimentação incomum de cenários dentro de um palco real, um olhar ao mesmo tempo sagaz e pueril sobre o cotidiano de prédios e estruturas banalizadas pelo cotidiano. Momentos de tranqüilidade e contemplação diante de uma tela que parece nos fazer sonhar com a realidade.

Baseado em uma história real ocorrida na Constantinopla de 1910, Chienne d’histoire (Serge Avédikian, 2010) utiliza-se da pintura para construir um curta doloroso em sua temática e estética. Pinturas em aquarela e fotografias em preto e branco se misturam para construir um clima dramático e tenso para a história que cerca a morte de milhares de cães - do considerado irracional e inútil para aquela sociedade.

Utilizando efeitos especiais sobrepostos a imagens reais que mostram o cotidiano futurista e o posterior encontro entre um rapaz e uma moça, o curta Augmented City 3D (Keiichi Matsuda, 2010) propõe ao espectador um questionamento sobre a definição de uma conexão real / presencial quando é o virtual que termina auxiliando nossa relação com ele.

Mostrando as intervenções de um pai e um filho com as paisagens, objetos e entre si, The Insurrectionists Progression (Sylvie Zijlmans e Hewald Jongenelis, 2009) parece questionar o absurdo do consumo, do acúmulo de bens na sociedade contemporânea, quando tudo aquilo que possuímos parece ser maior do que nossa essência e nos distancia da relação com o outro, prendendo-nos a um ciclo vicioso onde quem muda são nossas roupas, nossos objetos, mas nós terminamos sempre os mesmos.

Tratando da dificuldade de um homem pouco letrado em compreender a letra de uma música em outro idioma, Shoum (Katarina Zdjelar, 2009) reflete de maneira descontraída sobre o ilógico entre a formação do fonema e da gramática, da comicidade que emerge a partir do considerado ridículo, da perfeição da música na mídia em contraponto ao cântico espontâneo. O que pode ser considerado absurdo ou não.

Apresentando belíssimos movimentos de câmera e enquadramentos em diversos espaços internos de uma Índia que abre sua intimidade diante do público, Gaarud (Umesh Vinayak Kulkarni, 2009) mostra-se como uma pagina aberta onde o vazio dos espaços, do tempo, das pessoas e da vida paradoxalmente preenchem a tela. Enquanto algumas vidas se esvaziam, outras procuram se completar com a esperança de se religar ao divino, na tentativa de retornar à essência de onde viemos.

Para encerrar o programa, traz-se Big Bang Big Boom (Blu, 2010), que, utilizando-se de diversas técnicas e objetos – pedra, canos, furgões, lixeiras, bola, luvas etc -, propõe um novo olhar sobre o velho e aparentemente desgastado – seja os objetos que usa ou a própria temática da evolução. Um olhar ao mesmo tempo maravilhado e cético sobre o que temos feito com o que temos nas mãos.

Janela Crítica - BRA 02 – Guiados por Vozes


Pensando no poder transformador que a música exerce sobre seus ouvintes, os curtas a seguir dispõem das mais diversas formas para traduzir esse sentimento de influência que ela exerce sobre nós.

No documentário com toques ficcionais Áurea (Zeca Ferreira, 2009), vemos e ouvimos uma cantora de bar apaixonada pelo seu ofício contar e cantar sua história equilibrando-se entre depoimentos e reconstituições de época em que ela e seus amigos de carreira interpretam a si mesmos. Esta declaração de amor à música, no entanto, permanece como uma experiência excessivamente estética que termina perdendo em espontaneidade: os enquadramentos, fotografia, figurino e posicionamento dos depoentes milimetricamente planejados não auxiliam na emergência de um sentimento verdadeiro diante da câmera. Apenas observamos uma versão que aquelas pessoas criaram para si mesmas, pois, talvez tão preocupadas com suas próprias imagens na tela, tenham esquecido de mostrar seu eu mais verdadeiro.

Apropriando-se do tema da arte como uma forma de expressão e contestação, RAZ (André Lavaquial, 2010) desloca a intenção original do diretor – tratar dos adolescentes romenos que cantam nos metrôs em Paris a fim de sobreviver – para outra realidade: as favelas no Rio de Janeiro. Enquanto luta para construir uma vida diferente para si mesmo, RAZ perde seu rádio no meio da cidade e encontra, através das estátuas vivas, outra ferramenta - uma vitrola e discos de vinil - que pode lhe proporcionar a sobrevivência. Com imagens que mesclam sonho e realidade com muita propriedade, Lavaquial realiza uma jornada musical por diversos ritmos ao longo de um dia na vida de um adolescente que deseja simplesmente sair, escapar de uma vida de desconforto e melhorar. Contudo, talvez seu impacto fosse maior se sua proposta original fosse executada, já que esta estratégia de sobrevivência já se tornou usual no Brasil, mas observar este tipo de trabalho na França é algo diferente e que causaria um estranhamento que favoreceria a mensagem do curta.

Trabalhando novamente com a poesia imagética e sonora que a Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos (Camilo Cavalcante, 2009) proporciona, Camilo traz um painel do sertanejo sofredor e trabalhador que encontra na religiosidade uma esperança de seguir em frente, ainda que ele não esteja distanciado do restante do mundo – como atesta o final do curta. Bela fotografia, montagem e som, mas com uma representação do Nordeste que já estamos acostumados a ver.

Versando sobre a incomunicabilidade entre duas pessoas que falam idiomas diferentes e o surgimento de uma amizade entre elas, o curta A Amiga Americana (Ivo Lopes e Ricardo Pretti, 2009) termina por se tornar um retrato simplista que pouco oferece ao seu público. Seu diretor parece não confiar na imagem e na montagem e subestima seu espectador com letreiros que explicam em demasia o enredo, que, por si só, já apresenta falhas graves na construção das personagens e das situações, algo que as atrizes também não conseguem melhorar. E, ao final, num ponto de virada abrupto e deslocado, Paris afirma que aprendeu muito com Thais e seu filho Ian sobre formar uma família e criar laços – sendo que, em nenhum momento anterior, ela parece demonstrar alguma ‘necessidade’ de aprendizado, tornando seu desenvolvimento frágil –, mas vai embora para procurar praias e não algum relacionamento rompido ou novo. Uma proposta inicial interessante, mas que parece ter se perdido ao longo da execução do trabalho.

13/11/2010

Janela Crítica - BRA 01 – Salvar Arquivo Vol. 2



Transportar imagens e sons além do tempo e do espaço, ressignificando seus contextos históricos, políticos, culturais, mas, acima de tudo, afetivos. Desse modo, parece se configurar a Mostra Competitiva BRA 01 – Salvar Arquivo Vol. 2, que trabalha com arquivos previamente realizados, sejam antigos ou novos.

Trabalhando com o registro dos primeiros anos do chamado Cinema Silencioso em Recife, Janela Molhada (Marcos Henrique Lopes, 2010) equilibra imagens de arquivo e depoimentos de pesquisadores de cinema, atores da época e restauradores das obras em questão, a fim de esmiuçar ao espectador as relações que se estabeleciam através desse nascimento do cinema na Veneza Brasileira. Um documentário que não chama atenção sobre si mesmo, mas permite que seu objeto fale por si.

O segundo curta da noite – Fantasmas (André Novais Oliveira, 2009) – mostra-se como um convite à intimidade de dois amigos, que, partindo de uma conversa banal, terminam por conduzir o espectador por um caminho onde a dor/desejo do protagonista se revelam através do que não está na tela, mas que se espera que esteja. A história não acontece diante da câmera, mas na relação que seu diretor estabelece com a imagem.

Em contraponto/complementação a este curta, surge Supermemórias (Danilo Carvalho, 2010), que pode se definir como um registro familiar e afetivo em Super-8 de memórias, pensamentos e da identidade de uma época – especificamente na Fortaleza dos anos 70. O trivial, o desgastado, o ruído, a musicalidade, o exibicionismo diante da câmera reverberam uma época onde a presença da câmera alterava consideravelmente o posicionamento das pessoas filmadas, como se atuassem diante dela. E, se hoje vivemos uma evolução da nossa relação com a imagem, como os nossos vídeos caseiros falarão a nosso respeito daqui a 40 anos?

E fechando esse ciclo do pensar sobre a imagem como registro, surge Aeroporto (Marcelo Pedroso, 2010), que, equilibrando fotos de sua protagonista a observar as pessoas que passam no aeroporto e as “cartas” que narram para o espectador, mostra um olhar particular sobre os viajantes e desvenda não somente as memórias que eles carregam dentro de si, mas também os rastros que deixaram por onde passaram.

Essa mostra revela um pouco sobre nossas tentativas de eternizar o efêmero, como se não somente as imagens fossem transportadas através do tempo e do espaço, mas também nossa consciência, na tentativa de compreendê-la/compreender-nos um pouco melhor.

12/11/2010

Janela Crítica - 12.11 - Abertura


Uma noite de celebração ao cinema, à arte, à humanidade. Assim se pode sintetizar a abertura da III Janela Internacional de Cinema, que nos trouxe curtas-metragens e um longa que fazem o espectador repensar-se como artista... de uma câmera na mão.

O primeiro curta-metragem – Avós (Michael Wahrmann, 2009) – trata-se de um olhar carinhoso e nostálgico tanto sobre uma época, um cotidiano que não se vive mais como sobre o próprio cinema e sua capacidade de nos permitir olhar para nós mesmos e nos preservar, oferecer a possibilidade de ser um pouco eterno. O segundo curta – Big Bang Big Boom (Blu, 2010) – propõe uma reflexão dos fatos e conseqüências que cercam a evolução. Utilizando diversos objetos cotidianos e mesclando técnicas diferentes de animação – desenho 2D, stop motion –, o diretor nos oferece uma visão ampla do que pode-se chamar desenvolvimento: um progresso não somente da humanidade, mas também da própria arte. Se, de início, o espectador pode se maravilhar com as infinitas possibilidades de expressão que a animação/tecnologia proporciona, ao final do curta, permanece um questionamento: “A que preço temos evoluído?”.

No longa-metragem da noite – Além da Estrada (Charly Braun, 2010) -, descobre-se um contador de histórias apaixonado por suas personagens, que almeja vasculhar cada movimento seu, a fim capturar seus instantes mais verdadeiros. Seguindo seus protagonistas, Santiago e Juliette, ao longo da estrada e do romance que se inicia entre eles, Braun propõe uma experiência cinematográfica que conhece seu ponto de partida, mas caminha rumo ao desconhecido, ao inesperado do mundo real. Se o público reconhece o enredo das comédias românticas hollywoodianas desde o princípio, é porque é desse elemento humano que elas se valem para construir tramas que ressoam clichês e situações que não estão vivas dentro de nós. No entanto, Braun propõe ao espectador um painel sincero e singelo de personagens que redescobrem sua humanidade ao decidir escolher um caminho espontâneo e imprevisível para suas vidas. O canto do coração, como atesta uma das personagens. A estrada do próprio coração.

11/11/2010

Autodestruição e Violência Prosaica: The Big Shave


Desde o título, The Big Shave (Martin Scorsese, 1967) mostra-se um curta superlativo, que mal consegue se conter em seus seis minutos de duração, permanecendo por tempos após a projeção, revelando, desde cedo, o cineasta que nos entregaria obras como Cassino (1995) e Alice Doesn't Live Here Anymore (1974).

Aparentemente versando sobre o banal ato de se barbear, o curta revela um dos temas que se encontrarão posteriormente na filmografia scorsesiana: o temor/anseio de autodestruição de seus protagonistas em meio a um mundo de violência prosaica e cotidiana. Close-ups extremos de um banheiro asséptico denotam um olhar diferenciado sobre aquele espaço, que, através de seu herói pouco convencional, será palco do incômodo do inesperado: o homem começa a mutilar seu próprio rosto com uma navalha, deixando o sangue deslizar pela sua face inexpressiva e sobre a porcelana branca da pia límpida. Cortes abruptos e uma trilha sonora desconcertante pontuam a violência inconseqüente e gráfica que o homem infringe sobre si mesmo com sua expressão tranqüila, restando ao espectador a incompreensão e a impotência diante do que acabou de presenciar. Amar ou odiar parecem verbos irrelevantes em uma experiência cinematográfica tão particular, mesmo que este espécime pareça ter se desgastado após tantos anos de evolução e sofisticação do happening cinematográfico.

Assim como Henry Hill (The Godfellas, 1990), Howard Hughes (The Aviator, 2004), Travis Brickle (Taxi Driver, 1976) e tantos outros ícones da cinematografia de Scorsese, nosso protagonista caminha inconscientemente rumo a sua autodestruição, à quebra da lógica, do contínuo. Sua indolor trajetória reflete-se, paradoxalmente, em nossa angústia diante do que é visto, pela identificação imediata com o receio/desejo de interromper nossa letargia cotidiana, oculta em vicissitudes diárias que, se aparentemente nada revelam sobre nós, tornam-se refúgio do nosso inconsciente, de nossa humanidade.

27/09/2010

Boogie Nights: Uma Família de Desiludidos e Alienados


Ao ver e sentir o cinema de Paul Thomas Anderson de uma maneira geral, encontramos um painel humano da alienação cotidiana, da ilusão de se enxergar diferente dos outros, distanciado da sociedade, seja em Magnólia (Magnolia, 1999), Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002) ou em Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007).

Quando pensamos no seu primeiro filme mainstream - ainda não vi Jogada de Risco (Sydney / Hard Eight, 1996) -, no caso de Boogie Nights (Boogie Nights, 1997), podemos reconhecer um cineasta nato, que usa e abusa da linguagem cinematográfica de maneira dinâmica para contar sua história: durante as décadas de 70 e 80, Eddie Adams, um jovem de 17 anos, trabalha num clube noturno frequentado pelo submundo de Los Angeles, dentre eles, Jack Horner, um diretor de filmes pornográficos. Numa dessas noites, o cineasta, ao ver o rapaz, convida-o para participar de sua equipe de produção, pois percebe nele um grande potencial. A princípio desconfiado com a proposta, Eddie, depois de uma briga com sua mãe, sai de casa e procura abrigo com seu novo empregador, através do qual conhece um mundo onde sexo, drogas e riqueza chamam logo sua atenção.

Sua ascensão, queda e renascimento são o foco do cineasta, que, a partir de seu protagonista, abre a passarela para o desfile de diversos personagens cativantes e extremamente humanos:
Amber Waves, estrela dos filmes de Horner e mãe que enfrenta um processo pela guarda do filho; Rollergirl, estudante que deixa os estudos para seguir a carreira de atriz pornô; Buck Swope, ator e vendedor que sonha em montar uma loja de eletrônicos; Little Bill, iluminador que ama uma mulher queo trai literalmente diante de todos; Reed Rothchild, ator que, a princípio desdenhoso com o novo astro Dirk Diggler, se aproveita dele para se manter na mídia; Maurice Rodriguez, dono de um clube noturno que almeja a "fama" de se tornar um ator pornô, mesmo não atendendo aos padrões de beleza necessários para tal; e Scotty, responsável pelo som do filme e que está apaixonado por Diggler. Uma galeria de pessoas à margem do cinema hollywoodiano, mas humanos acima de tudo.

Anderson foca não só na trajetória de Adams - que adere a um novo nome: Dirk Diggler -, mas, com seu roteiro, câmera e edição dinâmicos, consegue se misturar àquele meio de ilusão e fama, onde, aos poucos, todos começam a se revelar. com essa descrição, o cinema de PT Anderson poderia soar moralista, mas o desenvolver de seu elenco confere grande humanidade a cada uma das personagens que passeiam pelas lentes do cineasta. Enquanto todos se enredam cada vez mais nessa teia de prazeres revolucionários de uma década de desbunde, sua humanidade e fraternidade emergem quando enxergamos naquele estúdio um pai, uma mãe, um filho, uma filha e tantos outros membros que ora se amam, ora se desentendem.

Todos necessitamos de uma família, onde quer que estejamos. Esta família que Jack Horner construiu está repleta de viciados e traficantes que trabalham em empregos diurnos e sonham com uma vida diferente, mães e filhas que transam diante de câmeras, diretores e produtores de pornôs que se iludem com a esperança de estar fazendo arte e entretenimento. Semelhante a Eddie Adams e sua crença de que "cada um tem um dom especial", agarramo-nos a nós mesmos e nossa capacidade de realizar qualquer coisa que somente nós mesmos poderíamos fazer.. de ser únicos.

24/07/2010

Um Cinema da Mente - A Origem


Revisitando e aprofundando o tema da mente humana, como em seus longas anteriores, Christopher Nolan equilibra entretenimento e profundidade num dos maiores sucessos de público e crítica do ano: A Origem.

Se em seu início de carreira, Amnésia utilizava-se da condição médica de seu protagonista, Leonard (Guy Pearce) e de um roteiro com referências ao gênero noir na sequência inversa para destrinchar os meandros de uma mente inconsequente e pouco confiável, O Grande Truque revela um cineasta pleno em sua arte ao propor um painel sobre a criação artística e sua relação com a identidade, empregando uma estrutura complexa de flashbacks dentro de flashbacks, vemos como a grande aceitação através do sucesso de público de Batman não consegue alterar o conceito de seu cinema. Tanto em Batman Begins como em The Dark Knight, Nolan utiliza-se de material pré-existente para conceber um universo realista e soturno onde o heroísmo e a vilania caminham lado a lado, onde racional e irracional são fronteiras voláteis, um terreno onde a mente humana caminha livre ou temerosamente.

Em sua obra-prima, Nolan utiliza de todos os elementos que o consagraram para expandir os limites do cinema ao contar uma história como nunca se viu antes: Dom Cobb é um experiente ladrão, capaz de penetrar no íntimo e infinito universo dos sonhos e, assim, roubar valiosos segredos dos subconscientes das pessoas enquanto elas estão dormindo. Depois de mostrar suas habilidades para Saito, um poderoso empresário que almeja utilizar-se delas para realizar um plano magistral: ao invés de roubas idéias, ele deseja implantar uma no inconsciente de Robert Fischer a fim de que este resolva dividir o império financeiro de seu pai moribundo, deixando o caminho livre para que Saito desenvolva sua empresa. Em troca, este garante que conseguirá a liberdade para que Cobb possa retornar aos EUA para seus filhos, depois que as acusações de ter matado sua esposa, Mal, sejam retiradas. Para tal, ele precisa recrutar uma equipe de talentosos profissionais: Arthur, seu braço direito e responsável pelos treinamentos; Ariadne, responsável pela arquitetura dos sonhos; Eames, falsificador de “pessoas” projetadas nos sonhos alheios; e Yusuf, químico que compõe sedativos poderosos a fim de prolongar e aprofundar o nível dos sonhos da equipe.

Se trabalhasse somente com a idéia da idéia do roubo dentro de sonhos, já seria uma trama suficientemente original, mas Nolan a explora até as últimas conseqüências: os sonhos são compartilhados por toda a equipe para cumprir o plano, que descem o nível dos sonhos a fim de implantar a idéia num nível cada vez maior de inconsciência, enquanto são perseguidos pelo próprio inconsciente de Fischer, representado por agentes que se lançam contra a equipe. Lembrando o nível de aprofundamento que Charlie Kauffman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) realiza em seus roteiros – tanto temática (mente humana) quando estruturalmente (níveis de aprofundamento gradativos) -, Nolan diferencia-se deste por ser menos melancólico e reflexivo e mais espetacular e soturno, compondo um longa que se destaca pela sua habilidade em coordenar com maestria seu elenco internacional, fotografia adequada, trilha forte e sutil e um roteiro magistralmente escrito, que, equilibrando elementos de ficção científica, filme de espionagem, drama e noir, torna-se um longa surpreendente e imprevisível, com reviravoltas e aprofundamentos que vasculham a mente de seus protagonistas da maneira que parece mais racional, mas como elementos inconscientes que desestabilizam o espectador. Além disso, a montagem torna-se sua maior arte, já que consegue equilibrar cinco níveis de trama sem se perder em nenhum momento e manter a dialética entre os jogos de força que se estabelecem e se influenciam. Em seu clímax, Cobb, Mal e Ariadne estão no limbo tentando resgatar Fischer e resolver uma pendência emocional essencial para o desfecho, enquanto nos níveis anteriores, ocorrem perseguições, mortes e emboscadas que influenciam nas sonhos mais profundos, numa corrida contra o tempo que se revela inacreditável em seu desfecho, quando a certeza entre ter vivido um sonho ou estar no mundo real se desestabiliza até para o espectador.

Enquanto o cinema contemporâneo tem agregado outras artes – histórias em quadrinhos, pintura, teatro etc - na evolução da chamada cultura de convergência, Nolan realiza cinema para explorar as potencialidades do próprio cinema, filmes que se utilizam de sua linguagem de forma elegante e bem construída a fim de sempre dar um passo à frente na experiência cinematográfica, na mesma medida em que amplia as reflexões e sensações que os enigmas da mente humana podem oferecer.


23/07/2010

Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo – Crônicas de Vaudeville


A sexualidade humana, diferente da dos animais, apresenta-se de forma mais complexa e desenvolvida por um elemento em particular: a linguagem.

Característica essencial do homem, a linguagem faz com que o homem reflita e fale sobre sua sexualidade, permitindo-o questionar instintos e dogmas construídos ao longo de sua vivência no mundo, principalmente nos campos da Psicologia e da Arte. Surgindo dramática ou cômica, satírica ou erótica, a sexualidade sempre desperta curiosidade porque universaliza o ser humano, ainda mais de forma tão envolvente como no longa Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar).

Trazendo um Woody Allen em início de carreira, este longa, composto por sete segmentos baseados em seções do livro de não-ficção de Paul Reuben, acompanha desde um bobo da corte que dá um afrodisíaco para a rainha até espermatozóides com dúvidas e medos sobre serem ejaculados, passando por um doutor que se apaixona por uma ovelha e um seio predador. Estas esquetes expõem o nonsense dentro do cotidiano a fim de explorar o absurdo sobre a forma como a sociedade trata uma sexualidade cheia de dilemas e vicissitudes, que se mostra mais incompleta do que benéfica em certos momentos.

Allen imprime sua persona a cada um dos segmentos, seguido por um elenco competente que eleva o status teatral das composições a um quadro cinematográfico por algumas sequências em particular, como Gene Wilder e Lynn Redgrave.

Shrek Para Sempre e o Desgaste da Paródia


O primeiro longa de animação a ganhar o Oscar na categoria – o Shrek original – era um conto de fadas às avessas, que, contava uma história a la Bela e a Fera, mas permeado de esquetes cômicas que compunham um cenário satírico ao universo das histórias da carochinha que divertia e envolvia o espectador de qualquer idade.

Contudo, ao longo do tempo, foram criadas as sequências ao original e o tom de paródia, mesmo que permaneça, parece enfraquecido pela tentativa de criar um arco dramático mais emocionante – mesmo que sem sucesso, por se apoiar em clichês do gênero - e estabelecer piadas prontas e datadas – através de referências pop esvaziadas de significado que nada acrescentam ao enredo. O que nos leva ao enredo de Shrek Para Sempre: depois de várias aventuras, Shrek virou um homem de família, pois, ao invés de ficar assustando os moradores locais, o ogro verde vive dando autógrafos. Pensando no passado, quando realmente se sentia como um ogro, Shrek assina um contrato com Rumplestiltskin e sua vida muda completamente: ele passa a viver em mundo que é o oposto do Reino Tão Tão Distante, em que os ogros são caçados, nem o Burro e o Gato de Botas são seus amigos e Fiona nem o conhece.

Mesmo apresentando qualidade em algumas piadas, o longa como um todo não se sustenta com um enredo típico de A Felicidade Não Se Compra (Frank Capra, 1946), referenciando a sua estrutura e desenvolvimento sem oferecer qualquer novidade – como ocorria no longa original, onde, ao Fiona se transformar em ogro depois do beijo de Shrek, subvertia o desfecho de A Bela e a Fera, propondo um final mais lógico com a proposta de ir de encontro à ditadura da beleza.

Esta terceira sequência prefere ser entretenimento esquecível a participar de uma revolução na maneira de contar histórias, como foi seu antecessor.